quarta-feira, 29 de novembro de 2017


VALOR

“Na verdade, a escolha de um valor é sempre individual (cada indivíduo faz a sua escolha), mas, aos olhos desse indivíduo, essa escolha não é subjetiva como os gostos e as cores; o valor de um objeto é sentido como pertencendo objetivamente a esse objeto, e não como vindo a mim. Quando aderimos a um valor (o altruísmo, a humanidade, o respeito à natureza), temos o sentimento de responder a um apelo desse objeto mesmo, de termos para com ele um dever de não indiferença, ainda que outros indivíduos, que fizeram uma outra escolha, não sintam nada disso”.


Historiador francês Paul Veyne

terça-feira, 7 de novembro de 2017


TOMA, QUE É TEU

As águas paradas,
As folhas balançantes,
Meus dedos tortos,
Anteontem,
O verso do papel,
Quem casou com quem,
Sinto muito e mais,
Vou caminhando,
Ela arrasta móveis,
Passam por mim,
Um pássaro quase atropelado,
Uma música ao longe,
O amigo que me cumprimenta,
Adeus,
Nenhum dinheiro no bolso,
Digo a mim que sigo só. Vou indo à toa.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017


17H, AINDA NO INFERNO

São Paulo tem as paisagens acústicas mais insuportáveis do planeta. Em meu edifício, como em tantos outros, alguém deve demolir internamente um apartamento. É durante o dia, você não pode reclamar, nem fazer nada no mesmo sentido. Impossível conversar com alguém, atender um telefonema ou ouvir uma reportagem radiofônica (meu caso) a 30cm do aparelho. Acrescente sirenes, polícia, ambulâncias, motocicletas e motores de vária natureza. Só a morte traz silêncio.

A máquina furadeira ou britadeira o deixa no chão, embaixo de qualquer móvel com os dedos nos ouvidos. Você tem que desaparecer para lugar nenhum. Direito a que, homem branco? Sua casa já não existe; você é sumariamente violentado. Ligue para a portaria e será tido como chato, porque estão todos surdos pelos fonezinhos de orelhas. Isto aqui é um desabafo inútil à frente de “assassinatos” ou violência da ordem alegada.


“Não faça nada até 17h” diz lá o zelador pelo interfone. É Lei do condomínio; enquanto engole sapos, até que vomite um dragão de sangue e fogo. Não tem poder, a cidade é santa, a ordem Humana está desmanchada e São Paulo é incontrolável, desgovernada e incontornável. Ir pra onde? Para o inferno da rua, e adoeça. “Qualidade de vida” é a p... Morte, morte e morte, o silêncio que esperamos no fim de tudo - ele nos tem de direito.

terça-feira, 24 de outubro de 2017


TAMBÉM EM NÓS

A propósito dos trágicos incidentes de Janaúba e Goiânia (MG E GO)

Se indagada, Pandora não titubearia: o Mal existe, sim, e é onipresente, mas não é um "em si", não é possível detectá-lo em sua integridade. Fosse desse modo, poderíamos destruí-lo. Ele mora em fazenda metafísica. Uma existência a dissimular sua essência vazia. Manifesta-se apenas "através"; está nos danos que causa a quaisquer formas de vida. É passageiro (dor) ou permanente (morte). Estamos na dimensão física, a moral é complexa e, no caso dos eventos recentes, em Minas e Goiás, a segunda dimensão atingiu os algozes.

          Aqui, é preciso refletir ligeiramente e por simplificação sobre a natureza da morte, em razão da brevidade deste texto. Há a morte maléfica e a benéfica. A primeira não serve à vida, é provocada gratuitamente, por razão fútil, sem necessidade que a mova. A segunda conduz a reprodução da vida na cadeia alimentar, por exemplo. Há uma terceira, a que resulta da "fadiga de material", que chamam de "natural". No fim, "nada se perde, tudo se transforma", tudo serve à vida, mas interessa que o Mal se alimenta dos danos injustificados, é disso que se trata aqui.

Pensando nele, refiro-me à ação de matar que é fruto de uma vontade demente, em que há um agente e um arbítrio. Por isso, a morte resultante de um desastre natural não entra nessas considerações. A Natureza é indiferente à vida como a tomamos agora, quando realiza seus terríveis movimentos - não existe a morte, mas a transformação permanente, estrondosa ou silenciosa. 

        Se a morte é absoluta, irreversível, a dor é relativa, revogável, mormente se provocadas por terceiros, voluntária ou involuntariamente. O Mal se manifesta  através da voluntariedade, é óbvio. Juízo moral é coisa de humanos. Entretanto, quando a dor ou a morte são autoinfligidas existe também a expressão do Mal, porque há aí um "outro" em si,  como um Eu que se desmembra - a pessoa que se sabe esgarçada no prazer que "se abusa", por exemplo; na automutilação patológica também. Em Janaúba e Goiânia, a dor casou com a morte.


