terça-feira, 23 de julho de 2013

SAUDADES DE SALVADOR




A cidade nem me surpreende tanto em sua fisionomia degradada, como se estivesse num processo inexorável de queda.

Sobre o que se pisa (ou não, porque se pula), ruas e calçadas, buracos, poças permanentes, bueiros entupidos, veículos expulsando pedestres. O que se vê no alto são paredões que ocultam o sol, o céu, as nuvens. Edifícios “mudernos” e medonhos. A praga dos helicópteros ruidosos se anuncia insidiosa.

O que, de lata, se move é estapafúrdio. Para um visitante desavisado, a cidade é paradoxalmente dinâmica e próspera. Os automóveis, quase todos novos, não andam, afogados em engarrafamentos. A imagem é monótona: quase todos pratas, pretos e brancos. Há os poucos vermelhos, signo mundial de esportividade e juventude. Mas é um cenário nacional, que vivemos em tempo de manadas. Os condutores seguem atolados em dívidas e maquininhas.

Existem os humanos e os quase-humanos, progênitos da escravidão, amontoados nos pontos de ônibus (ou quase-ônibus, caindo aos pedaços). Vestem-se de modo andrajoso e você não sabe se é moda ou pobreza mesmo, os segmentos sociais se vestem do mesmo jeito, mudam apenas as etiquetas, verdadeiras ou falsas: tênis, chinelos, bermudas, camisetas e bonés (traje masculino); shortinhos, saltos e blusinhas sumárias (traje feminino)– ah, e as indefectíveis mochilas, porque são todos mateiros ou guerrilheiros (estampa de camuflagem). Bem, os penteados... Nenhum comentário a fazer.

Cenário humano arrematado por celulares nas mãos e fiozinhos de toda espécie. Ninguém olha pra nada ou ninguém. Formam a maioria dos sem-passeatas que não saem das ruas. Ah, há os cachorrinhos e suas bostinhas que colhem nossas distraídas solas. E os baianos parecem felizes e bovinamente resignados a uma cidade que não funciona mais para nenhum deles.

Apesar de tudo, a contrapelo da crônica impura, faço constar: o povo baiano, em geral, na urbanidade pedestre, é muito simpático. Penso no povo da rua, não, na classinha mediazinha com suas ostentações vulgares. Aquele ali que vende sua pimenta e sua rama de coentro sob o sol da manhã e, depois, toma sua cachaçazinha no “balcão do desespero”.

Entretanto, como Salvador tornou-se uma cidade complexa, a população, por seu atavismo, convive mal com as implicações daí decorrentes: as relações contratuais, as regras banais, os pactos civis de convivência urbana são claudicantes. Não existe eficiência nos serviços, todos ruins e lentos. Saí de uma farmácia para chorar na rua, literalmente. A mocinha do caixa não sabia fazer uma conta de somar. Uma série de governos baianos foi incapaz sequer de fazer uma linha de metrô. Contabilidade podre, licitações com o câncer de sempre. E ninguém, ninguém mesmo toca na seca do sertão, que segue destruindo o que, sob o sol, fica de frente. Salvador dá as costas para o raso do resto.

A classe média, pela estampa jovem, dirige bêbada, são boçais com os pedestres. O uniforme corpóreo é a estiva de butique. Da simpatia à arrogância, basta um motor e um volante. Doença nacional. Todos cantam e dançam a qualquer oportunidade, é a impressão que passa. Os incomodados que se virem. Uma farra permanente sobre os escombros de uma sociedade esgarçada, que não para de estrudar. É como abafar timbalada com Tom Jobim, numa guerra de decibéis. Uma sombra escura que desce da Brasília nefasta.

Sua privacidade, seu sossego de fim de semana, tudo é invadido por uma festa estridente e constante. Não há respeito cordial, não há delicadeza. Tudo é meio bruto.

Infeliz e rezingão sou eu. Nenhuma cidade grande me apraz. Acho que as saudades são de minha pequena e amontoada casa paulistana. Ali não há gente de maus modos. Não há gentes, com exceção de minha diabólica presença. Infelizmente, há espelho. É incontornável suportar minha precária humanidade. Sinto saudades de quê? Já nem sei mais. Acho que de meus livros, de meu escuro e silêncio.



