DO ODOR DAS COISAS ANTIGAS
ADEUS
Quando, ontem, me disseram que as asas se dobram ali e se quebram acolá, fiquei apreensivo. Preparo-me para a fuga permanentemente. Minhas asas, já cansadas pela idade, pouco me adestram. Mas pensei, pensei em nó frígio - o que é incontornável e intransponível: fugir para onde? A mais inconveniente das indagações, a que me põe diante de mim e do tempo, do inamovível. Fugir? Não. Desaparecer. As asas serão as folhas secas sobre que até as árvores desconversam. Livre, serei memória, móvel como todas, intangível. Um chocolate esquecido no assento, no vagão de um trem sem trilhos.
EQUIVALÊNCIA
Como pássaros que nos oferecem mel,
Pousados como frutas
Nos galhos das nuvens.
Um sopro de encanto
Na esquina das madrugadas mais sinistras
De nosso recolhimento,
De nossa rosca sem fim,
No intestino de nosso travesseiro,
De nossa dor mais insincera,
De nossa autoindulgência
Mais vil. Nossa mais humana condição.
Uma vergonha surrupiada pelo oblívio.
SE LHE APROUVER
Licenças concedidas. Visitas se fazendo. Jardim tomado por mato e galinhas. Varanda ampla e vazia. Casacos e guarda-chuvas no vestíbulo. O fatídico envelope nas mãos. Mármores sentados diante de um esqueleto mole. Assuntos gravíssimos a tratar. Dia claro. Tanta dor. Minha infância lá tão próxima. Café fraco e frio no fundo das porcelanas desbotadas. Círios acesos nos quatro cantos da mesa, na refeição bizarra de nosso fim. Uma vida nos dedos trêmulos. Pousam lá fora, próximos, pardais tagarelas sem convites. Ouvir aquilo com o desejo de também voar. E estar ali como chumbo. A vida que foi de todos e é de ninguém. Sentir por inércia, mais uma vez, que todos nós, uns antes outros depois, seremos apodrecidos. O sol repentino. A luz varando as cortinas puídas. Por dentro, a noite mais íntima. As unhas que não cortei e a barba que não fiz. Cabelinhos nas entranhas das ventas, nas narinas indesejáveis. Choveu muito quando não deveria chover sobre meus erros. Longe, ouço um grito feminino que chama por crianças que desapareceram na farra das poças. Folhas úmidas, em franco ócio, no piso de madeira gasta da entrada. A porta aberta me concede permissão para voos mágicos. Não tenho para onde correr nem como evitar. Vontade que não depositei nos olhos que não pedi que se abrissem. Cimento-me e disponho-me em prontidão para o horror das falas afiadas no silêncio de frios das facas.
DO INÚTIL EM DIZER E PENSAR
Pois encheram minha infância de balinhas metafísicas. Deram-me censura, honra e medo. Tornei-me um homem capenga. O que assim chamam. Olho plantinhas que nascem, de qualquer modo, nos vãos das pedras. Olho as águas esparramadas e os quebrados da calçada. Lamento a música e o desespero das noites. Não sou daqui nem daí. O que vejo então? Pessoas mordendo lábios lacônicos. Prefiro insetos e as aranhinhas que tecem teias físicas e me dizem: você não passa de um saco de tripas empatando nossos dias. Sigo, com cautela, meus passos que vão à frente.
Salvador, 24 de julho de 2012
terça-feira, 24 de julho de 2012
domingo, 22 de julho de 2012
MEXIDO
"A incapacidade de a linguagem encobrir a experiência real me fascina. Gosto da exposição do fracasso da linguagem, pois sempre haverá uma zona de indeterminação, de incompletude. A morte estará sempre à espreita, porque é a linguagem que a carrega dentro de si". Carlos de Brito e Mello
Duas palavras me causam um leve incômodo aí: "recobrir" e "morte". Ainda que concorde com o exposto, as trocaria por "revelar" e "silêncio" respectivamente. Não estaria dizendo coisa diferente de C.B.M: "revelar" remete a "véu" e, portanto, "cobrir", "encobrir". O "silêncio" precede e reveste a "morte". Os moribundos, pela ordem natural das coisas, em seus instantes finais, também se calam. A linguagem recolhe-se à sua insignificância, à sua impermanência e impertinência. Para morrer com o morto. Se a morte, na maioria das vezes, não manda aviso, a linguagem se engrandece à medida que se encolhe na fronteira de seus próprios limites; na insistência muda de quem não ousa falar. Seu último e escuro desejo. A linguagem passeia saltando silêncios.
