sexta-feira, 15 de julho de 2011





ESSA VELHA SENHORA

Literatura é sempre uma outra coisa. Se assim não fosse, há muito, a escrita como arte teria desaparecido na noite. Sua busca traz, na garupa, as palavras que, de novo arranjadas, nos encantam. O encontro.

Muito diferentes são os livros em que o texto não passa de mero suporte para o enredo. O segredo está na urdidura, mas desaparece na sucessão e superfície dos eventos. O que importa acontece na costura das palavras. Já me incomoda tanto essa cansada metáfora do tecido. Quero uma outra, outra coisa. Belo seria um jardim de pedras.

Como no desenho, a alma vem no traço; está dissimulada na figura. A unidade que seduz, a primeira impressão, é uma porta de entrada, um vestíbulo. Há que se perder nos aposentos - a pluralidade de sentidos. O elixir da sagração.

Aqueles livros que carregamos pela vida são labirintos em que nos perdemos por ato voluntário. Protegem-nos da desarrumação que nos é exterior e conforta-nos naquela que nos é interior. Inescapáveis ambas. Daí a necessidade de viver com a arte. São tristes as pessoas que se acertam vendo apenas um parafuso, um prego. E mesmo essas não se apartam da música ligeira e da dança de salão. Das canções. A uma pessoa que se anuncia por melodia assobiada devemos, por regalo, um primeiro voto de confiança.

Salvador, julho de 2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011





LEITURAS DE FÉRIAS
a Izolda

Sobre a vida humana não ter sentido algum, muito se disse. Tanto quanto, sobre a mão pesada do acaso, na urdidura do tecido que ora repousa no balcão do destino. Ao nos debruçarmos sobre a vida de um indivíduo que já sabemos morto, de existência ficcional ou empírica, o que logo fazemos é, no tecido de sua vida, separar os fios do acaso daqueles construídos pelas relações de causalidade e consequência. Aqui, obra humana da racionalidade; ali, atributo divino, condensado na expressão banal: está nas mãos de deus, ou, de outro modo, esteve nas mãos de deus. Fora, portanto, de nossos domínios.

A vida, num romance, é apresentada de tal forma que o leitor se apercebe de que há algo além do acaso; o que imprime traços de um sentido que, na existência empírica, lhe escapa. Quantas pessoas não se sentem tentadas, diante da morte acidental de um indivíduo de suas relações, a pronunciar o clichê: ... mas ele procurou? Está aí esboçado o desenho de um sentido que lhes convém admitir intimamente diante do desconforto produzido pelo súbito vazio que a morte estúpida lhes impôs. Mas também, na morte lenta que se insinua no vazio das horas que se esvaem dolorosamente.

Para si ou para outrem, a vida comentada ou analisada tem com fantasma a vida narrada, pela voz ou pela escrita. Em ambos os casos, a busca é busca de uma razão confortante em que camadas de causalidades e consequencias se acumulam com o fito de resolvermos o peso do luto insanável. No tecido desfeito da existência examinada, é preciso que os fios do acaso sejam convenientemente ocultados para a visibilidade dos fio da causalidade. Se a narrativa ficcional nos mostrasse um panorama diverso, que acomodação restaria ao leitor, que tem, na fruição do romance, seu melhor travesseiro? Nesse campo, a literatura moderna, de Joyce a Kafka, engendrou um deserto, não um bosque, nem mesmo uma pradaria. Não por acaso, os livros de ficção, hoje, mais vendidos são aqueles que abraçam as narrativas mais convencionais, os alívios mais vulgares. O homem contemporâneo é uma figura triste.

Neste julho, enquanto me dou ao enfado de ler um romance ruim (As Memórias do Livro, de Geraldine Brooks), releio também o célebre texto de Walter Benjamin, O Narrador. Aquele me levou a este. Aqui, W.B. cita Lukács, em seu também célebre Teoria do Romance, onde está escrito: ... Somente o romance ... separa o sentido e a vida, e, portanto, o essencial e o temporal, podemos quase dizer que toda a ação interna do romance não é senão a luta contra o poder do tempo ... Desse combate ... emergem as experiências temporais autenticamente épicas: a esperança e a reminiscência ... Somente no romance ... ocorre uma reminiscência criadora, que atinge seu objeto e o transforma ... O sujeito só pode ultrapassar o dualismo da interioridade e da exterioridade quando percebe a unidade de toda sua vida ... na corrente vital do seu passado, resumida na reminiscência ... A visão capaz de perceber essa unidade é a apreensão divinatória e intuitiva do sentido da vida, inatingido e, portanto, inexprimível.