Salvador – julho de 2013



O ESCÁRNIO FINAL
 (em chave escalafobética)

ROSÊ – Clínica de Internação Sem Fim.

ENDEREÇO: não temo endereços fixo. Coisa superada pelas comunidade virtuais. Não temos proprietário(as) nem CNPJ, coisas burguesa. Quem se aventurar, procura na esquina da Rua Ontem, s/n com a Praça Hoje, com acesso pelas alameda do Futuro, da Paz, Qualidade de Vida e Auto-estima. No Egito, na Tunísia, em Madrid, Atenas ou Nova Iorque.
Atendimento: a qualquer hora do dia ou da noite; em domicílio, sem horas marcada ou aviso préviu.
Alimentações Equilibrada: é um processo em discussões em processo. Pensamo, para os vandalu, em tofus, canola e sushis fartos, sem limite de consumo. Para os vegano(a), calango orgânico, salame, churrasco, sarapatel e galinha ao molho pardo. Para os outro comum, arroz, feijão e farinha com Fanta Uva. Temo nutricionistas(os) antenado(a).
Comunicação: oferecemo um smartphones  para cada internado(a), sem limite de conectividade patológica.
Regras de conduta: qualquer tentativa de quebra das norma, o meliante será cuidado por nosso programa de reeducação. Para isso, dispomo de inúmeros agente em postos-chave da cidade: igrejas, mesquitas, templos, terreiros, restaurantes de comida orgânica, bicicletários e passeios coletivo de oração e meditação.
Políticas Públicas: atentos(as) as iniciativa de inclusão, nossos internado(a) realizam, nos horário de pico, passeios pelos trem, metrô e ônibus. Catraca livre. Também frequenta as animadas festa das torcidas organizada.
Punições sem preconceito e violências: cela mantidas superlotada de militantes político ou minorias oprimida (em preparação de passeata – pra isso agente liberamo). Os internado são obrigado a ouvir, por um dia corridos, discursos do Lula e da Dilma com fundo musical de Michel Teló, que é cantado pelas tropa de choque da PM – “Ai se eu te pego”. As cela são climatizada: 35º Celsius, umidade relativa do ar 98%, 120 decibéis de som-ambiente – é pra manter o fervor participativo aceso. Tudo com supervisão do PCC.
Indumentárias de uso obrigatórios: tênis (chinelo também pode), bermuda, camiseta, mochila para roupas íntima, barra de cereais orgânico, GPS, essas coisa e boné vermelho. Toleramo máscara. Pra dias mais frio, moleton com capuz – qualquer cor.
Leituras matinal: Marcelo Rossi, Che Guevara, Paulo Coelho, Gabriel Chalita, Fábio Melo, C. Baxter Kruger PHD., Augusto Cury, Dalai Lama e muitos outro.
Audição dasaurora: ordem unida e Hino Nacional integral com vigilância de leitura labial.
Visitas dominical: católicos(as) carismático(a), aiatolás, mulahs, xamã, mago(a), vampiro(a), feiticeiro(a) genérico(a), pai (mãe também) de santo, evangélicos(as), líderes partidário, padres (freiras também)canoro, gurus ioga e picaretas oriental em geral.
Especial de Natal: cantos e hinos em versão funk, hap, sertanejo, pagode, forró universitário. Em latim, para fanáticos(as) excluído(a). Bem povão mesmo.
Choque de realidades: visitas mensais ao Instituto Médico Legal e presença em tiroteios de favela ou periferia.
Descriminação: após exaustiva pesquisas ouvindo o clamor das rua e estrada, resolvemo impedir as frequência das zelite e tiozinho(a). Por humanidade, reservamo um salão para músicas de Mozart, Vila-Lobos, Djavan, Altemar Dutra, Roberto Carlos, Fafá de Belém e outros da boa idade (vivos ou mortos), palestras de Paulo Maluf, José Dirceu, Renan Calheiros e José Sarney – tudo em telão dos grande e 3D. Nossa comunidades é singela, formada somente de jovens universitário(a). Preparamo o internado(a) de hoje para os(as) manifestante de amanhã.


