MISSÃO
a Izolda
Enviaram-me aqui.
Nunca duvidei das intenções.
Nunca pedi.
Nunca perguntei.
Fui instruído a observar
Seus pequenos movimentos
De dedos ao descascar laranjas;
Ao afagar crianças;
Os olhares de quem nunca fecha
As janelas; as luzes governadas
Pelas nuvens.
Permitam-me que fique;
Destruam-me a memória
Para que habitante
Não me façam mensageiro.
Peço apenas a manhã que jamais anoitece
E que desapareça logo,
No fio das águas frescas.
agosto de 2009
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
domingo, 2 de agosto de 2009
DE NOVO, O MESMO
Como é de conhecimento e tédio de alguns todos, não há consolo: a juvenilidade é menina dos olhos das empresas, que vê aí ambição, arrojo e competitividade. A promessa de ascensão funciona como a cenoura presa à vara, nas fuças da mula ("Crescer com a empresa!" - "Só nos interessa mão de obra com valor agregado" Argh!). Não falam língua portuguesa, tagarelam por clichês - sinal ostensivo de imbecilidade empavonada.
Lembro-me de uma declaração ou citação de Milan Kundera: [Tamina chega a uma ilha deserta onde só há crianças. No final, elas a perseguem até matá-la.]
"E talvez toda a nossa era técnica faça isso, com seu culto do futuro, da juventude e da infância, sua indiferença ao passado, sua desconfiança em relação ao pensamento: no seio de uma sociedade implacavelmente juvenil, um adulto dotado de memória e ironia se sente como Tamina na ilha de crianças".
Geralmente, nessas instituições, ao se dar poder a um certo tipo de jovem contemporâneo, o que se vê? Apenas a compenetração e arrogância dos que ainda não chegaram às sabedorias de ofício, que só o longo da experiência favorece. Rifam-se aqueles com mais de 50 anos. Nem por isso a maturidade é garantia de competência; pode ser apenas amparo para a teimosia e obtusidade. Bidu!
Diz o bom senso que descartar ambas as idades seria maluquice. Entre a inexperiência e a inoperância, ficam com a primeira e que se estrepe a segunda; para a primeira, treinamento, MBA, pós-graduação, línguas estrangeiras, aparência, subserviência e toda a tralha. A segunda é matéria fatigada; lixo pra ela.
A receita poderia ser um risoto de preparação, reforma e mútua convivência? Sei lá.
Lamentavelmente, a humildade (palavra vazia, mesmo destituída do ranço cristão) é traço de caráter e isso não se ensina, não se compra, não se encontra por aí, pendurada em cabides.
A maioria das empresas adora pensamento único, vozes em uníssono, gestores com temperamento de sargento ou macios como malagueta cozida, por isso o trabalho moderno se assemelha tanto à "servidão voluntária", à escravidão consentida. Os empregados não se vestem, fardam-se. O traje pretinho multiplicado aos milhares. Rapazes e moças ambiciosos "vestem a camisa". E são tecno-dependentes: não largam o celular, que é o sucedâneo do grilhão de outrora. Discordar? "E... tá pensando o que, meu?"
Na arena, põem-se essa escumalha para se entredevorar ou se consumir numa atividade estafante e embrutecedora. Chamam a isso pró-atividade, competitividade ou horror semelhante.
John Lancaster, editor do London Review of Books, disse o seguinte sobre as grandes empresas varejistas:
"Muitas tratam seus empregados como uma commodity. Pagam tão pouco quanto possível, treinam tão pouco quanto possível e empregam o menor número possível. Às vezes, parece que a gerência usa uma fórmula: descobre o nível mínimo de empregados para que a loja funcione, depois subtrai 20%".
Jay Bookman, vice-editor de primeira página de The Atlanta Journal-Constitution:
"O capitalismo funciona tirando o melhor de nossa ganância; falha quando deixamos a ganância tirar o melhor de nós".
Gestão corporativa (management) é um filme B, que desperta os piores pendores. E está nas telas de todos os monitores onipresentes, das quais os olhos infra-humanos não se descolam. "Viva o futuro! E desocupar a área, dispersando, vamos circulando aí!".
