quinta-feira, 8 de novembro de 2012
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Faz algum tempo que sinto tomar-me a sensação de que sou irremediavelmente antiquado e que estou convictamente na contramão. Enumero algumas de minhas incompatibilidades com o tempo hodierno:
1. O barulho de todos os lugares em suas múltiplas formas: músicas, falas e máquinas. Todas insuportáveis e insalubres. Nem música é; nem fala é, mas percurssão e balbucio recheado de "porra, caralho".
2. Quaisquer manifestações humanas ocorrem em manadas de bovinos: vestimentas, penteados, visitas a museus, cinemas, esportes, eventos de toda ordem, preferências culinárias, manifestações de protesto, redes sociais. Usam o termo tribo para o que, de fato, é turba burra.
3. Tudo começa de mansinho e logo vira mania de manadas com seus respectivos pregadores, por exemplo: bicicletas (os bovinos preferem bike) e comida orgânica (ou qualquer coisa assim).
4. Difícil é ver, nas ruas, pessoas sem apêndices eletrônicos de toda espécie ou sem conectividade patológica, portando coleiras elétricas: o celular.
5. Pensar consigo e em silêncio está desaparecendo. As pessoas dedilham aparelhinhos.
Tudo disso é consequência e traz consequências. Ninguém quer pensar, ninguém está interessado. Querem ser iguais entre iguais. Quanto mais pretendem se tornar visíveis por inúmeros artifícios mais mergulham na mesmice daqueles que não enxergam o que está em sua frente, com exceção, é claro, da tela, do teclado e do fone de ouvido. Eu, sem nenhuma tristeza, sou uma desordem assente. Prefiro nunca sair de casa. Podem ir, que não vou. Silêncio, por favor.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
A escola, hoje, é um vazio preenchido com tagarelice pseudopedagógica. De nada adianta reclamar dela, buscar o que lhe falta. Seu oco é seu recheio. Melhor será rasgá-la como a energia escura nos atravessa; como um fantasma, nossa condição mais astuta. Os alunos conhecem isso à perfeição. Penetre-a para além dela e prometa a si mesmo nunca mais voltar.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Numa perspectiva temporal, uma sucessão de instantes entre um "desde que..." ao "até que...".
Numa perspectiva orgânica e psicológica, um mover-se sistemático e insistente para uma situação de conforto e acomodação.
Numa perspectiva evolutiva, agir para replicar-se com o(a) melhor parceiro(a). Tudo pela prole.
Numa perspectiva moral, "quem pode mais chora menos" ou "farinha pouca, meu pirão primeiro".
No plano filosófico, a ausência de sentido; um saco furado de insignificações onde são colocados propósitos que se perdem a todo instante em micromortes - os momentos.
Seu Domínio
No plano físico, ações entram em andamento para suprir o organismo de água e nutrientes, num ambiente de equilíbrio térmico. Alternando atividade e repouso. Território da vontade e da racionalidade na obtenção de máxima eficiência.
No plano mental, observações, indagações, reflexões, avaliações e decisões entram em andamento para a satisfação de desejos de amplo espectro na dimensão afetiva. Ainda a busca de acomodação e conforto.
As Zonas Cinzas
Em ambos os planos, a relação chave acontece entre o dentro e o fora. No plano físico, reina o cérebro, o grande gerente. O fora e o dentro se interpenetram.
Aí, a consciência é uma espécie de operária. Esta experimenta a impressão de que o fora é tudo e o dentro é nada, porque invisível, ainda que seja permanentemente sondado (às cegas) e revelado por sensações de prazer e dor. Os canais daquela interpenetração são decisivos por todo tempo considerado: órgãos físicos variados de entrada e saída.
No plano mental, o fora e o dentro também se interpenetram. Aqui, a consciência é uma espécie de gerente incompetente, porque de poder restrito em ambiente de alternância entre certeza, dúvida e ignorância; na tentação permanente de ceder ao autoengano. Fora, ela é cheia e clara.
O dentro é vazio e escuro. Fora de governo. Mais uma vez, reina o cérebro. A inter-relação do fora e dentro aparece nos sonhos. O dentro é também invisível (imperceptível pela consciência); também sondado às cegas por múltiplas sensações de prazer e dor, de nuances inefáveis.
Aqui, Tudo e Nada se confundem: às vezes, dentro parece tudo; o fora, nada. E vice-versa. O jogo de essência e aparência; imanência e transcendência.
Eu e Outro são os dançarinos desse balé obscuro entre infesto e cordial, porque em palcos de medo e segurança. Algoz e vítima em frenético intercâmbio de máscaras.
