ELUCUBRAÇÕES
1. Depois de lidas, mais, muito mais de milhares de palavras em séries sucessivas e articuladas - é o que chamam "texto" - desconfiamos que algo ali se repete, mas não conseguimos identificar, por maior que seja o esforço. O que não identificamos e se repete é o que chamam "estilo". Mas não estou tão seguro.
2. Essa situação: na conversa amena e divertida de sempre, ela, atrasada, desaba, pisoteando. Então se senta e - não sei como consegue - segue atropelando mais uns vinte ausentes. Sem nem se perguntar se pode.
Embora não gostemos muito, ou quase nada, ou nada, nós relevamos, ou melhor, nos calamos, já mudos. Paralisados pela covardia de não nos levantarmos; nunca nos levantarmos e sairmos. Como se lá estivéssemos sob o tacão de uma sentença perpétua. Mastigamos, pouco a pouco, a manhã que se espreguiça ainda. Assim, ficamos - a prisão do hábito - ouvindo-a falar um falar monótono e sem fim. É a vez dela - como sempre, é a vez dela; se não for, ela faz que seja, para o todo e sempre.
Juntamo-nos, quatro, àqueles vinte sempre inexistentes. Por quê?!
3. Transtorno de sono: eu hoje acordei a uma da manhã e não mais dormi. Eu, hoje, quase acordei ontem. Não é interessante pensar nisto: dormir ontem e acordar ontem? E não é mais interessante ainda pensar que a linguagem, como todas as convenções, nos cria armadilhas engenhosas, tendo em vista que o tempo é, em nossa cultura, uma linha seguindo inexoravelmente em frente, sem volta? No limite, como dormir hoje e acordar ontem?! Não sei, mas vou conseguir.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
sábado, 5 de abril de 2008
ENCAFIFADO: PRESSÃO 17 POR 11
1. Diante de tamanhos e diários horrores, penso: os animais devem ter alguma espécie de inteligência - a que lhes serve. O que não sei, cá comigo, é para que serve a propalada, humana.
2. Toda generosidade é bem interesseira. Ocorre que os interesses, singular ou plural, estão muito bem ocultos. Até mesmo do próprio generoso. Essa sobredita "virtude" vinha sendo pensada como exclusivamente humana - algo que nos faria diferentes dos primatas, por exemplo. Recentemente, notaram que ela pode muito bem existir entre alguns deles. Verificaram. Pergunto-me: nestes, o interesse também é muito bem escondidinho?
3. Às vezes, bate-me a sensação de que já nascemos prontos. O que somos sempre fomos. A perspectiva de uma mudança extrema de rumo em nossas vidas, uma ilusão, um truque. Como o jogo entre o trem e a paisagem. Para quem nele viaja, é a paisagem que passa; para esta, é o trem. Em nosso caso, quem é o trem? Quem, a paisagem? Já que prontos, o tempo é o que passa. Deixar de fazer isto ou aquilo, não nos torna outro. Para os outros, sim; somos outro. Em nós, não; os outros é que continuam sendo os mesmos outros. Prontos todos, no mesmo trem, a deslizar naquela mesma paisagem, sempre outra, enquanto o tempo passa num cenário que é sempre o mesmo: um trem riscando uma paisagem, para o todo e sempre. Amém.
4. Embora a preguiça seja essencial, pense nessas palavras de George Steiner (em No Castelo do Barba Azul - algumas notas para a redefinição da cultura): "O mito da Queda tem mais força que qualquer religião específica. É difícil encontrar uma civilização, ou até mesmo uma consciência individual, que não traga em si uma resposta às sugestões de uma sensação de catástrofe distante. Em algum ponto, tomou-se o atalho errado naquele 'escuro e sagrado bosque', após o que o homem tem tido de trabalhar, social e psicologicamente, contra a tendência natural do ser".
1. Diante de tamanhos e diários horrores, penso: os animais devem ter alguma espécie de inteligência - a que lhes serve. O que não sei, cá comigo, é para que serve a propalada, humana.