Como é de conhecimento e tédio de alguns todos, não há consolo: a juvenilidade é menina dos olhos das empresas, que vê aí ambição, arrojo e competitividade. A promessa de ascensão funciona como a cenoura presa à vara, nas fuças da mula ("Crescer com a empresa!" - "Só nos interessa mão de obra com valor agregado" Argh!). Não falam língua portuguesa, tagarelam por clichês - sinal ostensivo de imbecilidade empavonada.
Lembro-me de uma declaração ou citação de Milan Kundera: [Tamina chega a uma ilha deserta onde só há crianças. No final, elas a perseguem até matá-la.]
"E talvez toda a nossa era técnica faça isso, com seu culto do futuro, da juventude e da infância, sua indiferença ao passado, sua desconfiança em relação ao pensamento: no seio de uma sociedade implacavelmente juvenil, um adulto dotado de memória e ironia se sente como Tamina na ilha de crianças".
Geralmente, nessas instituições, ao se dar poder a um certo tipo de jovem contemporâneo, o que se vê? Apenas a compenetração e arrogância dos que ainda não chegaram às sabedorias de ofício, que só o longo da experiência favorece. Rifam-se aqueles com mais de 50 anos. Nem por isso a maturidade é garantia de competência; pode ser apenas amparo para a teimosia e obtusidade. Bidu!
Diz o bom senso que descartar ambas as idades seria maluquice. Entre a inexperiência e a inoperância, ficam com a primeira e que se estrepe a segunda; para a primeira, treinamento, MBA, pós-graduação, línguas estrangeiras, aparência, subserviência e toda a tralha. A segunda é matéria fatigada; lixo pra ela.
A receita poderia ser um risoto de preparação, reforma e mútua convivência? Sei lá.
Lamentavelmente, a humildade (palavra vazia, mesmo destituída do ranço cristão) é traço de caráter e isso não se ensina, não se compra, não se encontra por aí, pendurada em cabides.
A maioria das empresas adora pensamento único, vozes em uníssono, gestores com temperamento de sargento ou macios como malagueta cozida, por isso o trabalho moderno se assemelha tanto à "servidão voluntária", à escravidão consentida. Os empregados não se vestem, fardam-se. O traje pretinho multiplicado aos milhares. Rapazes e moças ambiciosos "vestem a camisa". E são tecno-dependentes: não largam o celular, que é o sucedâneo do grilhão de outrora. Discordar? "E... tá pensando o que, meu?"
Na arena, põem-se essa escumalha para se entredevorar ou se consumir numa atividade estafante e embrutecedora. Chamam a isso pró-atividade, competitividade ou horror semelhante.
John Lancaster, editor do London Review of Books, disse o seguinte sobre as grandes empresas varejistas:
"Muitas tratam seus empregados como uma commodity. Pagam tão pouco quanto possível, treinam tão pouco quanto possível e empregam o menor número possível. Às vezes, parece que a gerência usa uma fórmula: descobre o nível mínimo de empregados para que a loja funcione, depois subtrai 20%".
Jay Bookman, vice-editor de primeira página de The Atlanta Journal-Constitution:
"O capitalismo funciona tirando o melhor de nossa ganância; falha quando deixamos a ganância tirar o melhor de nós".
Gestão corporativa (management) é um filme B, que desperta os piores pendores. E está nas telas de todos os monitores onipresentes, das quais os olhos infra-humanos não se descolam. "Viva o futuro! E desocupar a área, dispersando, vamos circulando aí!".
quinta-feira, 30 de julho de 2009
ENGUIÇO
a minha irmã
O trabalho artístico uma vez concluído pede exposição, dar-se a ver, ouvir ou ler. A condição para isso é uma certa ousadia da parte do criador, desde a fatura; o que supõe uma personalidade forte, até impositiva - por mais tímido que pareça. A timidez é vencida pela arte. Pensemos em Kafka.
A necessária presença da ousadia é muitas vezes confundida com a arrogância, o egocentrismo. E não sem razão. Os criadores destituídos de severa autocrítica desaguam numa lama de vaidade antipática.
