quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

ARMAÇÃO



Advertência: estando ali, observe o movimento febril das correntes marítimas. Ao pisar, sinta o fofo perigoso da areia fervente e, resolvendo avançar em direção ao mar, não se deixe enganar por um duro piso de grãos molhados pelas ondas insistentes.

Não deixe que as águas tépidas o encharquem muito acima dos joelhos, mormente se o mar estiver em vazante, quando o voltear alucinado das correntes escava inesperados vazios sob seus pés.

Não se deixe envolver pelo mar em consagração. Restrinja-se a contemplar, a distância, os distintos matizes do azul. Ou do verde,quando for a sua vez.Não olhe pra trás, deixe a horrenda cidade modernizada e seus carros pra lá.

Deixe sua valentia para outros embates. Ali, você tem tudo a perder. E só ganha em encantar-se.



antônio rebouças falcão - salvador, janeiro de 2013

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

UM COMENTÁRIO PASSAGEIRO




Em 2011, o Sr. Fernando Henrique Cardoso aparece em livro-entrevista, falando de si, do Brasil, do Mundo e das coisas [A Soma e o Resto, em depoimento a Miguel Darcy. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro]. Belo título.




Nesse meio de janeiro, 2013, o tenho nas mãos e nas férias baianas. Na página 89, me deparo com esta platitude: "É difícil se libertar do peso das ideias antigas... No mundo real, as práticas mudam, mas o discurso tem dificuldade de acompanhar a mudança. Fica defasado." Por certo, resíduo de sua prática docente. Dá o que pensar e o que descontar - é palavra em fala. A gana de comentar me move, tendo em vista que, ali, esse pensamento é amiúde glosado. Assim...



As ideias antigas (ou seu peso) não existem para que delas nos libertemos, mas para que as “relativizemos”. Elas devem nos seguir abraçadas sob a vigilância da dúvida (estão sempre seguindo). No correr do tempo, pedem divórcio ou perdão. Desfazermo-nos delas (ou de seu peso)? Nunca. Nós fomos e as somos - é nosso precário edifício. Soma portanto. E resto, as que não mais nos expressam nem dão conta do que imaginamos ser o mundo real. O discurso não é algo apartado da prática, ele é, em si, uma prática. Continuamos a ser aquela criança que subia na goiabeira, árvore cuja complexidade foi sucedida pelo discurso.



Todas as ideias surgem antigas ao "nascer". Verbalizadas, se fixam às palavras por óbvio, que pré-existem no emaranhado sintático de nosso pensamento. Antigas, portanto, são como um saguão que antecede os degraus que nos levarão a outro e desconhecido pavimento. Este, saguão de outro, e assim por diante, até não mais sabermos de onde partimos e aonde chegamos por inércia de sempre estarmos a pensar com palavras. Ideias, quando abandonadas em razão de não mais servirem como explicação de um mundo que se apresenta estranho, tornam-se um perigo para quem segue em frente, ou pensa estar seguindo. É andar sem patamares, pensando estar em comodidade. Pensar, de fato, não é confortável. É um nunca ajeitar-se, por isso a pessoa doutrinária é petrificada.



Talvez a característica de nosso tempo não seja propriamente a mudança, mas sua velocidade grande e maquinada. A impressão de desconhecermos para que direção, como pensa FHC, equivale a dizer que essa mudança não tem direção. Como a dizermos que se produzem cegamente dinheiro e objetos que entopem prateleiras e nossa casa. E muita ansiedade para adquiri-los e usá-los freneticamente. Nem bem sabemos pra quê. De outro modo, nos negarmos a embarcar nessa torrente, a deliberada atitude de pormo-nos na contramão, à margem, e, para aqueles que querem mas não podem, a sensação de “ficarem pra trás” e a angústia daí decorrente . Solidão de uns e escravidão de outros. O homem contemporâneo é, por condição, um animal infeliz a afogar-se em dívidas e a produzir montanhas de lixo, exposto a toda forma de auto-ilusão. Um imperfeito idiota. Não sento nessa mesa ou, pelo menos, busco não sentar. Prefiro ser “antiquado”. Quem sabe, em vão.



Desde sempre, as práticas mudam, o pensamento muda, nós mudamos e a expressão verbal por suposto e condição. A defasagem é do jogo, e é o motor que faz girar a beleza e grandeza da linguagem - a que nos faz homens. Nós somos objetos de sua "invenção". E, sujeitos. "É do pirão!". Estar aí no mundo supõe depararmo-nos com sustos sucessivos.