Salvador, 16 de julho de 2012
"A incapacidade de a linguagem encobrir a experiência real me fascina. Gosto da exposição do fracasso da linguagem, pois sempre haverá uma zona de indeterminação, de incompletude. A morte estará sempre à espreita, porque é a linguagem que a carrega dentro de si". Carlos de Brito e Mello
Duas palavras me causam um leve incômodo aí: "recobrir" e "morte". Ainda que concorde com o exposto, as trocaria por "revelar" e "silêncio" respectivamente. Não estaria dizendo coisa diferente de C.B.M: "revelar" remete a "véu" e, portanto, "cobrir", "encobrir". O "silêncio" precede e reveste a "morte". Os moribundos, pela ordem natural das coisas, em seus instantes finais, também se calam. A linguagem recolhe-se à sua insignificância, à sua impermanência e impertinência. Para morrer com o morto. Se a morte, na maioria das vezes, não manda aviso, a linguagem se engrandece à medida que se encolhe na fronteira de seus próprios limites; na insistência muda de quem não ousa falar. Seu último e escuro desejo. A linguagem passeia saltando silêncios.
Salvador, 16 de julho de 2012
NO ESPELHO, AOS 62
NO ESPELHO, AOS 62
Tão dolorida, tão dolorida...
Mostram-me espelhos – vejo outro rosto,
dizem meu nome... – vejo outra vida.
Cecília Meireles
Nomes fluídos separam o que me figuram de mim: Antônio Rebouças Falcão é o civil escriturado; Toninho, o que a família plasmou em anos iniciais e legou aos parentes e amigos mais antigos; Toniô, Toni, o que resolveram, por conta, deixar como crosta de fundo nas panelas mais velhas; Falcão, o nome público que adotei nas andanças profissionais; Falcon, Mr. Falco, o predileto (nem sei por quê) de garçons em botequins por aí; até Mr. Jô um deles adotou, o que imitava qualquer passarinho quando me avistava. Todos eles, nomes que, agora, fazem o vidro e a prata que afastam uma substância inefável e volátil (um eu difuso em mim daquele outro ali a me observar sem medo, a me vigiar). Pela ordem natural das coisas, o estrago está irremediavelmente feito.
Sou extremamente tóxico com meus próprios erros e, depois, com os, alheios. Sofro de mania judicativa. Não sou rotineiramente feliz. Oprimido que sou em espaço tão exíguo. Tudo piora. Só melhora o vôo do urubu. Prefiro a intensidade na alegria e na melancolia, que é meu estado mais frequente. Felicidade é farinha frívola em nossos tempos sombrios. Impaciente e ranzinza, só. Um urso polar, um eremita. Minha misantropia e ceticismo, os engulo no café da manhã.
Faço minha própria comida, lavo e passo minha própria roupa, na mão. Sou notívago. Prefiro estar onde não estão. Enquanto dormem, me ativo. Não suporto a servidão assalariada, bater ponto e cumprir horários num trabalho embrutecedor e estúpido; quase todos.
As ruas e o mundo lá fora me irritam em demasia. Espero que chova gasolina sobre eles, não obstante, gosto de caminhar para, na primeira oportunidade, recolher-me; não troco minha casa e seu silêncio povoado de livros por um tesouro de gregarismo bovino (confrarias, clubes esportivos, partidos políticos, credos e doutrinas de quaisquer espécies). As crenças são sonolentas, letargias deletérias.
