segunda-feira, 17 de outubro de 2011


A CANETA TINTEIRO

in memoriam de Orson Wells

O fio delicado que ora vaza
Entre meus dedos,
Na tinta, desde a meninice,
Faz de minha pena
Perversa a memória.

Ela me deu a alegria
Da passagem
Das calças curtas aos cambitos ocultos.
Pernas que faltavam,
Não compareciam,
Não se tornavam.

Esse trenó que desliza
Sobre o branco da página
Não me traz Rosebud*,
Abre-me a outras penas.

As de todos os pássaros
Que um dia voaram
Para sempre,
Sem volta,
Para o horizonte,
Na terra redonda da infância.

(em homenagem a minha primeira caneta tinteiro, nos cinquenta de meu quarto ano de grupo escolar. Usei aqui uma outra, nova, mas da mesma marca)

* Rosebud, para quem não sabe, é o trenó de Cidadão Kane, célebre filme de O.W. Brinquedo querido de sua infância - a âncora e perda mais irreparável.
DOS ALBERGUES E “DIFERENCIADOS”

Hoje, 14 de outubro, moradores de Pinheiros, bairro paulistano de classe média, querem expulsar um albergue de suas vizinhanças. Procuraram o Ministério Público por abaixo-assinado e se deram mal. Os "politicamente corretos" se assanharam. Houve quem chamasse os albergados de "lixo humano", o que fez M. Bandeira, em célebre poema, pensar em "bicho", dada a degradação. Coisa antiga no mundo. Acontece e é fato.

Vida em albergue é ruim segundo o juízo dos próprios albergados, que são agredidos com frequência, furtados por muitos de seus pares, disciplina militar e alimentação medonha. Sofrem na mão de certos funcionários cruéis que, por sua vez, mal remunerados, infelizes, lidam com problemas enormes. Assim, os albergados acabam preferindo a vida nas ruas, o relento, ou, resignados, suportam o insuportável por falta de opção.

Conheço muitos deles. Um dorme em albergue e passa o dia em bibliotecas públicas. Recolhe latas pelas ruas para comer; mantém-se limpo como pode. Rejeitado pela família, idade algo avançada e sábio a seu jeito. Ensinou-me que não ter dinheiro não é motivo para nada. "Espere com paciência, que algo aparece. Não é? Você me apareceu para umas cervejas nesse feriado. Está muito bom. O que você acha daquela bagunça no Afeganistão?" Disse-me ele naquela tarde fermentada e triste, com um lero pronto no gatilho. Quantos brasileiros podem fazer isso?

Outra, que nomeio aqui como Dulcineia, uma mulher muito forte, bela em dignidade e em seu corpo de índia, jovem de seus 40 anos, carregadora de pesos impossíveis sobre a cabeça. Sempre só. Um dia, a encontrei atropelada na rua, sem gravidade mas ferida, com um de seus tornozelos destruído. Desolada e ignorada. Não teria como seguir a vida com aquele pé. Fiz o que pude em ambulatórios públicos e em minha casa. Desapareceu. Para sempre? Ninguém sabe. Conversávamos muito por aí. Disse-me, então, que sua salvação seria a prisão. Comida e moradia asseguradas. A liberdade de ir e vir já estava comprometida. Sábias palavras.

Há albergados(as) de outra natureza, mas, mesmo assim, "albergados(as)": têm residência, família e endereço fixos. Vão pra casa dormir. Com a vantagem da roupa lavada e passada. Problema enorme para aqueles outros. Deixa pra lá.

Abandonados pelas famílias, desempregados, doentes, prostitutas vicárias, viciados em drogas lícitas e ilícitas alguns, seu único alívio; entretanto, existem outros que trabalham como você e eu. A Constituição lhes garante o direito à moradia - direito básico. Há também essa história de "direito à vida" do qual muitos discordam. É, chegamos a isso.

Para muitos deles, ascenção social se traduz num quartinho de pensão infame e a posse de uma carroça (os mais jovens e fortes). Sem patrão. Há cães amigos, sua proteção e companhia - a expressão mais singela de sua vida afetiva. Eles não só parecem pessoas. São pessoas. Para alguns, não lhes falta a mais legítima altivez.

Gentes a mais, muitas sobrando. Não há tanto lugar. Não vai funcionar; essa história acaba mal. Não vai dar certo. Alguns mamíferos humanos em meio a elas. A maioria é boçal incorrigível, apedeutas endividados e "felizes" nas prestações intermináveis, muitos motorizados perigosos, outros nos estádios.

Quem, voluntariamente, morre primeiro, antes de também degradar-se em "bicho"? Faço drama, é preciso. A barbárie que amanhece em seu dia.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

STEVE JOBS

Os primatas nem conseguiram passar pelas primeiras letras e números e já se tornaram bovinos digitais. É uma evolução: de macacos a gado.

Agora, se endividam para, desde já, reservar o IPAD 8. E, milagrosamente, tornam-se escravos digitais. Ele conseguiu. Moço esperto!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ACEITAÇÃO

E se fosse assim?
E se quiséssemos?
De outro modo,
De qualquer jeito?
Por aí e qualquer coisa?
Diga que não. Diga que sim.
Não serei jamais,
Nem que não.
Muito adquirido,
Tomado de mim.
Pleno e bruto.
Diga que vem, que nem.
É AQUI OU ALI

Sinto saudades de um homem,
Boa companhia.
Andávamos por aí,
Sem tanto destino.
Bastávamos lado a lado.
Pegávamos folhas do chão,
Admirávamos o mar.
Éramos grãos de areia,
Lado a lado.
Tantos anos dele e anos meus.
Pena que se foi,
Morreu em minhas mãos.
Eu
Sem piscar, mudo, tonto, besta.
Sinto saudades e sou bem pior,
Eterno e para sempre.
DIZ NÃO

Os muitos onzes.
Às claras.
Mariposas onzes.
Eu, eu mesmo onze.
Ponho as mãos sobre meu corpo.
Onze.
Ando sobre o nu,
Abro as janelas
De casa nenhuma.
Onze.
Deito sobre lençois ausentes,
Enlaçado em onzes.
CONTRAPELO

Quando
As fitas deslaçadas dos presentes
Embaraçam os dedos gordurosos de Natal:
Dizem tanto, por aqui, sem dizer.
Nos encanamentos mais íntimos,
Atravessam, afinados, tantos anos,
Os soluços mais escuros,
As noites escondidas,
As alegrias catraquentas
Mergulhadas nos caldos mais quentes
E as manhãs sequentes,
Geladas, das geladeiras roubadas.
Os afetos de ontem. Do chão.
As noites vãs
Em que dizer é só dizer.
Do trapézio para o mais dentro,
Num mergulho sobre a suja pia.
De mal lavada, a pior das praias: pedra sobre pedra.
O amor mendigado em ciscos,
Escapado em solas de sapatos
De outra noite,
Da qual nem mais lembramos,
Por mais, por mais quê.
Quem há de?