ACEITAÇÃO
E se fosse assim?
E se quiséssemos?
De outro modo,
De qualquer jeito?
Por aí e qualquer coisa?
Diga que não. Diga que sim.
Não serei jamais,
Nem que não.
Muito adquirido,
Tomado de mim.
Pleno e bruto.
Diga que vem, que nem.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
É AQUI OU ALI
Sinto saudades de um homem,
Boa companhia.
Andávamos por aí,
Sem tanto destino.
Bastávamos lado a lado.
Pegávamos folhas do chão,
Admirávamos o mar.
Éramos grãos de areia,
Lado a lado.
Tantos anos dele e anos meus.
Pena que se foi,
Morreu em minhas mãos.
Eu
Sem piscar, mudo, tonto, besta.
Sinto saudades e sou bem pior,
Eterno e para sempre.
Sinto saudades de um homem,
Boa companhia.
Andávamos por aí,
Sem tanto destino.
Bastávamos lado a lado.
Pegávamos folhas do chão,
Admirávamos o mar.
Éramos grãos de areia,
Lado a lado.
Tantos anos dele e anos meus.
Pena que se foi,
Morreu em minhas mãos.
Eu
Sem piscar, mudo, tonto, besta.
Sinto saudades e sou bem pior,
Eterno e para sempre.
CONTRAPELO
Quando
As fitas deslaçadas dos presentes
Embaraçam os dedos gordurosos de Natal:
Dizem tanto, por aqui, sem dizer.
Nos encanamentos mais íntimos,
Atravessam, afinados, tantos anos,
Os soluços mais escuros,
As noites escondidas,
As alegrias catraquentas
Mergulhadas nos caldos mais quentes
E as manhãs sequentes,
Geladas, das geladeiras roubadas.
Os afetos de ontem. Do chão.
As noites vãs
Em que dizer é só dizer.
Do trapézio para o mais dentro,
Num mergulho sobre a suja pia.
De mal lavada, a pior das praias: pedra sobre pedra.
O amor mendigado em ciscos,
Escapado em solas de sapatos
De outra noite,
Da qual nem mais lembramos,
Por mais, por mais quê.
Quem há de?
Quando
As fitas deslaçadas dos presentes
Embaraçam os dedos gordurosos de Natal:
Dizem tanto, por aqui, sem dizer.
Nos encanamentos mais íntimos,
Atravessam, afinados, tantos anos,
Os soluços mais escuros,
As noites escondidas,
As alegrias catraquentas
Mergulhadas nos caldos mais quentes
E as manhãs sequentes,
Geladas, das geladeiras roubadas.
Os afetos de ontem. Do chão.
As noites vãs
Em que dizer é só dizer.
Do trapézio para o mais dentro,
Num mergulho sobre a suja pia.
De mal lavada, a pior das praias: pedra sobre pedra.
O amor mendigado em ciscos,
Escapado em solas de sapatos
De outra noite,
Da qual nem mais lembramos,
Por mais, por mais quê.
Quem há de?
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
SOB A PORTA
a meu filho em seus 18 anos
Deixo-lhe isso.
Não quero o fácil
De pedro-pedra.
Quero o mistério das águas
Que o arredondam.
Quero as águas,
Curvas que me escaparam.
E as perdi - pedro-perda.
O que tive passou
Por passar de existir assim.
Olho o inseto esperto
Que voa sob meu olhar;
Os anos contados
De sua plenitude passando.
Os afastamentos vindos e vindouros.
As nossas trocas de solidão.
Seu voo, meu assento diáfano,
Minha evaporação.
Quero o repouso dos risos esquecidos,
Das frutas que comi. Comemos.
E, contudo, não soube amá-las
De fato.
Adormeci. Esqueci.
Adoeci. Escrevi.
Quero a janela que se abre ao travesseiro.
Ainda assim, aproxime de mim
A sombra que me espera.
Seu silêncio,
O melodrama que se afaga
No mingau de todo hoje-à-noite.
As más falas,
As más e todas as boas lembranças.
setembro/outubro de 2011
a meu filho em seus 18 anos
Deixo-lhe isso.
Não quero o fácil
De pedro-pedra.
Quero o mistério das águas
Que o arredondam.
Quero as águas,
Curvas que me escaparam.
E as perdi - pedro-perda.
O que tive passou
Por passar de existir assim.
Olho o inseto esperto
Que voa sob meu olhar;
Os anos contados
De sua plenitude passando.
Os afastamentos vindos e vindouros.
As nossas trocas de solidão.
Seu voo, meu assento diáfano,
Minha evaporação.
