sexta-feira, 24 de julho de 2009

AFINS

"Mas sendo animado por sentimentos de afeição para com meus semelhantes, entristece-me o sistema moderno de propaganda. Qualquer que seja a evidência de iniciativa, engenho, ousadia e habilidade em certos indivíduos, ela prova para a minha inteligência apenas a ampla supremacia da degradação mental chamada credulidade".

Joseph Conrad em Um Anarquista-um conto desesperado.

"Com bastante frequência, no decorrer da minha vida, fiz o que não tinha decidido e deixei de fazer o que tinha decidido. Algo, que nunca saberei, age; 'algo' dirige-se à mulher que não quero mais ver, 'algo' faz diante dos superiores a observação que me desgraça, 'algo' volta a fumar[beber] embora eu tivesse decidido abandonar o cigarro [bebida], e desiste de fumar[beber] depois que percebo que sou, permanecerei sendo um fumante [bêbado]. Não quero dizer que pensar e decidir não tenham nenhuma influência sobre a ação. Mas a ação não perfaz simplesmente o que foi pensado e decidido de antemão. Ela tem sua própria fonte e é da mesma maneira independente, como meu pensamento é meu pensamento, como minha decisão é minha decisão".

"Não é preciso contar, porque a verdade do que se conta está no modo como se é".
Bernhard Schlink em O Leitor.
O DESTINO DO VIVO OU MORTO

As perguntas feitas a um homem podem por ele ser esquecidas. Não importam. Importantes são aquelas que faz a si mesmo e para as quais não obtém respostas. Estas são as que lhe desenham o destino, para o qual ele é cegamente atirado. Na busca de um sentido, ele tocará sua vida sem, entretanto, encontrá-lo. Morto então, os outros que se interessaram por ele ainda em vida produzirão os mais variados sentidos à sua existência. Todos bafejados com o hálito dos disparates. Estranho? Não. O jogo é este mesmo. Aqui, o ganhador é aquele que não acerta e, por isso, segue seu caminho indiferente à chuva que sobre ele cai em todas as ocasiões, nas quais se vê desprotegido diante do espelho outonal.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

ABSTINÊNCIA

Um organismo que, por 40 anos, foi alimentado, de hora em hora, por nicotina, ao se ver, subitamente, privado dela, adoece. Parar de fumar é deixar-se adoecer. Este organismo, assim sem nicotina, não é semelhante a outro virgem dela. Custa tempo e dor a desintoxicação. Somente quando a pessoa esquece, de fato, que não fumou há dias, meses, é que pode considerar-se não-usuária; porque dependente será até o fim de seus dias. A dependência é incurável em qualquer caso. O não-uso segue sendo um martírio. Não há glória nem graça nenhuma nessa experiência, de resto, vivenciada por tantos infelizes, todos os dias, em todos os lugares. Comemorar o quê? Melhor é nunca ter começado e, nesse caso, não há festejo. Não há festas para o inexistente.

domingo, 28 de junho de 2009

CITAÇÃO

"Vocês, habitantes da cidade, vocês não sabem o que é o rio. Mas ouçam um pescador pronunciar essa palavra. Para ele é coisa misteriosa, profunda, desconhecida, o território das miragens e dos fantasmas, onde vemos, de noite, coisas que não existem, ouvimos ruídos que não conhecemos, tememos sem saber por quê, como atravessar um cemitério: e na verdade é o mais sinistro dos cemitérios, aquele onde não existe túmulo. Para o pescador, a terra é delimitada; e no escuro, quando não há lua, o rio é infinito. Um marinheiro não sente a mesma coisa com relação ao mar. O mar é quase sempre duro e perigoso, é verdade, mas ele grita, esbraveja, ele é leal, o grande mar; ao passo que o rio é silencioso e traiçoeiro. Não ruge, corre sempre sem ruído, e para mim esse eterno movimento da água correndo é mais assustador do que os vagalhões do oceano". em "Sobre a Água" de Guy de Maupassant.

Para quem esteve numa noite como essa, próximo a um rio como esse, e foi aí criança, é fácil perceber sua beleza.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

CASA

Inclino a cabeça
E minha mão me dá
Meu próprio carinho.

SER E HAVER

Minha irmã me liga,
Refere-se à essencialidade da palavra "É".
Matuto sobre a essencialidade da palavra "Há".
E ninguém tem razão.

DESEJO

Os corpos pertenceram àquelas pessoas.
O desejo cria um problema na frente. Frente aqui é tempo. Sexo é tempo.

ENCHENDO O SACO

Jacaré que sobe em poste bebe o quê?
Bebe terra, Zé Pereira.
SABEDORIA

O que sei ninguém sabe. Não sei o que ninguém sabe. Sabem o que não sei. Pensando melhor: o que cada um sabe sabe ninguém. Há um mundo lá fora. Ninguém sabe. Depois, há isso: ninguém. O que é ninguém? Quanta bobagem toma minhas horas infinitas de insônia!
DIFICULDADES

As pessoas escolhem as dificuldades que querem imprimir em suas vidas. Muitas vezes sem se dar conta das consequências. Chato que elas chegam depois, sem dar o menor aviso. Em algumas ocasiões, já é tarde demais; em outras, muito bem-vindas.