Eu me pergunto: o que faz um romance senão simular essa unidade? Pensar o sentido da vida como algo apreensível é uma tolice demasiadamente humana, porque ele não passa de uma promessa para sempre não-cumprida. Assim mesmo: funda-se e fixa-se nisso. No tempo de uma leitura, o leitor conforta-se com uma ilusão, que parece lhe bastar - não vejo por que W. Benjamin separa a narrativa (oral) do romance (escrita). Por estes dois procedimentos, leitor e ouvinte se alimentam do mesmo: o inefável que, momentaneamente, se cristaliza; para, logo depois, evaporar-se no árido da existência empírica, real. Chega também a separar o leitor de romance (ainda segundo ele, solitário por excelência) do leitor de poesia (não-solitário, que ainda teria o recurso da declamação). Volto a perguntar: quer coisa mais comum que um leitor de romance desejar nos contar o livro recém-lido? Ora, não posso entender, não posso concordar. Sei: entendimentos são impedimentos - geram prisioneiros de convicções. Melhor teria sido calar-se e não ouvir (ou vice-versa). No fim, acaba tudo bem.


sexta-feira, 8 de julho de 2011









ENTRE SACOS






Lá como cá,



Tão fácil:



East of the Sun and West of the Moon.



Difícil:



Lá como cá,



Vozes que se foram.



A melancolia do inverno



Em São Paulo.



Fácil: o inferno.



These Foolish Things.






Vai trabalhar, vagabundo!



Sim, mas...



Álcool e jazz no fundo do coração.

sexta-feira, 1 de julho de 2011





DA FORMA VÁRIA DE TER

Ter para possuir: o objeto do desejo é, por longo tempo, namorado; necessariamente desnecessário; um troféu para si mesmo, um fetiche da conquista. Pode repousar na gaveta até o fim dos tempos. Sabê-lo próprio é ouro fino, como segredo que um ouvido conta ao outro.

Ter para exibir: o objeto do desejo só os outros possuem. Tê-lo é um modo de tornar-se um outro que se admira. Tanto que exibi-lo é como possuir consigo, preso à coleira, o próprio eu. Feito inusitado: a um só tempo, ser o que não se é. Simular um afeto que se quer e não se tem.

Ter para causar inveja: o objeto do desejo é, na verdade, indesejável. Sua posse é o amesquinhamento do outro - a vontade oculta. Ao expô-lo, a pessoa se faz outra, reduzida agora ao objeto desejado. Como, de fato, é (in)desejado, tê-lo é pouco, é nada; o muito é carregar, no bolso, a outra. De um jeito que a pessoa engole a outra para transmutar-se naquela que a amesquinha, amesquinhadas as duas. O aniquilamento simultâneo da posse e do possuidor.

Ter para não ter: o objeto do desejo é inalcançável (tido como). Sua posse, por inesperada, é desacreditada. Vem na forma de presente exótico, extravagante. Quem presenteia torna-se, lá na frente, o presenteado. Aquele que tem apenas o objeto se desmerece num momento, e, ao venerar o gesto da oferta, num outro, se crê o homenageado na ilusão de merecido distraído. Esquece o presente para tornar-se presa do doador, de forma que detém a posse, mas é o possuído.

Ter para vender: o objeto do desejo é provisório, como se vê. Acontece que sua posse momentânea faz do detentor alvo de atenção enquanto o desejado "tira um cochilo". O possuidor futuro, endinheirado, desfigura-se em objeto de pagamento porque quem vende quer o comprador e não o comprado. Aquele, ao comprar, é comprado, possuindo o que não foi desejado, mas despojado, no instante mesmo da transação. Onde está o valor? É um ter que ninguém tem; uma posse de si esvaziada e um desejo inflado num balão furado. Ter é, desde sempre, não ter. Crianças olhando um céu sem festa.

Assim, o que vale a pena possuir é o que não tem pra si valor mensurável. O verdadeiro desejo é a posse do outro. Para a infelicidade de ambos, possuidor e possuído. Nada e nada. Ter pra que então?


AS DUAS SOMBRAS DO ENLUARADO

- Por que não se decide?
- Tenho medo.

- Por que não foge?
- Não tenho medo.

- Por que não dorme?
- Tenho medo.

- Por que não se entrega?
- Não tenho medo.

- Por que se cala?
- Tenho medo.

- Por que chegou aqui?
- Não tenho medo.