2. Toda generosidade é bem interesseira. Ocorre que os interesses, singular ou plural, estão muito bem ocultos. Até mesmo do próprio generoso. Essa sobredita "virtude" vinha sendo pensada como exclusivamente humana - algo que nos faria diferentes dos primatas, por exemplo. Recentemente, notaram que ela pode muito bem existir entre alguns deles. Verificaram. Pergunto-me: nestes, o interesse também é muito bem escondidinho?
3. Às vezes, bate-me a sensação de que já nascemos prontos. O que somos sempre fomos. A perspectiva de uma mudança extrema de rumo em nossas vidas, uma ilusão, um truque. Como o jogo entre o trem e a paisagem. Para quem nele viaja, é a paisagem que passa; para esta, é o trem. Em nosso caso, quem é o trem? Quem, a paisagem? Já que prontos, o tempo é o que passa. Deixar de fazer isto ou aquilo, não nos torna outro. Para os outros, sim; somos outro. Em nós, não; os outros é que continuam sendo os mesmos outros. Prontos todos, no mesmo trem, a deslizar naquela mesma paisagem, sempre outra, enquanto o tempo passa num cenário que é sempre o mesmo: um trem riscando uma paisagem, para o todo e sempre. Amém.
4. Embora a preguiça seja essencial, pense nessas palavras de George Steiner (em No Castelo do Barba Azul - algumas notas para a redefinição da cultura): "O mito da Queda tem mais força que qualquer religião específica. É difícil encontrar uma civilização, ou até mesmo uma consciência individual, que não traga em si uma resposta às sugestões de uma sensação de catástrofe distante. Em algum ponto, tomou-se o atalho errado naquele 'escuro e sagrado bosque', após o que o homem tem tido de trabalhar, social e psicologicamente, contra a tendência natural do ser".
quarta-feira, 26 de março de 2008
PARA PENSAR TODOS OS DIAS
Rubem Braga foi dos escritores que mais amei. Tinha especial admiração por um verso de Camões que julgava dos mais belos da língua portuguesa: "A grande dor das coisas que passaram."
Já velho, doente e amargo, este verso deve ter-lhe povoado insistentemente os pensamentos. Mas foi capaz também de escrever o que abaixo segue; a meu juízo, das coisas mais belas já escritas sobre o fim inevitável de todos nós e a nossa real desimportância:
"Hoje venta noroeste, amanhã é lua cheia. Depois virão outras luas e outros ventos, mas isso também é fútil. Pois um dia as luas podem girar no céu e os ventos rodarão na terra com meiguice ou fúria, e isso não te importará, como, também, tudo o que foi. Por que, então, te afliges, agora? Que a brisa do mar invente espumas, e depois venham as chuvas frias, o sol e depois no céu limpo suba, imensa, a lua - não penses que isto tenha nada a ver contigo. Não existes. Nada tem a ver contigo."
Para mim, esta é a oração mais honesta que um ser humano (crente, ateu, agnóstico, tanto faz) deve fazer todos os dias. É aí que a coisa inominável está - a mais sincera melancolia nem sequer tangencia.
Rubem Braga foi dos escritores que mais amei. Tinha especial admiração por um verso de Camões que julgava dos mais belos da língua portuguesa: "A grande dor das coisas que passaram."
Já velho, doente e amargo, este verso deve ter-lhe povoado insistentemente os pensamentos. Mas foi capaz também de escrever o que abaixo segue; a meu juízo, das coisas mais belas já escritas sobre o fim inevitável de todos nós e a nossa real desimportância:
"Hoje venta noroeste, amanhã é lua cheia. Depois virão outras luas e outros ventos, mas isso também é fútil. Pois um dia as luas podem girar no céu e os ventos rodarão na terra com meiguice ou fúria, e isso não te importará, como, também, tudo o que foi. Por que, então, te afliges, agora? Que a brisa do mar invente espumas, e depois venham as chuvas frias, o sol e depois no céu limpo suba, imensa, a lua - não penses que isto tenha nada a ver contigo. Não existes. Nada tem a ver contigo."