Sou de pouca prosa e monologo com paredes, parlamento com pedras milenares. São os espelhos opacos de minha preferência. Nada falam, nada respondem. São fragmentos de mim que balançam nos varais da frágil existência. Por suposto, detesto telefones e conectividades virtuais. Prefiro o vento na cara e presenças que, empiricamente, se enfrentam, os olhos que se encaram na carne.
Quando ouço música, ouço-a baixo; prefiro a voz dos instrumentos; entretanto, vivo em tormenta íntima, em vendaval imaginativo. A contrapelo dos juízos pedestres, não habito a serenidade, busco desesperadamente o sossego, a preguiça prazenteira.
Choro com belezas e me comovem aqueles que esculpem delícias no simples deixar-se pensar, sonhar. Adoro canetas e papéis em branco, estas outras superfícies opacas, como espelhos que aguardam ordens.
Aprecio insetos e o assombro que me presenteiam os pássaros. O deslocamento fremente, os atilados sem permanência, a altivez suficiente.
Conforta-me saber que sou verbalmente feliz na mesa da palavra. Não me convidem, que não vou. Deixem-me ficar em momentos de paz flutuante, que, somados um a um, me encaminharão, um dia desses, para a cama que me espera irremediavelmente. É o repouso de todos os Zés Pereiras.
SALVADOR, 20 DE JULHO DE 2012
Tão dolorida, tão dolorida...
Mostram-me espelhos – vejo outro rosto,
dizem meu nome... – vejo outra vida.
Cecília Meireles
Nomes fluídos separam o que me figuram de mim: Antônio Rebouças Falcão é o civil escriturado; Toninho, o que a família plasmou em anos iniciais e legou aos parentes e amigos mais antigos; Toniô, Toni, o que resolveram, por conta, deixar como crosta de fundo nas panelas mais velhas; Falcão, o nome público que adotei nas andanças profissionais; Falcon, Mr. Falco, o predileto (nem sei por quê) de garçons em botequins por aí; até Mr. Jô um deles adotou, o que imitava qualquer passarinho quando me avistava. Todos eles, nomes que, agora, fazem o vidro e a prata que afastam uma substância inefável e volátil (um eu difuso em mim daquele outro ali a me observar sem medo, a me vigiar). Pela ordem natural das coisas, o estrago está irremediavelmente feito.
Sou extremamente tóxico com meus próprios erros e, depois, com os, alheios. Sofro de mania judicativa. Não sou rotineiramente feliz. Oprimido que sou em espaço tão exíguo. Tudo piora. Só melhora o vôo do urubu. Prefiro a intensidade na alegria e na melancolia, que é meu estado mais frequente. Felicidade é farinha frívola em nossos tempos sombrios. Impaciente e ranzinza, só. Um urso polar, um eremita. Minha misantropia e ceticismo, os engulo no café da manhã.
Faço minha própria comida, lavo e passo minha própria roupa, na mão. Sou notívago. Prefiro estar onde não estão. Enquanto dormem, me ativo. Não suporto a servidão assalariada, bater ponto e cumprir horários num trabalho embrutecedor e estúpido; quase todos.
As ruas e o mundo lá fora me irritam em demasia. Espero que chova gasolina sobre eles, não obstante, gosto de caminhar para, na primeira oportunidade, recolher-me; não troco minha casa e seu silêncio povoado de livros por um tesouro de gregarismo bovino (confrarias, clubes esportivos, partidos políticos, credos e doutrinas de quaisquer espécies). As crenças são sonolentas, letargias deletérias.
Sou de pouca prosa e monologo com paredes, parlamento com pedras milenares. São os espelhos opacos de minha preferência. Nada falam, nada respondem. São fragmentos de mim que balançam nos varais da frágil existência. Por suposto, detesto telefones e conectividades virtuais. Prefiro o vento na cara e presenças que, empiricamente, se enfrentam, os olhos que se encaram na carne.
Quando ouço música, ouço-a baixo; prefiro a voz dos instrumentos; entretanto, vivo em tormenta íntima, em vendaval imaginativo. A contrapelo dos juízos pedestres, não habito a serenidade, busco desesperadamente o sossego, a preguiça prazenteira.