Quero o repouso dos risos esquecidos,
Das frutas que comi. Comemos.
E, contudo, não soube amá-las
De fato.
Adormeci. Esqueci.
Adoeci. Escrevi.
Quero a janela que se abre ao travesseiro.
Ainda assim, aproxime de mim
A sombra que me espera.
Seu silêncio,
O melodrama que se afaga
No mingau de todo hoje-à-noite.
As más falas,
As más e todas as boas lembranças.
setembro/outubro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011

EPITÁFIO
Morrer não é um problema. Viver em sofrimento sim. Morrer é um alívio. A busca insistente da mitigação é um ato ordinário de nossa conduta, que vivo estamos e, assim, seguiremos até o fim indesejável; de qualquer forma, aliviador.
Sem nenhuma conotação religiosa, a vida (qualquer vida), por dada, é sagrada. Assim também é o alívio. Este não se procura, espera-se paciente e angustiadamente. Outra coisa não é a vida, apenas acomodação e espera. Não se preocupe, o naufrágio virá. Quando? Pergunte ao mar.
setembro de 2011
Morrer não é um problema. Viver em sofrimento sim. Morrer é um alívio. A busca insistente da mitigação é um ato ordinário de nossa conduta, que vivo estamos e, assim, seguiremos até o fim indesejável; de qualquer forma, aliviador.
Sem nenhuma conotação religiosa, a vida (qualquer vida), por dada, é sagrada. Assim também é o alívio. Este não se procura, espera-se paciente e angustiadamente. Outra coisa não é a vida, apenas acomodação e espera. Não se preocupe, o naufrágio virá. Quando? Pergunte ao mar.
setembro de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
MUITO DIFÍCIL - NÃO GOSTEI!
a Laerte
Na arte, a complexidade deve se fazer oculta ou discreta; nunca ostensiva, que revele a exibição aparatosa e incontida. Essa fica para amantes de referências cifradas e outras bobagens.
Por outro lado, a simplicidade é, na maioria das vezes, apenas aparente. Penso em Bandeira e João Gilberto. A beleza que nos encanta de quase pronto vem de sua força ou intensidade. Há muita confusão: toma-se o tosco como simples, e o juízo do belo adota, assim, o não-lapidado, o assemelhado à natureza como equivalente do bem-realizado, esquecendo-se que a arte pressupõe artifício, lapidação em suma.
Há obras que são de grande complexidade, no entanto, estas não se fazem complicadas a ponto de desarranjarem a fruição, tornando-se um desprazer que, mesmo depois da necessária insistência, permanecem intratáveis. Penso em Finnegans Wake. Ora, é também desse jogo o estranhamento, o mistério que pede alguma paciência para se dissipar. Penso em Francis Bacon e Lucien Freud. De outro modo, passaríamos a vida a ouvir canções de ninar, apreciando unicamente as formas naturais. E ambas têm seu lugar e momento.
Na arte, o complexo se afasta do complicado, para não dizer "se opõe", e nem se confunda o difícil com a complicação exibitória, que é fanfarronice. É só pensar num texto antigo, numa obra de cultura, para nós, estranha. Elas são tão somente difíceis - gostosamente difíceis. Penso em Bashô. Uma "viagem" e tanto.
Por outro lado, a simplicidade é, na maioria das vezes, apenas aparente. Penso em Bandeira e João Gilberto. A beleza que nos encanta de quase pronto vem de sua força ou intensidade. Há muita confusão: toma-se o tosco como simples, e o juízo do belo adota, assim, o não-lapidado, o assemelhado à natureza como equivalente do bem-realizado, esquecendo-se que a arte pressupõe artifício, lapidação em suma.
Há obras que são de grande complexidade, no entanto, estas não se fazem complicadas a ponto de desarranjarem a fruição, tornando-se um desprazer que, mesmo depois da necessária insistência, permanecem intratáveis. Penso em Finnegans Wake. Ora, é também desse jogo o estranhamento, o mistério que pede alguma paciência para se dissipar. Penso em Francis Bacon e Lucien Freud. De outro modo, passaríamos a vida a ouvir canções de ninar, apreciando unicamente as formas naturais. E ambas têm seu lugar e momento.
Na arte, o complexo se afasta do complicado, para não dizer "se opõe", e nem se confunda o difícil com a complicação exibitória, que é fanfarronice. É só pensar num texto antigo, numa obra de cultura, para nós, estranha. Elas são tão somente difíceis - gostosamente difíceis. Penso em Bashô. Uma "viagem" e tanto.
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