segunda-feira, 7 de outubro de 2013


SINAL

Há sempre a água

E o branco,

Nossa miserável condição.

E o negro para nunca esquecer.

EM REPOUSO

A mão está onde sempre esteve:

Nos bolsos vazios.

O lenço se despede

Das mesmas paisagens.

As águas adormecem ao relento,

O homem pensa em vão.

E a página teima em branco.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013


SUBMISSÃO

 

Retirada da inércia de seu repouso,

A agulha tomada

Se deixava atravessar pela

Linha agora aguda.

Enlaçadas seguiam um destino

Antes ignorado

Que, pouco a pouco, seria conhecido

E aceito.

Só a agulha hermafrodita

Retornaria à solidão

Em sua caixa escura.

A linha viveria então

Presa à planície do tecido,

Que habitaria a vida

E, um dia, a morte certa.

 

A. R. Falcão – agosto de 2013

ROMANCE

 

Um vagabundo por opção,

Pobre assim-assim,

De camisa branca.

De sua mão,

A infância,

A palma escura,

A limpa flor do chá.

Naquele dia me disse: Não!

Portanto me levantei,

Larguei o pão, o pé, aquela mão.

Caí.

Na água do rio, na noite de meu ventre.

Nas nuvens, nua e só.

Em sonhos, nos seus braços,

Dormia

Minhas últimas esperanças.

Em vão.

Porque ele insistia: Não!

A. R. Falcão – agosto de 2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

MIGALHAS, CISCOS E PÓ

Nessa madrugada, a solidão do galo cujos cantos não receberam respostas.
O descaminho da formiguinha que se perdeu da linha viva de suas parceiras.
Os destinos da lima e da banana que, recusadas, vão apodrecer únicas nos cantos das gôndolas.
O endereço do dente de leite que se perdeu nos ínfimos recônditos do chão.
A carta de amor nunca enviada que a mocinha esqueceu no ponto de ônibus.
O lençol branco com monogramas exclusivos, no quarto reservado pelos nubentes que despencaram  do céu na noite de ontem.
O falso documento de identidade de um tal Josias dos Santos, esquecido no banco da praça.
A última palavra escrita com aquela caneta, atirada ao piso da avenida central.
O passageiro que desapareceu no aeroporto, sem ter nunca chegado ou partido.
Um quarto de dicionário que retinha a atenção do mendigo à sombra do oiti.
O telefonema que, nesse instante, me recusei a atender.


SALVADOR – JULHO DE 2013

quarta-feira, 24 de julho de 2013

POR UM PIO

Dê ré a si.
Por um,
Um só.
Vá! Já!
Tal cá e lá,
É luz, é sol.
Se foi um, dois e três,
Lá, é dez! É mil!
De pé, a pé, no chão.
Se deu mar e céu,
Lá, dá mel e mais.
Lá, não mói os ais.
Se não vê nem tem
Dor ou dó,
Diz não.
Faz jus e vai.
Lá, a mó é vã.
Só cá não é.
Lá, as mãos são mãe.
Só cá não é. 
Vai!

Salvador – julho de 2013

terça-feira, 23 de julho de 2013

PREPOSIÇÕES


...numa espécie de limiar, entre a necessidade da escrita e a inutilidade da leitura. A forma mais expressiva da solidão em arte.

Sobre quais escombros edificarei meus traços e alinhavarei os fios de meus novelos incertos?

Contra quais muros surrarei as mãos em bacias de sangue retórico?

De cada noite reiniciada tomarei, às cegas, o travesseiro que me deixará mentir cada grão dos mingaus matinais.

Para a mesma direção, o caminho difuso que me trará de volta ao silêncio dos medos.

Aos lábios mordidos retribuirei com o frêmito da inutilidade dos dedos.

Por teimosia, me apaziguarei nos cinco cantos de meu quarto,

Para reagrupar os membros despedaçados e seguir em frente,

Num mover-se para sempre imóvel.

Salvador – julho de 2013