Choro com belezas e me comovem aqueles que esculpem delícias no simples deixar-se pensar, sonhar. Adoro canetas e papéis em branco, estas outras superfícies opacas, como espelhos que aguardam ordens.
Aprecio insetos e o assombro que me presenteiam os pássaros. O deslocamento fremente, os atilados sem permanência, a altivez suficiente.
Conforta-me saber que sou verbalmente feliz na mesa da palavra. Não me convidem, que não vou. Deixem-me ficar em momentos de paz flutuante, que, somados um a um, me encaminharão, um dia desses, para a cama que me espera irremediavelmente. É o repouso de todos os Zés Pereiras.
SALVADOR, 20 DE JULHO DE 2012
segunda-feira, 18 de junho de 2012
FRUTO IMPRESTÁVEL
Cortar na própria carne
É lavar as mãos nos próprios dedos.
E sentir amargura
É saciar-se com a própria fome.
O vento balança a janela
Que responde em singelo agradecimento,
Batendo palmas por graças nem sonhadas.
Eu?
Viro-me na cama
E mando às favas o que me impede,
O que me congela,
O que me toma pelas mãos
E leva-me à praça vazia
De minhas desesperanças.
Junho de 2012
Cortar na própria carne
É lavar as mãos nos próprios dedos.
E sentir amargura
É saciar-se com a própria fome.
O vento balança a janela
Que responde em singelo agradecimento,
Batendo palmas por graças nem sonhadas.
Eu?
Viro-me na cama
E mando às favas o que me impede,
O que me congela,
O que me toma pelas mãos
E leva-me à praça vazia
De minhas desesperanças.
Junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
SOBRE A ARTE DE MILTON JOSÉ DE ALMEIDA
Suas imagens, sempre fortes no impacto inicial, eram, para mim, aos poucos, diáfanas e evanescentes, à beira da abstração. Antes que escapassem de nossa retina, dava-nos uma vaga referência de realidade, e, então desidratadas, partiam levadas pelo vento de sua beleza – esta que não mais nos abandonará. Imagens para serem vistas ao som de “In the Landscape” de John Cage. Delicadas como o artista no trato pessoal, na convivência.
Por que, ali em cima, verbos no pretérito? Apenas como homenagem e notificação de sua morte recente. Quem o conheceu sabe a que me refiro. Soube tardiamente de sua repentina partida. Estranhava o desaparecimento de seus e-mails. Perdi contato, que vivia em Campinas. Visitei-o por lá duas vezes. Morando sempre só e lecionando na Unicamp. Homem cético, de língua ferina, inteligência aguda como sua pena. E suprema cortesia.
Ficam, para mim, pelas paredes de minha casa, alguns de seus belos quadros e, nas estantes, alguns de seus textos e um livro: Cinema, arte da memória. E a lembrança de um amigo querido. Disto não posso me esquecer: era um excelente padeiro entre tantas outras excelências.
São Paulo, maio de 2012
Suas imagens, sempre fortes no impacto inicial, eram, para mim, aos poucos, diáfanas e evanescentes, à beira da abstração. Antes que escapassem de nossa retina, dava-nos uma vaga referência de realidade, e, então desidratadas, partiam levadas pelo vento de sua beleza – esta que não mais nos abandonará. Imagens para serem vistas ao som de “In the Landscape” de John Cage. Delicadas como o artista no trato pessoal, na convivência.
Por que, ali em cima, verbos no pretérito? Apenas como homenagem e notificação de sua morte recente. Quem o conheceu sabe a que me refiro. Soube tardiamente de sua repentina partida. Estranhava o desaparecimento de seus e-mails. Perdi contato, que vivia em Campinas. Visitei-o por lá duas vezes. Morando sempre só e lecionando na Unicamp. Homem cético, de língua ferina, inteligência aguda como sua pena. E suprema cortesia.
Ficam, para mim, pelas paredes de minha casa, alguns de seus belos quadros e, nas estantes, alguns de seus textos e um livro: Cinema, arte da memória. E a lembrança de um amigo querido. Disto não posso me esquecer: era um excelente padeiro entre tantas outras excelências.