Para mim, esta é a oração mais honesta que um ser humano (crente, ateu, agnóstico, tanto faz) deve fazer todos os dias. É aí que a coisa inominável está - a mais sincera melancolia nem sequer tangencia.
quinta-feira, 6 de março de 2008
Ele em sua casa
Vive num cubículo de quatro cômodos entulhado de livros, revistas, recortes de jornais, quadros, ferramentas, móveis, roupas, relógios, máquinas fotográficas, utensílios de cozinha e pequenos objetos úteis e inúteis (de uso potencial) como pedaços de arame, fios, parafusos, pregos, porcas, clipes, elastiquinhos que recolhe nas ruas e andanças por outras localidades – pedras em particular – é um lixeiro contumaz, mais os eletrodomésticos indispensáveis, com exceção da máquina de lavar roupas – que entende como um mecanismo de destruir inexorável e pacientemente roupas.
Coisas quebradas, quebradas ficam, ou são readaptadas, reparadas com cola, arame, numa tentativa de perpetuá-las. Um botijão de gás vazio demora dias para ser reposto – vai improvisando formas alternativas de alimentação – até cansar, enjoar.
As coisas todas acabam, assim, inamovíveis e a limpeza um pesadelo contínua e lentamente aplicado com o fito de que a permanência e convivência com o espaço sejam minimamente suportáveis. Os consertos são também concertos – ritos contínuos pela própria natureza. Um vacilo – uma preguiça demorada ou uma embriaguez continuada – constitui um sério perigo a esse equilíbrio instável. O que não é raro. Como é a convivência entre sua misantropia e carência afetiva, ambas muito acentuadas. Vive só por contingência e opção.
Em conseqüência, o problema estético no arranjo dos elementos fica em segundo plano, mas não-negligenciado. Precisa, como a maioria de nós, de algum panorama minimamente suportável e não necessariamente apreciado, como seu gosto o exigiria. Atende, de início, a necessidade; não teria como escapar disso.
A idéia de ter um estranha faxineira mexendo em suas coisas é descartada, porque ele se perderia, ficaria paralisado e sua irritação seria profunda, imprevisível. Seu mundo desabaria e ele iria junto para o inferno de sua agressividade e autodestruição.
Assim é também seu modo perigoso e peculiar de administrar dívidas acumuladas, eventualmente crescentes, eventualmente estáveis. Conservador ou tímido, outras vezes ousado, arriscado. À estabilidade dos móveis, coisas e utensílios em seus lugares corresponde a instabilidade de sua conduta no curso da vida. O engessamento do tempo-espaço provoca não raro a tentação de um desarranjo purgativo. Rotina e entrega ao inesperado, ao excêntrico, navegam num mar encrespado, sujeito a vendavais.
Tudo acaba resultando numa coerência enervante, obsessiva, mesmo nas ocasiões em que se entrega ao abandono de seu próprio corpo, do trabalho, das relações pessoais, da correspondência eletrônica, de suas criações (desenho e literatura). O abandono é apenas o avesso de uma camiseta mal dobrada atrás da porta, longe de seus olhos.
A casa é o espelho: a calça atirada em qualquer direção, os sapatos, a camisa, o blazer caro, a capa ou sobretudo, documentos, dinheiro, remédios de uso contínuo esquecidos (hipertensão arterial), os cadernos de jornais espalhados, a louça suja empilhada por dias, geladeira desorganizada e livros fora de lugar. Janelas fechadas e isolamento rigoroso, por dias. E a leitura compulsiva, o transtorno de sono, o jejum vêm em seguida, implacáveis. Nunca recebe visitas, parece que não as quer nem espera. Um desmoronamento.
Segue-se um reerguimento progressivo até a mais banal normalidade e organização próprias de pessoas disciplinadas, exemplares. Até o próximo desconcerto, numa circularidade antiga. De difícil ruptura.
Ouve: “Você parece uma pessoa tão calma, tão organizada.” – enquanto ri por dentro, numa melancolia dilacerante. Sua inteligência nunca esteve a serviço de sua alegria, mas esteve sempre sofisticadamente equipada para lançar uma amargura constante entre sua armadura e pele, como um pó-de-mico do qual parece nunca escapar.
