RAVINA
Minha irmã,
Queria lhe dar um piano
Limpo,
Vazio de todas as canções.
Seu, para que apenas você
Fosse carregando-o
Com suas mais queridas melodias.
Uma árvore
Grande e plena,
Arvorada de flores.
Sua para o sempre
De todos os setembros.
Uma montanha
Azul,
Distante e na palma da mão.
Alguma neve no cimo
Com mistérios esquecidos
Nas suas ravinas mais escondidas.
Sua, para o que desse e viesse.
Eu queria tanto mais
Em meu gordo silêncio de desejos.
Mas, ainda assim,
Não sabia bem por quê,
Naquele vazio oblíquo,
Me sentia presente
A xeretar alegrias
Aqui e ali.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
RELATO DE DEZEMBRO
Punido com "prisão" domiciliar por ter mentido repetidamente sobre seu mau desempenho escolar, o jovem Tadeu, ao tentar transpor o muro de sua casa-fortaleza, acabou eletrocutado. Foi letal.
Ficaram as perguntas: ele morreu porque o castigo foi excessivo e, por esta razão, em desespero, arriscou sua vida na busca desesperada pela liberdade? ou porque, desobediente contumaz que era, quis driblar a punição infligida? (Ele sabia do muro mortal que havia ali).
Até ontem, seus pais continuavam em Maresias (balneário do litoral paulista). Não quiseram respondê-las. Remeteram-nas ao psicólogo que acompanha(va) o jovem Tadeu há alguns anos.
Insistiram apenas em dizer que não deixarão, em hipótese alguma, de comparecer às exéquias. Imagine duvidar.
Punido com "prisão" domiciliar por ter mentido repetidamente sobre seu mau desempenho escolar, o jovem Tadeu, ao tentar transpor o muro de sua casa-fortaleza, acabou eletrocutado. Foi letal.
Ficaram as perguntas: ele morreu porque o castigo foi excessivo e, por esta razão, em desespero, arriscou sua vida na busca desesperada pela liberdade? ou porque, desobediente contumaz que era, quis driblar a punição infligida? (Ele sabia do muro mortal que havia ali).
Até ontem, seus pais continuavam em Maresias (balneário do litoral paulista). Não quiseram respondê-las. Remeteram-nas ao psicólogo que acompanha(va) o jovem Tadeu há alguns anos.
Insistiram apenas em dizer que não deixarão, em hipótese alguma, de comparecer às exéquias. Imagine duvidar.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
PAISAGEM TRISTÍSSIMA
Num mundo movido a baterias, querem ser adultos o quanto antes. Mas apenas na casca, sem responsabilidades. Não desejam também ser filhos ou alunos. As meninas se vestem como as mulheres de vida airada (lembram?) e os meninos como qualquer maloqueiro temido. Daí desobedecer e desafiar. Todos eles não largam os celulares e IPods, seu mundo privado. Assim, têm muita dificuldade com Língua Portuguesa e Matemática, que exigem muito esforço e disciplina. Melhor é se expor nas redes sociais e se entupir de música vulgar, sempre em segundo plano. Como caminham para a surdez, não falam, gritam. Não riem, gargalham como araras bêbadas.
Estou ficando velho e birrento.
Num mundo movido a baterias, querem ser adultos o quanto antes. Mas apenas na casca, sem responsabilidades. Não desejam também ser filhos ou alunos. As meninas se vestem como as mulheres de vida airada (lembram?) e os meninos como qualquer maloqueiro temido. Daí desobedecer e desafiar. Todos eles não largam os celulares e IPods, seu mundo privado. Assim, têm muita dificuldade com Língua Portuguesa e Matemática, que exigem muito esforço e disciplina. Melhor é se expor nas redes sociais e se entupir de música vulgar, sempre em segundo plano. Como caminham para a surdez, não falam, gritam. Não riem, gargalham como araras bêbadas.
Estou ficando velho e birrento.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Ela me Disse
A fome corta, na língua,
As suas carnes.
Os lábios movem, na água,
Sussurros nos próprios ouvidos.
Os dedos se quebram,
Na fúria de matar,
Com a linha,
A vulva da agulha.
Os ventres, frágeis de vigor,
Avançam arrepiados,
Desdobrando as ventanias
Das madrugadas mal agradecidas.
O homem se repousa sobre um catre,
Na farinha da mesmice.
Só, se sufoca no silêncio de ouvir-se.
Mas...
Deita-te a seu lado;
A esperança ainda
Não vazou-lhe pelo furo do bolso.
Eu te disse e repito:
A vida é final.
A fome corta, na língua,
As suas carnes.
Os lábios movem, na água,
Sussurros nos próprios ouvidos.
Os dedos se quebram,
Na fúria de matar,
Com a linha,
A vulva da agulha.
Os ventres, frágeis de vigor,
Avançam arrepiados,
Desdobrando as ventanias
Das madrugadas mal agradecidas.
O homem se repousa sobre um catre,
Na farinha da mesmice.
Só, se sufoca no silêncio de ouvir-se.
Mas...
Deita-te a seu lado;
A esperança ainda
Não vazou-lhe pelo furo do bolso.
Eu te disse e repito:
A vida é final.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
SAMBA-CANÇÃO
Disseram-me (ela me disse):
Escreva um poema de amor.
O que as músicas apaixonadas nos fazem?
Apaixonarmos também.
Por quem?
Um ente, um pássaro, um piano, um prego?
Talvez.
Mãos tocadas, sem braços,
Apartadas do apêndice humano.
Dedos apenas.
Os que já se despedem.
A música continua, a paixão não.
Levantamos as bundas do sofá,
Copos na mãos e a sombra do vinho
No silêncio das garrafas.
Assim mesmo:
Os dorsos curvos no tanque,
Esfregamos a camisa e a saia.
Um corpo de cada vez. Cada um em seu lugar.
Manchados de batom e dissolução
Da noite prostituída.
A luz roubada nas manhãs dessas vidas
Para sempre condenadas.
Os beijos beijados há muito
A casa deixaram.
COISA DO SILÊNCIO
O que uma pedra é?
Ela é humildade para sempre,
Esculpida pelo vazio do tempo,
Recolhida num silêncio mais iluminado.
O silêncio que nos afoga no mistério
Do tempo longo, muito longo.
Enterrem-me, quando for,
Com as pedras mais distraídas.
Até que também me petrifiquem.
Disseram-me (ela me disse):
Escreva um poema de amor.
O que as músicas apaixonadas nos fazem?
Apaixonarmos também.
Por quem?
Um ente, um pássaro, um piano, um prego?
Talvez.
Mãos tocadas, sem braços,
Apartadas do apêndice humano.
Dedos apenas.
Os que já se despedem.
A música continua, a paixão não.
Levantamos as bundas do sofá,
Copos na mãos e a sombra do vinho
No silêncio das garrafas.
Assim mesmo:
Os dorsos curvos no tanque,
Esfregamos a camisa e a saia.
Um corpo de cada vez. Cada um em seu lugar.
Manchados de batom e dissolução
Da noite prostituída.
A luz roubada nas manhãs dessas vidas
Para sempre condenadas.
Os beijos beijados há muito
A casa deixaram.
COISA DO SILÊNCIO
O que uma pedra é?
Ela é humildade para sempre,
Esculpida pelo vazio do tempo,
Recolhida num silêncio mais iluminado.
O silêncio que nos afoga no mistério
Do tempo longo, muito longo.
Enterrem-me, quando for,
Com as pedras mais distraídas.
Até que também me petrifiquem.
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