São Paulo, maio de 2012
SAÚDE
Muitos médicos e paranóicos de consultório parecem ainda não saber que o corpo humano é vulnerável. Suas ações e preocupações têm, como horizonte, eliminar a vulnerabilidade de toda a população.
Os maníacos por saúde (inclua aí os antigos hipocondríacos. Lembra deles?) passaram a viver como se estivessem sob permanente ameaça e iminente desastre. Em vez de lazer e prazer, ginástica; em vez das delícias da mesa, a refeição administrada; em vez do sexo solto, a expectativa do desempenho hiperdimensionado; em vez do silêncio e da reflexão, a constante e doente conectividade digital.
Em busca da vida saudável, condenaram-se à patologia antecipada e medicalizam o que veem pela frente. Como soldados que já não conseguem estar sem a batalha sangrenta. São pessoas muito tristes e não sabem. Parecem felizes e satisfeitos. Por que não se conformam logo que vão morrer, de um modo ou de outro, como qualquer ser vivo? A graça está em não saber quando.
Cuidado! Mordem e são perigosos.
maio de 2012
Muitos médicos e paranóicos de consultório parecem ainda não saber que o corpo humano é vulnerável. Suas ações e preocupações têm, como horizonte, eliminar a vulnerabilidade de toda a população.
Os maníacos por saúde (inclua aí os antigos hipocondríacos. Lembra deles?) passaram a viver como se estivessem sob permanente ameaça e iminente desastre. Em vez de lazer e prazer, ginástica; em vez das delícias da mesa, a refeição administrada; em vez do sexo solto, a expectativa do desempenho hiperdimensionado; em vez do silêncio e da reflexão, a constante e doente conectividade digital.
Em busca da vida saudável, condenaram-se à patologia antecipada e medicalizam o que veem pela frente. Como soldados que já não conseguem estar sem a batalha sangrenta. São pessoas muito tristes e não sabem. Parecem felizes e satisfeitos. Por que não se conformam logo que vão morrer, de um modo ou de outro, como qualquer ser vivo? A graça está em não saber quando.
Cuidado! Mordem e são perigosos.
maio de 2012
DE QUADROS E RIOS
Uma pintura, um desenho, à medida que o tempo passa, vão se tornando vestígios daqueles de nosso primeiro olhar. Mas há algo curioso: ali na parede, são sempre os mesmos - nós é que mudamos. A cada novo olhar, acomodam-se a nosso "novo" íntimo. De forma que, embora os mesmos, se transfiguram em corpos estranhos a pedir licença para entrar em nosso "aposento" pessoal. São "novos", porque são sempre os mesmos. Como os rios que nos tangenciam.
Bastante diferentes daqueles em que mergulhamos. Estes tomam posse de nós para sempre. Não ficam ali na parede. Já não pedem licença - a contrapartida por termos invadido suas águas. Destes, o meu foi o Jequiriçá no recôncavo baiano, de cujas águas nunca me desvencilhei, preso por um liame de felicidade que me fez um "arrastado" e nunca um falcão em voo livre nos céus das planícies.
maio de 2012
Uma pintura, um desenho, à medida que o tempo passa, vão se tornando vestígios daqueles de nosso primeiro olhar. Mas há algo curioso: ali na parede, são sempre os mesmos - nós é que mudamos. A cada novo olhar, acomodam-se a nosso "novo" íntimo. De forma que, embora os mesmos, se transfiguram em corpos estranhos a pedir licença para entrar em nosso "aposento" pessoal. São "novos", porque são sempre os mesmos. Como os rios que nos tangenciam.
Bastante diferentes daqueles em que mergulhamos. Estes tomam posse de nós para sempre. Não ficam ali na parede. Já não pedem licença - a contrapartida por termos invadido suas águas. Destes, o meu foi o Jequiriçá no recôncavo baiano, de cujas águas nunca me desvencilhei, preso por um liame de felicidade que me fez um "arrastado" e nunca um falcão em voo livre nos céus das planícies.
maio de 2012
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