NOSSO LEMA: SÓ AS SOMA DAS MINORIA OPRIMIDA FORMA AS MAIORIA DE ESCOL. Contamos com os caloroso apoios dos vandalu, moradores de rua, homosafetivo (as), cross-dress, pastores(as) evangélico(a), veganu, Congresso Nacional e os PPP (preto(a), pobre e prostituta(o). Índio(a), brancos(as), amarelo(a). Todos umanu e oprimidos(as) explorado(a). Como já dizia o Barão de Itararé, “Conosco ninguém podemos”. Pegue essa onda, venha pra rua você também: o Brasil acordou!

quarta-feira, 10 de julho de 2013


POLÍTICA

 

Enquanto, sob a proteção e sabedoria do suíno mestre, a rubra leitoa está a assar em fogo brando, a estrela furta-cor a tudo observa – sem nada entender - com as mãos nos bolsos. Os nossos bolsos.

 Sobre isso, nunca houve dúvida: nosso risonho futuro continua pleno de promessas, porque, afinal, demora a chegar. É futuro, estúpido!

 Avante, manada! “Vai pra Caixa você também!” As lojas não esperam, cobram. Em 2014, acreditem, haverá carvão para todos.

AMENIDADES NA BAHIA

            As primeiras impressões, ao conhecer pessoas, se avizinham daquele pano no varal. Depois de torcido, logo esticado e estendido, deixa, ainda aos olhos, rugas e dobras. À medida que seca, se estira e alisa. As impressões iniciais equivalem aos relevos que se aplainam com o tempo. Incertas em seus preâmbulos, confusas e contraditórias, acabam por repousar em juízos mais ou menos provisórios.

 Passado a ferro quente, é como as sentenças definitivas que frequentam as separações litigiosas. Os impressionados e impressionáveis dançam valsas de enganos e desenganos, até se aquietarem em discórdias e confortos.

 É de bom alvitre acautelar-se e observar com cuidado, sem exagero, para que, pouco a pouco, o molho da simpatia e sedução engrosse e chegue ao ponto excelso. Dizem assim os partidários do bom senso, como também, que ódios e ressentimentos fiquem para depois, com datas incertas. E desapareçam em brevidade como recomendam também os serenos de olhar felino e horizontes insondáveis.

 Mas os descabelados têm sua vez. Para maus entendedores, maus exemplos são eloqüentes:

 No meio da festa familiar, os dois pais, conhecidos amistosos, conversam aos gritos, analisando o cenário feminino, ruidoso e juvenil, ao som da suave percussão que enlouquece os vizinhos, balança os quadros, treme o lustre e ferve os quadris:

 - E aí? O que achou daquela debutante ali?
 - Não gostei. Parece uma puta.
 - Nossa! Por quê?!
 - É o “jeitão” dela.
 - E o que tem ele?
 - Olhe a roupa: salto agulha 17, “shortinho” cavado, colante, vermelho, “top” de tule transparente, tomara-que-caia, não usa sutiã, cabelos azuis de corte moicano, brincos de alta tonelagem, maquiagem carregada, batom encarnado, cigarro com piteira “pinke”, o copo de vodka e aquela bolsinha...
- Ora, Oscar! Quem olha pra você, não vê um cafajeste.
- Como assim? Que tenho eu?
- Estampa de cavalheiro moderninho: mocassim italiano de pelica, calças brancas de cambraia, bata bordada, azul celeste, bem barbeado, unhas e cabelos tratados, rabinho de cavalo, colar da mística indiana, modos suaves, um verdadeiro guru do bem. E aí, escondidinho, um tarado! Pois fique sabendo: aquela debutante ali, a que parece puta, é minha filha, tem apenas quinze aninhos, está só feliz, brincando. Você não tem noção!
- ...! Já se levantando.
É... nada visível, redondo e circular é redondo.

A. R. Falcão – julho de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013


CONGESTIONAMENTO

Nesses dias, as pessoas são perguntadas, a toda hora, sobre o que pensam das manifestações protestantes e de fúria que ocorrem por todo o país. Não escapei dessas indagações, até porque brasileiros e estrangeiros estão meio desnorteados e trocar palavras pode ajudar ou criar desentendimentos. Falar não custa nada; às vezes só aborrece e entedia.

Faço uma analogia que pode ou não ser feliz: ir para as ruas e protestar, como o fazem, é como buzinar em engarrafamentos. As buzinas são as manifestações propriamente ditas; os engarrafamentos são a vida sofrida das pessoas, vitimadas pelas sucessivas farsas e fraudes que os poderes públicos cometem todo dia em conluio com poderosos setores privados.