- Por que partiu de lá?
- Tenho medo.

- Por que se lembra de tudo?
- Não tenho medo.

- Por que "matou"?
- Tenho medo.

- Por que não ama de uma vez?
- Não preciso.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

segunda-feira, 13 de junho de 2011






ISTO ÀQUILO

Prefiro olhar a falar, ter que articular. Prefiro silêncio a voz, ter que ouvir. Prefiro distância a proximidade, ter que usar lupas. Prefiro desafinadas a cordatas, ter que confrontar. Prefiro ausentes a estridentes, ter que fugir. Prefiro insuficiência a exuberância, ter que desvencilhar-me. Prefiro de "ouvir dizer" a constatar, ter que conferir. Prefiro indícios a provas, ter que comprovar. Prefiro imaginar a ver, ter que despertar. Prefiro representações a realizações, ter que tocar. Prefiro fotografias a decepções, ter que verificar. Prefiro o definitivo ao inesperado, ter que arrumar. Prefiro usadas maduras a virgens nubentes, ter que pedir e ensinar. Prefiro o cheiro ao tato, ter que chegar. Prefiro dormentes a acordadas, ter que cumprimentar e paparicar. Prefiro saciadas a famintas, ter que alimentar. Prefiro esquecidas a memoráveis, ter que lembrar. Prefiro desconhecer a reconhecer, ter que perguntar. Prefiro comprar a seduzir, ter que mentir. Prefiro mortas a vivas, ter que enterrar. Prefiro inexistentes a presentes, ter que desejar. Opto por ignorar a preferir, ter que escolher. Prefiro não preferir a agir. Recolher-me à desclassificação, à indistinção, à dormência, à dissolução e à invisibilidade. Deixar como está, vagar em órbita infinita, na paz do sem-tempo eterno. Ou desaparecer na gravidade do violoncelo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

























RECÔNDITOS

Antes, farei uma digressão. Morei alguns anos na Vila Beatriz. Para quem não conhece, ela fica entre o alto da Heitor Penteado e a várzea oculta de Alto de Pinheiros (Pça. Panamericana), vizinha aos fundos da Vila Madalena. Faz fronteira com a Vila Ida.

Nos poucos botecos de lá (acreditem, ainda existem), contaram-me que Beatriz, Madalena e Ida eram irmãs. O pai, próspero fazendeiro, dividiu suas terras entre as três, que acabaram por dar origem aos bairros coetâneos.

Eu morava na rua Alfredo Pirajibe, onde ela desemboca no Parque das Corujas, que poucos paulistanos conhecem. Um paraíso perto de tudo. Foi aí que me apaixonei, em definitivo, pelos bem-te-vis. Passarinhos valentes, indomáveis (não os verão em gaiolas) e misteriosos. Solitários, não andam em bandos como as irritantes maritacas. Não suportam pardais, uma espécie de “gente diferenciada” no mundo dos passarinhos urbanos.



Os bem-te-vis têm mérito diverso: são de notável elegância no trajar; sua estampa é arte gráfica das mais graciosas. Na descrição de Aurélio: ”Coloração pardo-olivácea, asas e cauda marginadas de vermelho, cabeça preta com uma mancha amarela no vértice, sobrancelhas prolongadas numa fita nucal, garganta branca, peito e abdome amarelos.”

E cantam lindamente. Seu nome é um fenômeno: traz, em si, o canto e a graça que nos toma ao vê-los. Habitam meu panteão particular, na companhia dos sabiás e de uma planta sobre a qual falarei depois. Só me desagradam quando resolvem se apresentar como Pitangus Sulphuratus. Perdoo-os, porque me fazem companhia nos céus da Bahia.

Depois de tomar juízo (coisa rara em mim) e desfazer-me finalmente de automóveis (esta praga sinistra), tornei-me um caminhante convicto. Esse primitivo e novo modo de locomover-me em São Paulo restaurou-me antigas manias: caçar “lixos” utilíssimos, como borrachinhas, clipes, pregos, parafusos, arruelas e pedaços de fios, araminhos. Aceito também moedinhas e as raras notas.

Ao caminhar, como é possível verificar, observo mais o chão que o horizonte. Assim, logro também evitar os buracos frequentes e inextinguíveis. Tudo isso para chegar à planta de meu panteão: a goiabeira.



No quintal de minha infância, era a árvore mais confiável. Por fino o galho, jamais quebrava. Nós, meninos, a escalávamos na mais absoluta confiança. Hoje, meninas devem trepar em árvores, mas, na minha infância, idos de 1950, não. Era coisa de guri.

