sexta-feira, 4 de julho de 2014
QUE PASSE O DIA
Maré no chão:
A garça magistral
Contorna o grande canal
Afogado em porcarias.
Calangões e calanguinhos
Fujões e rapideiros.
Borboletas e libélulas
Sobre a latrina líquida.
Mais além, um mar,
O único que, sob o céu
Voraz, se azula.
Passarinhos que o nome
Nem conhecem
E homens nas sombras das castanheiras
Cujos nomes nem se sabem.
Somente um
Insiste,
Frito no óleo de si,
Numa vaga ideia
Das férias que lhe escapam.
A manhã que o assombra em despedida.
Bem-te-vis, pardais, rolinhas
E a puta que pariu.
PÓ
Se, no início do século passado, a cultura do corpo significou a libertação do moralismo e repressão burgueses, agora as academias de ginásticas, as clínicas de cirurgias plásticas ... servem à frivolidade e à força bruta. Que tempo ruim, meu pó!
Não se engane: o que chamam de Saúde é Doença.
Junte-se aos outros e corra muito, muito (dentro da manada e do pertencimento) até moer suas fatigadas articulações. Argh!!
quarta-feira, 25 de junho de 2014
A INFÂNCIA E A MATURIDADE
NA PAZ
Um halo na Lua?!
Assim mesmo fosse.
Uma cãibra, um golpe de vento?!
Que "sesse".
Ali, na luta,
Dormia com bravura;
Que lá,
O que viesse
Acabava, em seus sonhos,
Como um tico-tico
No penico.
DESTINO
Assim mesmo for,
Nem jeito houver,
Lute com arrojo,
Que, lá,
O que for
Irremediavelmente será;
Será,
em suas mãos,
Um reles camundongo.
Acredite, ao menos,
Por um instante.
Será a vida, num repouso,
Em seu ventre vesgo.
NA PAZ
Um halo na Lua?!
Assim mesmo fosse.
Uma cãibra, um golpe de vento?!
Que "sesse".
Ali, na luta,
Dormia com bravura;
Que lá,
O que viesse
Acabava, em seus sonhos,
Como um tico-tico
No penico.
DESTINO
Assim mesmo for,
Nem jeito houver,
Lute com arrojo,
Que, lá,
O que for
Irremediavelmente será;
Será,
em suas mãos,
Um reles camundongo.
Acredite, ao menos,
Por um instante.
Será a vida, num repouso,
Em seu ventre vesgo.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
TORNEIRA PINGANDO
Salvar
o quê?!
O que
é uma coisa lamentável
Entre
tantas outras?
O que
é um segredo entre tantos
Ciúmes
que uma maçaneta guarda?
A
janela que abre
E a
janela que fecha na cara
De seu
binóculo.
A
carta. O carteiro e a humanidade.
Melhor
acordar sobre o pão de hoje,
O café
E a
miséria de suas mãos
Que
acenam para um ônibus
Que o
velará, se levar
Para o
abraço de seu salário.
Durma.
Guarde o revólver e a dor.
O amor
não.
(As
almas fazem festas sem o convidar)
Porque
o amor ouve o jasmim crescer
E vê a lua trocar a lâmpada.
Advertência
Numa praia,
Um dia,
Uma pedra lavada e solene me confiou:
“Ouça com atenção
O rumor dessas sucessivas ondas.
Elas estão a lhes dizer
Que só a Arte salva,
Redime.
O resto é erro, desastre,
É ruína.
Nem a ínfima formiga
Estenderá o bracinho
Para os resgatar
Do mar amuado
Que os engolirá.
Sobrará apenas o silêncio eterno
Sobre todos os seus desatinos.
Agora, vá dormir e sonhar em outro lugar”.
terça-feira, 20 de maio de 2014
- O que essas mulheres tão velhas estão fazendo
aí?
Numa ensolarada manhã de sábado, bebia uma
cerveja em espaço aberto, só, em frente ao Parque da Água Branca. Por perto,
estavam três rapazes. Comprazia-me em apreciar as árvores do outro lado. Do
lado de cá, mulheres garis faziam seu trabalho, enfiadas em seus uniformes.
Eram velhas senhoras, o que me surpreendeu inicialmente, para instantes depois,
revoltar-me e comover-me ao mesmo tempo.
Em tom de brincadeira, comentei com os rapazes
próximos: “Elas bem que poderiam ser nossas avós”. Eles riram, mas eu não. E as
“avós” seguiam arrastando vassouras, como se em fila estivessem. Não eram
pessoas fáceis de definir, aquilo beirava o absurdo. Para trabalho tão pesado,
é comum serem contratadas pessoas fortes e jovens.
Eram montes em linha; velhas, uma atrás da
outra. Até que, seguidas assim, já eram folhas secas, papéis sujos e embolados,
guimbas, confundiam-se com o que varriam. Por preguiça, o vento não as
espalhava. Amontoavam-se por desejo de que uma embalagem plástica e preta as
ensacassem.
Do saco ao ônibus; do ônibus ao trem; do trem à
linha; da linha à terra batida; da poeira ao catre, ao desabraço do suspiro do
“seja o que deus quiser”. Então, ainda na noite escura, eram, mais uma vez,
acordadas por alguém: “Tá na hora, mãe!”. Se vivas ainda estivessem.
O que aquelas senhoras tão velhas estavam fazendo
ali, meu deus?!
A propósito de um quadro de Edward Hopper -
Quarto no Brooklin (1932)
Quando, de lá,Quarto no Brooklin (1932)
Vier a luz
E o vaso de flores jazer mudo,
Ali, alegre e empetalado,
Tirem tudo de mim
Até mais não ter
De mim
A casa
A água
O silêncio.
Deem-me
Então
A janela
E
Assim terei
O deserto,
O que, de mim, já tive:
Não ser.
A mais perfeita natureza morta.
A.
R. Falcão – maio de 14
Assinar:
Postagens (Atom)