É forçoso notar que, em ambos os casos, existe um indivíduo em oposição a um grupo, seja este qual for (crianças e cuidadores na creche; colegas de turma na escola), considere-se um contexto mínimo e haverá outro análogo em grau máximo: o indivíduo em guerra com a massa que o esmaga. Os dois eventos não foram contendas entre indivíduos isolados. Assim tem sido em outros “massacres” semelhantes pelo planeta afora (aqui mesmo, há alguns anos, em Realengo, RJ), especialmente nos E.U.A.


Seus responsáveis se autoeliminam (autoimolam) ou são eliminados por agentes do Estado – as prisões não são a regra. Importa que ressurgirão em outros momentos, outros locais. A psicologia social e não a, clínica poderia tentar explicar o terreno adubado por isolamentos e pertencimentos, propício à expressividade do Mal. No abismo de si, “Eu, porque só, sou mau; outros, porque gregários, são bons. Morram todos!” 

Quem há de julgar?  Quem quer matar mas não mata? O Estado? O parceiro do infortúnio existencial de sempre? O vulgo feito jurado pela mão do Direito Penal?  Resposta nenhuma é satisfatória, seria fruto de nossa precária condição humana.

O que é o Mal? Ele não é, está no plano do intangível e inefável, é nosso vizinho invisível e o mais próximo; suspeitamos dele na sua manifestada consequência - a causa tem endereço incerto ou ignorado.


Essa conversa é comprida, sem o fio de meada e aonde o fim de seu horizonte nunca chega, não vá buscá-lo, nunca estará lá. Matam, morrem; machucam e são machucados - coisa de humanos, que gostamos de pensar que não somos, preferimos a confortável máscara "criaturas de Deus", superiores. É enfadonho e triste. Conta o mito que Pandora, desesperada com o feito, fechou a caixa; dentro restou apenas a Esperança, esta inconfiável. Verdade é que não foi bem fechada. É assim, sim. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017


PREVISÃO DE TEMPO

Há um deslocamento
De  cavalos;
Um movimento de baratas
Nos solos de verão;
Brotos, sem pedir licença,
Inundam as árvores;
Flores inconvenientes
Aparecem na fronde dos vegetais;
Todos os mariscos reclamam,
As formigas estão em férias
No hemisfério norte.
O governo federal pensa
Em queimar tudo.
Eu dobro o travesseiro
E fecho os olhos
Na minha pobre melancolia.

AÍ FOI

Na comparação de corpos,
Mede-se a dor.
Alternadamente, um abre a janela,
Outro
Fecha a porta
Enquanto os sabiás se acasalam.
A primavera vem com fome,
A que não existe.

De todos os lençois
Sob os quais me deitei
Um
Diz não sobre meus desígnios:
O último,
O que esperava sem ânsia,
Com muita paciência,
Sem ciência.
Era povoado de ecos dos que
Um dia me vestiram.

terça-feira, 26 de setembro de 2017


TRISTE

Primeiro você pisa
Na planta nascente.
Ela não tem nem como
Manifestar-se.
Você é adolescente,
Expressa-se por boné,
Tênis e língua estranha.
A planta morre,
Você também
Pela lixa que o consome,
Estúpido como a sola.
O grito inaudível e
A solidão de uma arrogância
Que não libera os mares.
Você não viaja, não ama nem é amado
E fecha a mão na masturbação
Morta. Você é um sucesso.

terça-feira, 29 de agosto de 2017


E O BOI DORME

Brasileiros gostam de brincar de casinha sob a tutela do estado. Aqui, parece, para a democracia bastam eleições. Assim: grosso modo, candidatos patifes, eleitores imbecis. Eleições convenientemente caríssimas. Tudo é obrigatório: votar, haver partidos devidamente registrados, candidatos pertencerem a eles, horário eleitoral nas media, domicílio eleitoral e financiamento público de campanha (fundo partidário). É um negócio bilionário a portas fechadas, como futebol e certas religiões. Não pode dar certo, acaba sempre mal (para nós outros). Como pano de fundo, os clichês, vazios como é de sua natureza, "os lugares comuns das retóricas mortas"*: autoestima, cidadania, empoderamento, protagonismo, sustentabilidade, reformas, transparência, inclusão e por aí afora. Argh! Paga e toma, que é teu.