As buzinas avisam, aos berros, que algo está errado, que as coisas não podem continuar como estão, mas não fazem o trânsito andar. Ferem os tímpanos de quem é apenas pedestre ou está por perto, tal como é incomodada a maioria da população dos grandes centros urbanos que quer voltar pra casa, ir para o trabalho ou locomover-se por qualquer motivo.  Assim é que essas manifestações horizontais com “infinitas” e vagas reivindicações, por si, não levarão a lugar nenhum sem que sejam acompanhadas de propostas claras e exequíveis. E devem ser cobradas sem tréguas.

Os vândalos e ladrões das manifestações são os mesmos que assaltam motoristas nos congestionamentos de rotina e realizam arrastões criminosos. Apenas se aproveitam. A polícia repressiva é o braço violento do poder público safado e despreparado que temos, de ponta a ponta. Em suma, a analogia é essa. A continuarem, dia sim e dia não também, as buzinas vão cansar, frustrar e podem levar a pântanos escuros forrados de crocodilos.

A.   R. Falcão - junho de 2013

DEU NO QUE DEU

 

 Causa-me enfado alguém enunciar “A vida é feita de escolhas”. O hominídeo se infla de gazes superiores e bate, sobre a mesa, a sentença incontornável. Em mim, pelo clichê, um espasmo; pelo vago da assertiva, o tédio; pela convicção roubada, o riso de bolso.

 

A palavra escolha é gramaticalmente muito transitiva. Pede complemento nominal. Não pode se pendurar no abismo à mercê do vácuo de sentido. Escolha é “escolha de”, “escolha para”, “escolha como” e por aí afora. Há de se mencionar o que é aberto semanticamente a partir das preposições espertas. Se assim não for, a voragem.

 

Depois, elas (as escolhas) podem ser desenhadas nas pranchetas volitivas da racionalidade bem-pensante – o símio equilibrado. Não conheço. Mas desenham-se também nas contingências perigosas e envolventes. A decisão em súbito. Quando é que se acerta nela? Quem pode responder antecipadamente, antes mesmo que o horizonte se configure como consequências que se desdobram em direção ao infinito?  

 

Não há, portanto, culpa pelos erros. Nem indulto. Essas mazelas cristãs que sufocam o homem. Há responsabilidades, passos que se refazem por caminhos múltiplos ou andanças no escuro da existência. E são tantos. Há sucessivas e imprevisíveis escolhas frente ao cesto dos destinos. O livre-arbítrio tornado relativo, em suspensão, até o cansaço que adormece e aguarda em outra bobagem que se chama “bom senso” - a fuga das arestas inevitáveis num labirinto sempre agressivo.

 

Se existisse apenas um “Eu” absoluto, livre do “Nós” complicador, viver seria feito de escolhas intransitivas. Fica o repouso inquietante sob o silêncio das estrelas no céu infinito. Porque sonhamos é que dormir abraçados ao travesseiro do esquecimento é sempre a melhor escolha. É o que vou fazer: dormir sob o peso dos sonhos. Que as memórias trabalhem por mim. Quero preguiça com fortes emoções.

 
A. R. Falcão – junho de 2013

A MENINA DA SACOLA

A Helena na festa de São João e eu no caixa

O que tem na sacola?

Ela tem borboletas.

Dentro ou fora, menina?

Claro que fora; dentro, morrem.

E dentro? O que tem na sacola?

Dentro? Tem um céu e tico-ticos.

Mas eles não morrem?

Não, claro. Tem o céu.

E como você prendeu o céu, menina?

Antes do amanhecer, com um canudinho.

Hum, menina... E os tico-ticos?

E os tico-ticos? Tentei com ar.

Só o ar?!

Não, o azul também.

E o que mais?

O fubá, senhor curioso, o fubá.

E o que mais?

Eu.

Eu?! Como, menina?

Com o lado de fora, o ar, o céu, as borboletas, o azul

E eu comigo. Sou assim assada, senhor.

Por dentro, por fora;

Deixa ver, mais:

Por favor, um bolinho de fubá. Quanto é?

Antônio Rebouças Falcão – junho de 2013