Assim, um criador equilibrado (como der) é um pemanente insatisfeito e inquieto. Deve ser deste modo, para o qual não há escolha. Ele é ou não é. Daí a idéia de que uma obra de arte não é concluída, mas abandonada, caso contrário, ela nunca se faz acabada, perfeita. O que sempre acontece. Acabada, por revelada.
No caso da literatura, pessoas "travadas", ainda que grandes leitores, podem apresentar sérias dificuldades para escrever. Ficam prisioneiras na noite da insegurança. Padecem de carência de ousadia. Uma vergonha atávica que os engessa. Um eclipse. Desconsidere-se que leitura é também criação, embora à maneira de um encosto.
Quando pedagogos (ai, ai, ai) ou professores dizem que ler é condição para escrever, há que se concordar; mas não basta, como se vê. Não há automatismo nessa área.
O mistério dos escritores de grande talento está na maneira como desfazem a fronteira entre a reflexão lúcida e o surgimento dela já esplendidamente verbalizada, beirando a concomitância.
Há um outro tipo, muito infeliz, que padece, tortura-se para desovar uma frase, um verso. Escrever é então uma agonia. E nascem belos feitos, de alto custo pessoal para o criador. C. B. de Holanda julga escrever um "saco". Para mim, um prazer inefável. É sempre uma atividade difícil, trabalhosa, obsedante, como qualquer criação.
Certo é que feliz ninguém é, como é de sobejo sabido. Quando a idéia se concretiza com facilidade surpreendente, é para se desconfiar. O cozimento em banho-maria ou exílio em fundo de gaveta torna-se um remédio necessário.
Para aquele que ainda acredita em criação tomada por espíritos poderosos, no gênio que estremunha, recomendo que se chame logo a "polícia" e mande prendê-lo em sua própria demência. Um ignaro deitado na rede esplêndida e pétrea de suas próprias convicções. Um qualquer um.
a minha irmã
O trabalho artístico uma vez concluído pede exposição, dar-se a ver, ouvir ou ler. A condição para isso é uma certa ousadia da parte do criador, desde a fatura; o que supõe uma personalidade forte, até impositiva - por mais tímido que pareça. A timidez é vencida pela arte. Pensemos em Kafka.
A necessária presença da ousadia é muitas vezes confundida com a arrogância, o egocentrismo. E não sem razão. Os criadores destituídos de severa autocrítica desaguam numa lama de vaidade antipática.
Assim, um criador equilibrado (como der) é um pemanente insatisfeito e inquieto. Deve ser deste modo, para o qual não há escolha. Ele é ou não é. Daí a idéia de que uma obra de arte não é concluída, mas abandonada, caso contrário, ela nunca se faz acabada, perfeita. O que sempre acontece. Acabada, por revelada.
No caso da literatura, pessoas "travadas", ainda que grandes leitores, podem apresentar sérias dificuldades para escrever. Ficam prisioneiras na noite da insegurança. Padecem de carência de ousadia. Uma vergonha atávica que os engessa. Um eclipse. Desconsidere-se que leitura é também criação, embora à maneira de um encosto.
Quando pedagogos (ai, ai, ai) ou professores dizem que ler é condição para escrever, há que se concordar; mas não basta, como se vê. Não há automatismo nessa área.
O mistério dos escritores de grande talento está na maneira como desfazem a fronteira entre a reflexão lúcida e o surgimento dela já esplendidamente verbalizada, beirando a concomitância.
Há um outro tipo, muito infeliz, que padece, tortura-se para desovar uma frase, um verso. Escrever é então uma agonia. E nascem belos feitos, de alto custo pessoal para o criador. C. B. de Holanda julga escrever um "saco". Para mim, um prazer inefável. É sempre uma atividade difícil, trabalhosa, obsedante, como qualquer criação.
Certo é que feliz ninguém é, como é de sobejo sabido. Quando a idéia se concretiza com facilidade surpreendente, é para se desconfiar. O cozimento em banho-maria ou exílio em fundo de gaveta torna-se um remédio necessário.