Estranhamente, a idéia de suicídio aberto jamais esteve entre suas cogitações, que a vida e seus mistérios sempre exerceram sobre ele um enorme fascínio e curiosidade. Ainda entende o prazer como a glória da vida. Empurram-no para a frente desabusados, entre um cigarro e outro, um uísque e outro, um silêncio e mais outro, uma passada e mais outra, uma beleza entre tantas outras. Luta contra inimigos errados.
Antônio Rebouças Falcão em março de 2008
Vive num cubículo de quatro cômodos entulhado de livros, revistas, recortes de jornais, quadros, ferramentas, móveis, roupas, relógios, máquinas fotográficas, utensílios de cozinha e pequenos objetos úteis e inúteis (de uso potencial) como pedaços de arame, fios, parafusos, pregos, porcas, clipes, elastiquinhos que recolhe nas ruas e andanças por outras localidades – pedras em particular – é um lixeiro contumaz, mais os eletrodomésticos indispensáveis, com exceção da máquina de lavar roupas – que entende como um mecanismo de destruir inexorável e pacientemente roupas.
Coisas quebradas, quebradas ficam, ou são readaptadas, reparadas com cola, arame, numa tentativa de perpetuá-las. Um botijão de gás vazio demora dias para ser reposto – vai improvisando formas alternativas de alimentação – até cansar, enjoar.
As coisas todas acabam, assim, inamovíveis e a limpeza um pesadelo contínua e lentamente aplicado com o fito de que a permanência e convivência com o espaço sejam minimamente suportáveis. Os consertos são também concertos – ritos contínuos pela própria natureza. Um vacilo – uma preguiça demorada ou uma embriaguez continuada – constitui um sério perigo a esse equilíbrio instável. O que não é raro. Como é a convivência entre sua misantropia e carência afetiva, ambas muito acentuadas. Vive só por contingência e opção.
Em conseqüência, o problema estético no arranjo dos elementos fica em segundo plano, mas não-negligenciado. Precisa, como a maioria de nós, de algum panorama minimamente suportável e não necessariamente apreciado, como seu gosto o exigiria. Atende, de início, a necessidade; não teria como escapar disso.
A idéia de ter um estranha faxineira mexendo em suas coisas é descartada, porque ele se perderia, ficaria paralisado e sua irritação seria profunda, imprevisível. Seu mundo desabaria e ele iria junto para o inferno de sua agressividade e autodestruição.
Assim é também seu modo perigoso e peculiar de administrar dívidas acumuladas, eventualmente crescentes, eventualmente estáveis. Conservador ou tímido, outras vezes ousado, arriscado. À estabilidade dos móveis, coisas e utensílios em seus lugares corresponde a instabilidade de sua conduta no curso da vida. O engessamento do tempo-espaço provoca não raro a tentação de um desarranjo purgativo. Rotina e entrega ao inesperado, ao excêntrico, navegam num mar encrespado, sujeito a vendavais.
Tudo acaba resultando numa coerência enervante, obsessiva, mesmo nas ocasiões em que se entrega ao abandono de seu próprio corpo, do trabalho, das relações pessoais, da correspondência eletrônica, de suas criações (desenho e literatura). O abandono é apenas o avesso de uma camiseta mal dobrada atrás da porta, longe de seus olhos.
A casa é o espelho: a calça atirada em qualquer direção, os sapatos, a camisa, o blazer caro, a capa ou sobretudo, documentos, dinheiro, remédios de uso contínuo esquecidos (hipertensão arterial), os cadernos de jornais espalhados, a louça suja empilhada por dias, geladeira desorganizada e livros fora de lugar. Janelas fechadas e isolamento rigoroso, por dias. E a leitura compulsiva, o transtorno de sono, o jejum vêm em seguida, implacáveis. Nunca recebe visitas, parece que não as quer nem espera. Um desmoronamento.