Andando por essa cidade, tive a benfazeja surpresa de encontrá-la nos lugares mais improváveis: buracos de calçadas, junções de guias e o piso destas, cantos de rua, paredes, muros rachados e nos viadutos degradados. Cresce indiferente a tudo; se quebrada, resiste e volta a se reerguer, na mais completa teimosia. Mais que o sertanejo euclideano, ela é a fortaleza. Entristece-me saber que jamais vejo os frutos. Imagino o motivo e é ocioso mencionar.

Ninguém liga pra ela e, muito menos, liga pra algo ou alguém. É altaneira, e chega a crescer colada a troncos alheios. Folgada. E faz muito bem. Nas solenidades secretas, no alto das madrugadas, longe dos humanos, se fantasia de Psidium Guayava. Que fique em paz. Aqui beleza e força se confundem.

Por que desviei-me do assunto que não se fez visível? Nem eu mesmo sei. Culpa, talvez, por não ter prestado, em tempo, as devidas homenagens a quem não me abandona no isolamento das andanças cotidianas. O assunto? Ele que espere mais um pouco!






SUA MONUMENTALIDADE

Para uma sobra arrolhada de vinho,
Há o dia provável,
Inescapável,
Em que a urina lhe escorrerá
Pelas calças
E o sangue,
Pelas ventas.
Do alto de seu sobrecenho,
Saiba então:
Seu rosto refletido aí
Terá a familiaridade
Das dores que entram pela casa e,
Sem pedir licença,
Abrem a geladeira.
Essa que o acoberta
Nas noites insones,
Nas páginas lidas e escritas
Que não importam mais.


“AMA COM FÉ E ORGULHO A TERRA EM QUE NASCESTE”

1. Você vai ao banco sacar algum dinheiro. O caixa eletrônico lhe atira, nas mãos, notas manchadas, frutos de crime. Sobre você, desaba um pesadelo. As notas não têm valor algum. O banco, apesar de ter fornecido as notas, nada tem a ver com isso. Você que se vire. É o que diz o soberano Banco Central. Entendeu, não? Você não vale nada, Zé Pereira!

2. No corrente mês, a Justiça de Ribeirão Preto (SP) condenou a 30 anos de prisão um cadáver que, por sua vez, já se encontra prisioneiro numa cova, desde 2008. No mês passado, ficamos sabendo que a Justiça continua procurando um médico cujo cadáver tem endereço conhecido: o cemitério. Tem como companhia outros 2.699 esqueletos, que fogem alegremente por aí.

3. Enquanto isso, dois outros cadáveres de trabalhadores rurais estão, desde abril, seguindo, resignados em seu apodrecimento, nas florestas do Pará. Dá muito trabalho encontrá-los. Muito calor, muita fedentina, muito mosquito. Deixa pra lá!

4. A súcuba presidenta (e seu íncubo ex-) – são dois em um - declarou: “Afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito.” Então tá! É melhor não contrariar.

5. Em São Paulo, ciclovia é a calçada do pedestre, esse infeliz inconveniente. Não bastassem os motoristas-chimpanzés, temos agora os ciclistas “politicamente corretíssimos” nos atropelando. “Quem tem juízo não reclama, aceita e pronto!” Viram? Vocês aí de gravatinhas vermelhas, sapatos bicudões, chapinhas, pretinhos básicos e crachás.

6. O ministro da educação acusa senador de condenar livro sem sequer se dar ao trabalho de lê-lo. O que é fato. Entretanto, sua equipe aprova livro de Matemática que contém erro grosseiro de aritmética. O que também é fato. Vá lá que seja um erro de digitação. Pior é saber que 200 mil exemplares têm uso proibido embora tenham sido distribuídos. Basta qualquer professor apontar o erro para os alunos e seguir em frente. Adoram jogar nosso dinheiro fora!

7. Chovo no molhado ou enxugo gelo como qualquer brasileiro: o custo da alimentação pesa mais sobre as famílias pobres. Assim, a tributação sobre o consumo se revela perversa e injusta. Ninguém faz nada para acabar com esse crime. Preferem bolsa-escambau, que é eleitoralmente utilíssima. A economia da pobreza que se lasque! Na lógica deletéria governamental, seu pirão vem primeiro - o do governo, claro! Governo não serve, é servido! Obedeça e não reclame, Zé Pereira!

8. No Brasil, a faca amola a lima, e estamos conversados!