O Sr. Fernando Henrique Cardoso não precisava dizer o que disse. Ele sabe, é inteligente o bastante. É que a fala - ainda bem - é desobediente. Como as crianças quando se verbalizam. Quando nos damos conta, é tarde, já foi, escapou. Por isso, a palavra escrita, antes bem pesada, a que vem depois. O peso das ideias antigas decorre de sua repetição e, sobretudo, de seu registro escrito. Fala e escrita, uma corre atrás da outra; tentando se encontrar, nunca se cansam de escapar em dança de recíproca exclusão, nas torrentes dos livres pensar e expressar. Sócrates falava, Platão, depois, escreveu – uma maneira de atualizar o antigo na consciência dos leitores, na linha do tempo. Desconfiava-se da escrita. O que também não deixa de ser outro truísmo e uma glosa. É meu. Coisa de gente que fala sozinha.



Claudicantes, vivemos entre o sapato velho – deformado e de sola furada – e o, novo que aperta e mal se ajusta. O chão é indiferente, nos ignora. Condenados a caminhar sem descanso, na procura de incerto endereço, patinamos no escuro, pelos séculos.





Antônio Rebouças Falcão - Salvador, 12 de janeiro de 2013

GREGARISMO SEBOSO E PEGAJOSO




A chamada "sociedade de massas", nascida com a industrialização em larga escala (máquinas, equipamentos, alimentos, vestimentas, meios de comunicação, bens culturais etc.) trouxe de forma acachapante, para os indivíduos urbanizados, a necessidade doentia de pertencimento: movimentos com a vocação de produzir manadas específicas (mas sempre manadas) que se fazem ondas avassaladoras em busca de adesões: neo-pentecostais, "carismáticos", esotéricos, "naturebas", "orgânicos", adeptos de "qualidade de vida", leitores de auto-ajuda, eco-turistas, ambientalistas doutrinários, ciclistas militantes, pastores do anti-tabagismo, ativistas de sofá, missionários de qualquer fuça, cachorristas, maratonistas, "chefs" domingueiros, churrasquistas, glts de passeata, torcidas organizadas, baladeiros, blogueiros, centrais telefônicas ambulantes (usuários de celulares e assemelhados), indignados, motoqueiros tribais, Zés-gasolina, e muitos mais. Ufa!



Como corolário, o culto às celebridades de variada estirpe, que são os destacados em cada grupo de bovinos humanóides - espécie de touros ou vacas de leilão. Adeptos do espalhafato e inimigos da elegante discrição. A internet e as redes sociais são o "canal", a sopa no mel, fizeram o estrago. Lançam confetes e serpentinas de slogans, clichês (a precária verbalização adquirida a custa de pouco suor e pouca leitura). E tudo se espalha como uma pandemia. O mundo aí fora se torna opressivo, sufocante, ruidoso e estridente pela quantificação desvairada. Nada é qualificado, mas tudo é medido - %. As estatísticas tornam-se a explicação única em todas as áreas do saber.



A paisagem humana se torna indistinta. A polenta gigante da reprodutibilidade e da conectividade compulsivas é totalitária. A barbárie, através da força bruta, se instala insidiosamente. A palavra foi perdida nos bueiros das ruas congestionadas. Difícil escapar, entretanto, é possível num simples e esquecido "cada um a seu modo". Como uma idéia banal logo é plasmada em doutrina, gera pregadores e missionários, uma manada e um negócio de bilhões. Distanciar-se dessa praga global já atira algumas pessoas à condição de "suspeitos", "perigosos" e, claro, "doentes".



Não é bem o caso de ser "diferente" por capricho - há também a manada dos "diferentes" a qualquer custo - mas de não aderir, ficar à margem para observar e refletir, desligar as “maquininhas”. E arcar com as dificuldades de tal escolha; apesar dela, pensar dá prazer (para alguns poucos). Algo antigo: "pensar com a própria cabeça", "pode ir que eu não vou", duvidar e desconfiar sempre. Acarreta alguma parcela de sofrimento? Sim. Mas que outro jeito há?! É da ordem natural das coisas viventes. Toda adesão oferecida é perigosa.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

SEU JOSIAS (1924-2012) - UM OBITUÁRIO


Naquela casa com amplo quintal e farto pomar, um dia, percebeu que a raiz de quaisquer de suas poucas amarguras era o desejo, cujas bordas não perdia de vista: a insaciabilidade e a frustração - sua biruta particular.

Perseguia eliminar o desejo e só se deixava acompanhar pela restrita conveniência, pelo silêncio sábio da sombra e do sossego, e por um cigarro e uma cachacinha.

E os prazeres – “a glória de viver”? Apenas aqueles que já estavam a seu alcance, melhor ainda, aqueles que sempre estiveram e, até então, não via. Uma revelação tardia. Por exemplo, ver a pinha madura que se decompunha no prato. Ali, com a gostosa preguiça de não parti-la. “Sublime!”, dizia com seus olhos brilhantes.