Para aquele que ainda acredita em criação tomada por espíritos poderosos, no gênio que estremunha, recomendo que se chame logo a "polícia" e mande prendê-lo em sua própria demência. Um ignaro deitado na rede esplêndida e pétrea de suas próprias convicções. Um qualquer um.
RETRO-ADMISSÃO NO CLUBE
"É um homem de pouca palavras e hábitos que certamente podem parecer estranhos para a maioria dos mortais. Passa dias e dias sem sair de casa, vestindo pijamas e um de seus lugares prediletos é a cama: recebe os amigos mais chegados estendido, a garrafa de vinho tinto ao alcance da mão, o cigarro que parece não se apagar nunca. Deitado conversa, deitado escreve. Cultiva cuidadosamete a fama de quem está brigado com o mundo. Um ogro - mas, no fundo, um ogro de pelúcia. Um bicho-papão manso. Seu humor é tão ácido que certa vez um amigo advertiu um visitante: 'Cuidado, se o humor dele respingar na sua camisa abre um rombo do tamanho de uma moeda'. É o escudo de sua ternura".
De Eric Nepomuceno sobre Juan Carlos Onetti
"É um homem de pouca palavras e hábitos que certamente podem parecer estranhos para a maioria dos mortais. Passa dias e dias sem sair de casa, vestindo pijamas e um de seus lugares prediletos é a cama: recebe os amigos mais chegados estendido, a garrafa de vinho tinto ao alcance da mão, o cigarro que parece não se apagar nunca. Deitado conversa, deitado escreve. Cultiva cuidadosamete a fama de quem está brigado com o mundo. Um ogro - mas, no fundo, um ogro de pelúcia. Um bicho-papão manso. Seu humor é tão ácido que certa vez um amigo advertiu um visitante: 'Cuidado, se o humor dele respingar na sua camisa abre um rombo do tamanho de uma moeda'. É o escudo de sua ternura".
De Eric Nepomuceno sobre Juan Carlos Onetti
terça-feira, 28 de julho de 2009
PLATITUDES FUNCIONAIS
1. Já é inútil dizer: a escolha é de quem escolhe como a liberdade é de quem se liberta. Não temos nada a ver com isso, mesmo que discordemos dos motivos. De outro modo: exatamente porque discordamos, ele deve ser livre para escolher seu próprio caminho, ciente e responsável pelas consequências. Como devem todos.
2. Já é sabido: informação não é conhecimento. A primeira é cumulativa e não é digerível; o segundo incorpora-se ao organismo e faz-se modo de pensar e se reproduz em criação intelectual permanente. A informação é infecunda. Como um vírus, só é fértil quando implanta-se na dimensão do conhecimento. Acessória. Em sua própria condição, fica ali inerte. Mortinha.
Certos sítios da Internet que o digam. Internautas, perdoem-me a metonímia.
3. A mocinha de cabelo engomado em gel e "piercing" nas fuças vai fazer psicologia ("me interesso muito-muito no que vai no íntimo das pessoas, sabe?") e certo discurso a aguarda ansioso pela esperada adesão: truismos atolados em clichês sistematizados e envoltos em nomenclaturas obscuras, traduzidas do inglês ou francês, e, portanto, intimidatórias. Há muito desvelados por séculos da melhor literatura. Assim, produz-se uma batelada de panaceias, celebrizadas pela imbatível "auto-estima", uma espécie de chiclé na boca da escravaria intelectual.
1. Já é inútil dizer: a escolha é de quem escolhe como a liberdade é de quem se liberta. Não temos nada a ver com isso, mesmo que discordemos dos motivos. De outro modo: exatamente porque discordamos, ele deve ser livre para escolher seu próprio caminho, ciente e responsável pelas consequências. Como devem todos.
2. Já é sabido: informação não é conhecimento. A primeira é cumulativa e não é digerível; o segundo incorpora-se ao organismo e faz-se modo de pensar e se reproduz em criação intelectual permanente. A informação é infecunda. Como um vírus, só é fértil quando implanta-se na dimensão do conhecimento. Acessória. Em sua própria condição, fica ali inerte. Mortinha.