* G. Greene.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017


A FUGA

Vi todas essas árvores crescerem,
Florescerem e desfolharem.
Vi os pássaros nascerem e morrerem.
Fui amigo de todos os cães vadios
Que serviam-se de meu sangue
Excedente.
Até que, um dia, desapareceram,
Como todos os vizinhos.
Aí, os insetos secaram
E o dia nunca mais nasceu.
A noite em mim adormeceu.
Por fim, nunca mais sonhei.
Deixei-me tomar por um mar
De memórias
Dos outros; de mim
Ninguém mais se lembra.
Trilhos se rebelaram
E o trem voltou pra casa.

terça-feira, 22 de agosto de 2017


MORTE

Terás teu tento
O campeonato é teu.
Tudo sorrirá por ti.
Dormirás na grama
E o céu abrirá as portas.
Depois ficarás nu,
Saberás teus limites
E não procurarás um médico.
Sabes que vais morrer
Tão logo o sabiá entrar
Em cantos roucos,
As visitas começarem a chegar
Em peso.
Então, alertarás:
Todas as cobras estão soltas,
Os gatos, mortos,
As gavetas das facas, abertas
E teu legado são as avencas
Abertas. E morrerás por fim.
O portão fechado num não.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017


FELICIDADE

Mulheres ...
O que querem as mulheres?
Não sabe. Teve muitas.
Nesse caso, ter é verbo podre.
Não aprendeu nada.
O que querem as pessoas?
Muitas passaram por ele.
E ele por elas.
O que querem as pessoas?
Dizem que é amor.
Ele não passeia neste parque.
Não gosta muito de si.
Existir o aborrece.
Melhor é não ter nascido.
Abraça, só, a vida nele. E já é muito.
Encanta-se com os bichos.
O sol e os passarinhos lhe dão bom dia.
Quem diria?
É feliz a seu modo.
Só e apenas.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017


TRANCO

O vidro quebrado na janela,
A verdade de meus desmembramentos:
Não tenho pulsos,
Não tenho pernas.
Ando aos soltos,
Caminho aos empurrões
Carregando peles.
Envelheci.
Não deixo legados,
Não sei quem herdará
A biblioteca pessoal,
Poemas ruins,
Minhas últimas mulheres, meu filho.
Não há ninguém, só mins.
Há só barba a fazer,
Cabelos a pentear,
Paisagens feias,
Contas a pagar
E outonos, invernos.
Não suporto verões.
A primavera não existe,
Mas há uma aranhinha na cozinha
Com dois nhs. Fico povoado.
Esta verdadeiramente amo.
Sou meu sabonete que caiu.
Adormeço com um tenor de Coltrane,
Adormeço comigo,
Sim com sins.

terça-feira, 1 de agosto de 2017


SEUS 6
                                          a izolda

Tanto faz qualquer dia
Dansifussário e os mortos.
Você surgiu em alguma goma,
Colas de amoras.
Você em algum momento
Foi linda e, hoje, ainda goza
A beleza.
Ficamos lixando
As solas dos pés.
A luz é o que abre
A água de nossos braços,
A angústia de nossos ventos
Ou a brisa de nossas escapadas
Devassas. Felicidades.
Amamos o mingau de todo dia,
O que odiamos.
A tesoura da aranha
Nos cantos de nossos segredos.
Graças a deuses.
 Os que eram de ontens.
Amávamos as formigas lindas.
As abelhas que nos beijavam
Em mel.

E É QUE FOI

Quando de meu bom
Saiu um dia,
De seu dia saiu um logro.
Então, de meus olhos saiu
Um sim,
Dos seus também.
Combinamos que de nossos dias
Sairiam sins
E dos nãos sairiam outros mais,
Que seriam variados
Sins e nãos em festas,
Fora de controle,
Um certo acervo difuso
De desapontamentos compartilhados.


PING-PONG
                                                         A Izolda    

A bolha que, do nada, nos dependura,
Vazia em si, pele fina cobrindo ocos.
A gota que não pinga nunca
Enquanto vivos estivermos.
Furá-la nos reduziria à existência de escravos;
Mas ela, ao longo, infla
Até o insuportável.
Então, como gatos apavorados,
Consideramos pular da janela.
Como o jogo de ter nascido é este,
Não aceitá-lo. Jogo imposto. Nada.
O verdadeiro jogo nos cabe criá-lo.
A Arte, seja qual for.
E deixarmos o legado da dor
Que, de qualquer jeito, já sabíamos.
Tolerar, deixar em planície,
Serenar nas árvores ou em suas mudas.
Agora é com eles seu novo dar e dor,
Descendências de mamíferos
Que se reproduzem na inutilidade
De existir. Sentido?
Insisto: a Arte,
Quaisquer: a do ferreiro,, a da bailarina, a bolinha branca
No jogo vazio com a vida,
No feliz aniversário que enfiamos no bolso furado.
A manhã que nos agasalha a cada dia
E a noite que nos ensombrece.
Puta que pariu!




TODO DIA

Abro a janela,
A luz invade,
Fecho os olhos
E me vejo tonto
De mim.
Terei de ser
O pior dos homens
Mais simpáticos.