Deixava pacientemente que, por baixo da porta e pelas frestas das janelas, entrasse única a falência das carnes, na companhia da luz natural que o guiava até seu sono incógnito. Detestava relógios e cortinas. Como em todas aquelas suas últimas manhãs e ao correr da vida, ele sabia que a morte é permanente e corriqueira. E pontuava sobre ela: "Esta que sabe seu momento; para nós, a qualquer hora - nunca saberemos. Se sempre a cercamos de solenidade, é porque nos envenena o tempo". Em tom bastante grave, é bom que se diga.

E não estava nem aí. Deixa muitas saudades e rara sabedoria. “Seu Josias, o sabiá [Quinho] ainda canta em todas as suas auroras” – palavras de Dona Noêmia, sua zelosa vizinha de todas as horas. Seus muitos amigos estão todos em paz, para alegria desse sublime jardineiro.



Antonio Rebouças Falcão - Salvador, 8 de janeiro de 2013

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Minhas 10 Implicâncias da Hora

1. O apedeuta usuário, em tempo integral, de celulares (tem vários); provedor de cachorrinhos peludos; eco-ciclista contraventor (anda nas calçadas); compulsivo por conectividade em tempo integral e apêndices eletrônicos de toda espécie.

2. O tipo que não bebe, mas "aprecia"; não come, "degusta"; não transa, "faz amor" e assim por diante.

3. O tipo que, não satisfeito em ser religioso, quer, a todo custo, nos convencer de seu credo para que pertençamos a sua tribo.

4. Aquele que passa a vida procurando, em qualquer buraquinho, "qualidade de vida", "autoestima" e toda porcaria "orgânica".

5. O barulhento agitado que, em razão de gargalhar, gritar, não parar de falar, estar sempre agarrado a alguém e sempre em grupo, se julga o mais "FELIZ" dos seres.

6. Aquele que milita por uma "causa". Qualquer "causa".

7. O que chama a mulher (ou o homem) de "benzinho", "fofinho", "amorzinho" e por aí vai.

8. Todo moderninho natureba, esotérico e que diz já ter visto discos voadores no céu. E chatos assemelhados. Coisa mais cansativa.

9. Toda dupla de música "sertaneja". A estampa do horror.

10. Em suma, todos esses em que nada os distingue da manada e demais bovinos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

QUESTÕES DE CARÁTER


1. A água - a única e exclusivamente constituída de H20 - é água. As outras, são brasileiras.

2. Repare: aquele que corre o faz sem olhar para o céu; poucas vezes para frente ou lados. Seu horizonte é o chão. Concentra-se em si, no ritmo respiratório, na velocidade das passadas. Espaço por quantidade de tempo e vice-versa. Sua vida é uma soma de anos; quanto mais, melhor, por isso instrumentaliza o corpo. Corre como investimento.

Aquele que anda o faz olhando para onde bem quiser, ao sabor dos ventos ocasionais, que seus passos acontecem quase sem nenhum esforço; sua respiração se dá de forma natural. Ele está disponível para o devir da existência, aberto para o mundo, atento ao que o cerca, rente à vida, mergulhado nela.

Para o primeiro, o corpo é operacional; para o segundo, ele e corpo são unidade indivisível, e a vida um insondável "milagre", de durabilidade indefinida.

3. O mesmo do mesmo: as autoridades brasileiras preferem criar dificuldades a facilidades, para todos. Sempre. Sua idéia de democracia madura é povo em filas intermináveis (reais ou virtuais). Dizem-se gestores modernos - cínicos, são geridos por interesses alheios e dos grandes. Nem conhecem o que dizem gerir. São malévolos usurpando o que não lhes pertence. Que "queimem nos infernos". Axé!

4. Comentário: nenhum. Não tenho mais “saco”, como qualquer brasileiro de sapato furado. O que não deixa de ser um paradoxo.

sábado, 10 de novembro de 2012

FILOSOFIAZINHA


Todos saberemos, um dia, o quão tolos fomos hoje.

Todos saberemos, um dia, que se, hoje, não sabemos quem somos, nunca saberemos.

Todos saberemos, um dia, que nunca importa o que pensam de nós. Idiotas que somos todos nós.

Todos saberemos, um dia, que pouco importa ignorar nossa origem e fim, a ignorância é de todos.

Todos saberemos, um dia, que crer ou descrer são bobagens. Como ser ou não ser.

Todos saberemos, um dia, que o que valeu a pena ali, não valeu acolá, assim ...

Todos saberemos, um dia, que nossas firmes convicções atuais não passavam de nuvens esquecidas pelo vento.

Todos saberemos, um dia, que nossas esperanças foram tragadas pelo tempo e que este, sim, nos torna o mais banal entre banais.

Todos saberemos, um dia, que ter esperado tanto foi nossa sina, numa estação vazia, despida de ferrovia.

Num dia qualquer - isso sabemos desde sempre - estaremos todos mortos. Assim, é de bom alvitre descontrair.

novembro de 2012