Segue-se um reerguimento progressivo até a mais banal normalidade e organização próprias de pessoas disciplinadas, exemplares. Até o próximo desconcerto, numa circularidade antiga. De difícil ruptura.
Ouve: “Você parece uma pessoa tão calma, tão organizada.” – enquanto ri por dentro, numa melancolia dilacerante. Sua inteligência nunca esteve a serviço de sua alegria, mas esteve sempre sofisticadamente equipada para lançar uma amargura constante entre sua armadura e pele, como um pó-de-mico do qual parece nunca escapar.
Estranhamente, a idéia de suicídio aberto jamais esteve entre suas cogitações, que a vida e seus mistérios sempre exerceram sobre ele um enorme fascínio e curiosidade. Ainda entende o prazer como a glória da vida. Empurram-no para a frente desabusados, entre um cigarro e outro, um uísque e outro, um silêncio e mais outro, uma passada e mais outra, uma beleza entre tantas outras. Luta contra inimigos errados.
Antônio Rebouças Falcão em março de 2008
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Bobagem modernosa e prototípica:
HÁ MUITO, FUI
Estava à toa na vida e alguém mandou me chamar para não sei o quê. Virei-me e dei de cara com um tigre - o animal mesmo - que não tinha fome alguma, mas a apatia de uma ameba congelada. Deprimido até o húmus sobre o qual pisava. Queria colo ou um baralho para jogar paciência até seu último suspiro. Seus olhos não mentiam. Naquela época, os mamíferos haviam aprendido a convivência pacífica, mas não entre homens e, muito menos, entre homens e mulheres.
Eu, hem?! Continuei fantasiado de lagarto em mais uma temporada de aquecimento global, no bem-bom. "Tudo é violência e injustiça? Azar, azia, azeite." "A mim, tanto se me faz".
Cidade da Bahia, 11 de janeiro de 2008
P.S.: entre aspas, brincadeira infantil e frase de Clarice Lispector respectivamente.
HÁ MUITO, FUI
Estava à toa na vida e alguém mandou me chamar para não sei o quê. Virei-me e dei de cara com um tigre - o animal mesmo - que não tinha fome alguma, mas a apatia de uma ameba congelada. Deprimido até o húmus sobre o qual pisava. Queria colo ou um baralho para jogar paciência até seu último suspiro. Seus olhos não mentiam. Naquela época, os mamíferos haviam aprendido a convivência pacífica, mas não entre homens e, muito menos, entre homens e mulheres.
Eu, hem?! Continuei fantasiado de lagarto em mais uma temporada de aquecimento global, no bem-bom. "Tudo é violência e injustiça? Azar, azia, azeite." "A mim, tanto se me faz".
Cidade da Bahia, 11 de janeiro de 2008
P.S.: entre aspas, brincadeira infantil e frase de Clarice Lispector respectivamente.
sábado, 29 de dezembro de 2007
Brinde: "O Segundo Dia" de Manoel de Barros
Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumor das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.
Só sei o nada aumentado.
Eu sou culpado de mim.
Vou nunca mais ter nascido em agosto.
No chão de minha voz tem um outono.
Sobre meu rosto vem dormir a noite.
Em O Livro das Ignorãças
Rio de Janeiro: Civilização Brasileiro, 1993
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumor das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.
Só sei o nada aumentado.
Eu sou culpado de mim.
Vou nunca mais ter nascido em agosto.
No chão de minha voz tem um outono.
Sobre meu rosto vem dormir a noite.
Em O Livro das Ignorãças
Rio de Janeiro: Civilização Brasileiro, 1993
A Felicidade Dezembrina
Dezembro é um mês controverso: há os que odeiam-no (do clima ao fervilhar de consumistas enlouquecidos, às várias nefastas ceias familiares); e existem visões líricas, como a do poeta e engenheiro de cálculos Joaquim Cardozo: "(...)[?] Velho calor de dezembro,/Chuva das águas primeiras/Feliz batendo nas telhas;/Verão de frutas maduras,/Verão de mangas vermelhas." [Ver Dezembrite Aguda, nas primeiras postagens deste blog].