Certos sítios da Internet que o digam. Internautas, perdoem-me a metonímia.
3. A mocinha de cabelo engomado em gel e "piercing" nas fuças vai fazer psicologia ("me interesso muito-muito no que vai no íntimo das pessoas, sabe?") e certo discurso a aguarda ansioso pela esperada adesão: truismos atolados em clichês sistematizados e envoltos em nomenclaturas obscuras, traduzidas do inglês ou francês, e, portanto, intimidatórias. Há muito desvelados por séculos da melhor literatura. Assim, produz-se uma batelada de panaceias, celebrizadas pela imbatível "auto-estima", uma espécie de chiclé na boca da escravaria intelectual.
MALHADIÇO
E de já saber
Como tantos outros
Que tudo tem um fim:
Os alegres,
Os tristes,
A porta,
A janela,
A paisagem e os mosquitos,
A mão que mal segura
A caneta bêbada.
Fio-me em não saber mais
O que deixará de acontecer.
E importa?
Às manhãs seguem as tardes
E as longas noites escuríssimas,
Relegadas a entranhas de lençois.
E de já saber
Como tantos outros
Que tudo tem um fim:
Os alegres,
Os tristes,
A porta,
A janela,
A paisagem e os mosquitos,
A mão que mal segura
A caneta bêbada.
Fio-me em não saber mais
O que deixará de acontecer.
E importa?
Às manhãs seguem as tardes
E as longas noites escuríssimas,
Relegadas a entranhas de lençois.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
SIMULAÇÃO E COMODIDADE
O homem é um animal simulador. Inúmeras de suas atividades encobrem outras que se fazem em seu interior sem que ele se dê conta de imediato. Muitos véus encobrem o leito do rio. É um jogo solitário, uma brincadeira de estar-se cego por conveniência; para que seja suportável o simples ser e estar. Não ocorre com outros animais. Faz a nossa diferença, entre outras coisas. Sem considerar, pelo menos aqui, símiles e espelhos.
Essas multidões que correm em círculo como ratos de laboratório, desejando chegar ao estado "ótimo" do próprio corpo querem o que afinal? serem melhores escravos? mais duradouros? consumidores por mais tempo, imbuídos da certeza de que nada lhes vai acontecer? Nenhum acidente, nenhum imprevisto no curso da vida, como se soubessem data e hora de seu fim? Ou protelam-no por uma permanente promessa de existência em gozo? Velhice em gozo? Que sabem de antemão sobre sua própria velhice? Eu me pergunto: por que e pra que correm tanto?
O homem não foi feito para correr assim. Corre-se em fuga de um perigo; corre-se em busca de algo que não lhe pode escapar. As corridas obsedantes simulam isso para um corpo enganado. Em quaisquer outras ocasiões, o corpo caminha e repousa. E a vida segue.
Os esportes coletivos divertem enquanto simulam batalhas. Não basta brincar, é preciso vencer o outro, derrotá-lo de modo humilhante se for o caso. Os atletas simulam gladiadores, que simulam soldados em guerra real. Paixões na fúria de um misturador industrial - torcidas aos berros, munidas de pau e facas. Os estádios não mentem.
Essas atividades são as mais visivelmente idiotas. Mas há as nobres. A necessidade humana de narrativas, em suas mais variadas formas, não são, no fundo, simulações de outras vidas, ocupações de outros espaços e tempos que não os nossos cotidianos?
Um jantar caro eventual, pago com economias amealhadas, às vezes, com sacrifício não é a simulação de um conforto e prazer raros, próprios de grupos sociais muito acima e distantes de seus comensais?
A conversa no telefone (fixo ou móvel), o diálogo em sites de relacionamento, não simulam uma presença?
Cirurgias plásticas que simulam juvenilidades de araque, grotescas e deprimentes. A ampliação do aparato tecnológico só faz estender as formas de simulação. Os jogos eletrônicos o que são? 3D o que é? O onanismo?