Num recuo gnoseológico, as zonas cinzas também estão entre os grandes planos físico e mental - "organicamente" articulados e integrados.
Uma pantomima sagrada e abusada de interações: químicas, físicas e psíquicas. E a demasiada interação das interações.
O esforço para conhecer é sempre um exercício de cegueira - vale pelo esforço em si e não por seu propósito. A busca de resultados esclarecedores é vã.
O porto de chegada é vacuidade e melancolia. É quando inventam religiões. Ao mesmo tempo, um perigo e um consolo.
setembro de 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
A convivência com certo grupo de pessoas me põe diante de alguns problemas que, habitualmente, não me ocupam: deus, deuses, existência depois da morte, criação do universo... Não é um grupo ímpar. É grande e, às vezes, me parece que se amplia. Resolvi, portanto, pôr ordem nas peças de meu tabuleiro, escrevendo o que segue. Adianto que não tenho pretensões de pensar filosoficamente. O que me falta em rigor sobra em anarquia de espírito. Penso e escrevo com a angústia do homem anônimo. O rigor, como trilha excludente, me engessa, me tolhe e me faz ágrafo.
Há um sentimento axial que aparta uns de todos os muitos outros: a melancolia. E não se trata de atribuir-lhe uma negatividade que não é própria dela. Diz mais respeito à postura da pessoa face aos mistérios do mundo. Diversamente do religioso - a quem se imputa, equivocadamente, positividade - o melancólico vivencia o "estar aqui" como quem soubesse que, para as perguntas essenciais, não há respostas.
Vê-se, assim, só, num mundo povoado de abundância de crenças que nada lhe dizem, que nenhum sentido carregam a não ser fantasias confortáveis. Sobre estas, resta-lhe o silêncio, sua proteção para o caldeirão de paixões e irracionalidades de toda ordem.
A melancolia não divide a cama com a depressão; ao contrário: há permanente prazer em caminhar pela noite dos mistérios insondáveis da existência. De forma que põe a pessoa numa constante busca, num estado de reflexão cotidiana. Uma curiosidade incansável. Respostas lhe sabem a modorra do pensamento, a um repouso indesejado.
A pessoa melancólica não carece de nenhuma forma de pertencimento. Todo gregarismo se impõe a ela como brutalidade. Avessa a doutrinas e dogmas, tem como alimento a dúvida infatigada. A unanimidade lhe é tóxica. Daí, lhe atribuírem a designação de antissocial, quando não passa de alguém hostil a convivência frívola, à torcida camarada e à tagarelice. Esses motores de enfado e celeuma desagradáveis e inesperadas.
Recolhimento e sossego são seus estados cultivados - condição para o exercício de suas atividades mentais, que predominam sobre as outras físicas. O melancólico é cerebral, dado a minudências, a constantes verificações e a dilemas incômodos. Incapaz de sambar na avenida e de efusões memorativas. Gritos de júbilo.
Entre o livro e o cinema, o silêncio das palavras. Entre a sinfônica e o quarteto de cordas, o violoncelo. Entre o céu chapado de azul e a abóboda enfeitada de cúmulos e nimbos, as nuvens caminhantes. Parece parado, mas sua vida é um andar sem fim e sem destino. Pleno de propósito.
agosto de 2012
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
VAI E VEM
A casa é mãe; a rua é pai.
A casa é piso; a rua, medo.
A casa é voz; a rua, grito.
A casa é terra; a rua, pedra.
A casa é fogo; a rua, lenha.
A casa é farta; a rua, caça.
A casa é farinha; a rua, pirão.
A casa é o mesmo; a rua, vária.
A casa é crença; a rua, dúvida.
A casa é piscina; a rua, enxurrada.
A casa é alma; a rua, corpo.
A casa é osso; a rua, carne.
A casa é fiança; a rua, crédito.
A casa é vadia; a rua, escravidão.
A casa é silêncio; a rua, celeuma.
A casa é sã; a rua, enferma.
A casa é sombra; a rua, incêndio.
A casa é céu: a rua, nuvem.
A casa é cama; a rua, sono.
A casa é água; a rua, sede.
A casa é mansa; a rua, faca.
A casa sou eu; a rua, outro.
Dorme a casa; a rua vaga.
A casa é ponto; a rua, vírgula.
A casa é quase sempre; a rua, nem sempre.
Mas, um dia, em vigília, eu soube um segredo:
Enquanto a casa vaga, a rua dorme.
E a família ferve.