Minhas palavras não girarão sobre o mês, servem para o ano inteiro e, particularmente, para as pessoas mais pobres ou ingênuas, condenadas pelas mazelas da injusta ignorância, ou as duas coisas, e para a demência da "posse" compulsiva de tralhas eletrodomésticas de última geração. Bem, eu passeava, a pé, (não faço exercícios físicos, nem caminhadas; eu passeio e me basta) pela praia, em Salvador, depois de entrar num supermercado próximo com dois propósitos: comprar agrião, pepino e coentro; refrescar-me com o ar condicionado; já andara uns 5km e o calor pesava-me, mesmo com chapéu, camisa, bermuda, sandálias e óculos escuros. Então, fui pensando.
Imaginei um casal, cujo marido se chamaria Edmilson e sua esposa Marinalva, com dois filhos, o Ewerton e a Elayne. Naquele instante, já estaria bem esboçada sua felicidade; depois de terem passado, todos juntos, nas Casas Bahia (São Paulo) ou a Insinuante (Bahia), depois do dia 20, e voltado pra casa de 4 cômodos, na periferia ou morro, carregando uma TV de 29 polegadas, um aparelho de som, um DVD, um microondas e uma paulada de 48 prestações.
Enquanto passeava pela praia, em sua casa, Edmilson e Marinalva assistiriam à TV; Ewerton e Elayne estariam ouvindo o último CD de Sandy&Junior, todos muito contentes. Eu me intrigava com a natureza daquela felicidade merecida e perigosa, com o peso, a espessura e a fugacidade de uma bolha de sabão, de um pardal na vizinhança de um bichano esperto.
Esses anúncios insistentes, histéricos e idênticos - deveriam fazer um só, de dez em dez anos - sempre me pareceram uma armadilha, engodo muito bem urdido. Essas lojas não vendem eletrodomésticos, mercadorias concretas, mas uma abstração bem conhecida: dinheiro. O incauto ingênuo compra dinheiro, financiamento; o resto tem a natureza de brinde, é o que leva pra casa e o deixa, por uns dias, bêbado de felicidade fátua.
De fato, ele não compra o que nunca vai possuir. De outro modo: não é dele o que imagina possuir, a jaca é da financeira. Ele hospeda em casa a tralha enquanto dura o financiamento, até que, ao fim deste (se efetivamente chega a haver quitação), resta um não-produto, por causa da preparada "fadiga de material", trazendo a morte súbita ou a lenta agonia final.
Aquela urdidura está recostada, e muito bem, em outra velha conhecida: a obsolescência programada, agora em núpcias com o financiamento. O cenário é mais ou menos assim: em 4 anos, aqueles aparelhos comprados por Edmilson e Marinalva começarão a apresentar problemas; tantos que não valerá a pena consertá-los, em razão dos custos da manutenção. Novos produtos terão aparecido no mercado, com novos recursos inúteis e idiotas, prontinhos pra quebrar. Os antigos vão para o lixo e, bichanas, as financeiras lhes oferecerão outras previsíveis e perversas oportunidades. Lá estarão Edmilson e Marinalva ao encontro de uma felicidade dezembrina novinha em folha. Lembra os cretinos celularizados, que proliferam como praga.
Eu continuei caminhando, agora com a boca seca e uma raivazinha que prometia tornar-se fúria e depressão. Nem quis a água de coco que estava ali à mão, cercado pelo "azul em abuso de beleza", o céu e o mar(Manoel de Barros). Estava absorto num conceito de Otavio Paz, designado por "ocaso do futuro", que, entre outras coisas, supõe um processo fabricador despojado de seus objetivos; "ele não mais se organiza de acordo com uma finalidade". Esta última frase entre aspas é uma referência às idéias do grande mexicano, nas palavras de Hannah Arendt. Quanto a mim, apertei o chapéu no coco para que enfrentasse a força da brisa marinha, que parecia querer me atrasar em minha volta pra casa. Quantas felicidades não passam de bobagens?! Efêmeras como todas elas são. Em frente, Mané.