O homem simula para dissimular sua verdeira natureza. Ser irremediavelmente tolo, perdido e só diante da falta de sentido da vida, que parece ser a permanente busca de uma acomodação perdida em sua origem. A religião, essa perigosa e monumental atividade humana, faz o quê? Não simula uma vida e morte explicadas, no entanto inexistentes de fato? A comodidade da vida uterina, perdida no nascimento, é a obsessão inarredável ao longo de todos os nossos movimentos, físicos e afetivos. Viver é procurar acomodar-se sempre, com o conforto possível. O amor é o conforto afetivo assegurado, ainda que em vão, como todos os outros que se pretendem assegurados. Eles acabam, é preciso procurar outras posições. E retirar a pedrinha do sapato, mover-se na cama e ajustar melhor o travesseiro; proteger-se do frio e aliviar-se do calor excessivos.
Enterramos nossos mortos em posições confortáveis, simulando um repouso eterno. Por que será?
O homem é um animal simulador. Inúmeras de suas atividades encobrem outras que se fazem em seu interior sem que ele se dê conta de imediato. Muitos véus encobrem o leito do rio. É um jogo solitário, uma brincadeira de estar-se cego por conveniência; para que seja suportável o simples ser e estar. Não ocorre com outros animais. Faz a nossa diferença, entre outras coisas. Sem considerar, pelo menos aqui, símiles e espelhos.
Essas multidões que correm em círculo como ratos de laboratório, desejando chegar ao estado "ótimo" do próprio corpo querem o que afinal? serem melhores escravos? mais duradouros? consumidores por mais tempo, imbuídos da certeza de que nada lhes vai acontecer? Nenhum acidente, nenhum imprevisto no curso da vida, como se soubessem data e hora de seu fim? Ou protelam-no por uma permanente promessa de existência em gozo? Velhice em gozo? Que sabem de antemão sobre sua própria velhice? Eu me pergunto: por que e pra que correm tanto?
O homem não foi feito para correr assim. Corre-se em fuga de um perigo; corre-se em busca de algo que não lhe pode escapar. As corridas obsedantes simulam isso para um corpo enganado. Em quaisquer outras ocasiões, o corpo caminha e repousa. E a vida segue.
Os esportes coletivos divertem enquanto simulam batalhas. Não basta brincar, é preciso vencer o outro, derrotá-lo de modo humilhante se for o caso. Os atletas simulam gladiadores, que simulam soldados em guerra real. Paixões na fúria de um misturador industrial - torcidas aos berros, munidas de pau e facas. Os estádios não mentem.
Essas atividades são as mais visivelmente idiotas. Mas há as nobres. A necessidade humana de narrativas, em suas mais variadas formas, não são, no fundo, simulações de outras vidas, ocupações de outros espaços e tempos que não os nossos cotidianos?
Um jantar caro eventual, pago com economias amealhadas, às vezes, com sacrifício não é a simulação de um conforto e prazer raros, próprios de grupos sociais muito acima e distantes de seus comensais?
A conversa no telefone (fixo ou móvel), o diálogo em sites de relacionamento, não simulam uma presença?
Cirurgias plásticas que simulam juvenilidades de araque, grotescas e deprimentes. A ampliação do aparato tecnológico só faz estender as formas de simulação. Os jogos eletrônicos o que são? 3D o que é? O onanismo?
O homem simula para dissimular sua verdeira natureza. Ser irremediavelmente tolo, perdido e só diante da falta de sentido da vida, que parece ser a permanente busca de uma acomodação perdida em sua origem. A religião, essa perigosa e monumental atividade humana, faz o quê? Não simula uma vida e morte explicadas, no entanto inexistentes de fato? A comodidade da vida uterina, perdida no nascimento, é a obsessão inarredável ao longo de todos os nossos movimentos, físicos e afetivos. Viver é procurar acomodar-se sempre, com o conforto possível. O amor é o conforto afetivo assegurado, ainda que em vão, como todos os outros que se pretendem assegurados. Eles acabam, é preciso procurar outras posições. E retirar a pedrinha do sapato, mover-se na cama e ajustar melhor o travesseiro; proteger-se do frio e aliviar-se do calor excessivos.
Enterramos nossos mortos em posições confortáveis, simulando um repouso eterno. Por que será?
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