segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ACEITAÇÃO

E se fosse assim?
E se quiséssemos?
De outro modo,
De qualquer jeito?
Por aí e qualquer coisa?
Diga que não. Diga que sim.
Não serei jamais,
Nem que não.
Muito adquirido,
Tomado de mim.
Pleno e bruto.
Diga que vem, que nem.
É AQUI OU ALI

Sinto saudades de um homem,
Boa companhia.
Andávamos por aí,
Sem tanto destino.
Bastávamos lado a lado.
Pegávamos folhas do chão,
Admirávamos o mar.
Éramos grãos de areia,
Lado a lado.
Tantos anos dele e anos meus.
Pena que se foi,
Morreu em minhas mãos.
Eu
Sem piscar, mudo, tonto, besta.
Sinto saudades e sou bem pior,
Eterno e para sempre.
DIZ NÃO

Os muitos onzes.
Às claras.
Mariposas onzes.
Eu, eu mesmo onze.
Ponho as mãos sobre meu corpo.
Onze.
Ando sobre o nu,
Abro as janelas
De casa nenhuma.
Onze.
Deito sobre lençois ausentes,
Enlaçado em onzes.
CONTRAPELO

Quando
As fitas deslaçadas dos presentes
Embaraçam os dedos gordurosos de Natal:
Dizem tanto, por aqui, sem dizer.
Nos encanamentos mais íntimos,
Atravessam, afinados, tantos anos,
Os soluços mais escuros,
As noites escondidas,
As alegrias catraquentas
Mergulhadas nos caldos mais quentes
E as manhãs sequentes,
Geladas, das geladeiras roubadas.
Os afetos de ontem. Do chão.
As noites vãs
Em que dizer é só dizer.
Do trapézio para o mais dentro,
Num mergulho sobre a suja pia.
De mal lavada, a pior das praias: pedra sobre pedra.
O amor mendigado em ciscos,
Escapado em solas de sapatos
De outra noite,
Da qual nem mais lembramos,
Por mais, por mais quê.
Quem há de?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

SOB A PORTA

a meu filho em seus 18 anos

Deixo-lhe isso.
Não quero o fácil
De pedro-pedra.
Quero o mistério das águas
Que o arredondam.
Quero as águas,
Curvas que me escaparam.
E as perdi - pedro-perda.

O que tive passou
Por passar de existir assim.
Olho o inseto esperto
Que voa sob meu olhar;
Os anos contados
De sua plenitude passando.
Os afastamentos vindos e vindouros.

As nossas trocas de solidão.
Seu voo, meu assento diáfano,
Minha evaporação.

Quero o repouso dos risos esquecidos,
Das frutas que comi. Comemos.
E, contudo, não soube amá-las
De fato.
Adormeci. Esqueci.
Adoeci. Escrevi.

Quero a janela que se abre ao travesseiro.
Ainda assim, aproxime de mim
A sombra que me espera.
Seu silêncio,
O melodrama que se afaga
No mingau de todo hoje-à-noite.

As más falas,
As más e todas as boas lembranças.

setembro/outubro de 2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011






EPITÁFIO

Morrer não é um problema. Viver em sofrimento sim. Morrer é um alívio. A busca insistente da mitigação é um ato ordinário de nossa conduta, que vivo estamos e, assim, seguiremos até o fim indesejável; de qualquer forma, aliviador.

Sem nenhuma conotação religiosa, a vida (qualquer vida), por dada, é sagrada. Assim também é o alívio. Este não se procura, espera-se paciente e angustiadamente. Outra coisa não é a vida, apenas acomodação e espera. Não se preocupe, o naufrágio virá. Quando? Pergunte ao mar.

setembro de 2011

quarta-feira, 17 de agosto de 2011





MUITO DIFÍCIL - NÃO GOSTEI!




a Laerte




Na arte, a complexidade deve se fazer oculta ou discreta; nunca ostensiva, que revele a exibição aparatosa e incontida. Essa fica para amantes de referências cifradas e outras bobagens.

Por outro lado, a simplicidade é, na maioria das vezes, apenas aparente. Penso em Bandeira e João Gilberto. A beleza que nos encanta de quase pronto vem de sua força ou intensidade. Há muita confusão: toma-se o tosco como simples, e o juízo do belo adota, assim, o não-lapidado, o assemelhado à natureza como equivalente do bem-realizado, esquecendo-se que a arte pressupõe artifício, lapidação em suma.

Há obras que são de grande complexidade, no entanto, estas não se fazem complicadas a ponto de desarranjarem a fruição, tornando-se um desprazer que, mesmo depois da necessária insistência, permanecem intratáveis. Penso em Finnegans Wake. Ora, é também desse jogo o estranhamento, o mistério que pede alguma paciência para se dissipar. Penso em Francis Bacon e Lucien Freud. De outro modo, passaríamos a vida a ouvir canções de ninar, apreciando unicamente as formas naturais. E ambas têm seu lugar e momento.

Na arte, o complexo se afasta do complicado, para não dizer "se opõe", e nem se confunda o difícil com a complicação exibitória, que é fanfarronice. É só pensar num texto antigo, numa obra de cultura, para nós, estranha. Elas são tão somente difíceis - gostosamente difíceis. Penso em Bashô. Uma "viagem" e tanto.