Minhas palavras não girarão sobre o mês, servem para o ano inteiro e, particularmente, para as pessoas mais pobres ou ingênuas, condenadas pelas mazelas da injusta ignorância, ou as duas coisas, e para a demência da "posse" compulsiva de tralhas eletrodomésticas de última geração. Bem, eu passeava, a pé, (não faço exercícios físicos, nem caminhadas; eu passeio e me basta) pela praia, em Salvador, depois de entrar num supermercado próximo com dois propósitos: comprar agrião, pepino e coentro; refrescar-me com o ar condicionado; já andara uns 5km e o calor pesava-me, mesmo com chapéu, camisa, bermuda, sandálias e óculos escuros. Então, fui pensando.
Imaginei um casal, cujo marido se chamaria Edmilson e sua esposa Marinalva, com dois filhos, o Ewerton e a Elayne. Naquele instante, já estaria bem esboçada sua felicidade; depois de terem passado, todos juntos, nas Casas Bahia (São Paulo) ou a Insinuante (Bahia), depois do dia 20, e voltado pra casa de 4 cômodos, na periferia ou morro, carregando uma TV de 29 polegadas, um aparelho de som, um DVD, um microondas e uma paulada de 48 prestações.
Enquanto passeava pela praia, em sua casa, Edmilson e Marinalva assistiriam à TV; Ewerton e Elayne estariam ouvindo o último CD de Sandy&Junior, todos muito contentes. Eu me intrigava com a natureza daquela felicidade merecida e perigosa, com o peso, a espessura e a fugacidade de uma bolha de sabão, de um pardal na vizinhança de um bichano esperto.
Esses anúncios insistentes, histéricos e idênticos - deveriam fazer um só, de dez em dez anos - sempre me pareceram uma armadilha, engodo muito bem urdido. Essas lojas não vendem eletrodomésticos, mercadorias concretas, mas uma abstração bem conhecida: dinheiro. O incauto ingênuo compra dinheiro, financiamento; o resto tem a natureza de brinde, é o que leva pra casa e o deixa, por uns dias, bêbado de felicidade fátua.
De fato, ele não compra o que nunca vai possuir. De outro modo: não é dele o que imagina possuir, a jaca é da financeira. Ele hospeda em casa a tralha enquanto dura o financiamento, até que, ao fim deste (se efetivamente chega a haver quitação), resta um não-produto, por causa da preparada "fadiga de material", trazendo a morte súbita ou a lenta agonia final.
Aquela urdidura está recostada, e muito bem, em outra velha conhecida: a obsolescência programada, agora em núpcias com o financiamento. O cenário é mais ou menos assim: em 4 anos, aqueles aparelhos comprados por Edmilson e Marinalva começarão a apresentar problemas; tantos que não valerá a pena consertá-los, em razão dos custos da manutenção. Novos produtos terão aparecido no mercado, com novos recursos inúteis e idiotas, prontinhos pra quebrar. Os antigos vão para o lixo e, bichanas, as financeiras lhes oferecerão outras previsíveis e perversas oportunidades. Lá estarão Edmilson e Marinalva ao encontro de uma felicidade dezembrina novinha em folha. Lembra os cretinos celularizados, que proliferam como praga.
Eu continuei caminhando, agora com a boca seca e uma raivazinha que prometia tornar-se fúria e depressão. Nem quis a água de coco que estava ali à mão, cercado pelo "azul em abuso de beleza", o céu e o mar(Manoel de Barros). Estava absorto num conceito de Otavio Paz, designado por "ocaso do futuro", que, entre outras coisas, supõe um processo fabricador despojado de seus objetivos; "ele não mais se organiza de acordo com uma finalidade". Esta última frase entre aspas é uma referência às idéias do grande mexicano, nas palavras de Hannah Arendt. Quanto a mim, apertei o chapéu no coco para que enfrentasse a força da brisa marinha, que parecia querer me atrasar em minha volta pra casa. Quantas felicidades não passam de bobagens?! Efêmeras como todas elas são. Em frente, Mané.
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