segunda-feira, 1 de setembro de 2014


Balthus
FELICIDADE

 
Pega, às vezes, as mãos

Acenando para o horizonte

Lá, onde não há ninguém.

Vai à estação de trens

Esperar quem já partiu.

Sonha sempre com pessoas

Que nunca viu nem conheceu.

Imagina endereços

E lhes escreve cartas alentadas.

Coloca alpiste na janela

Onde passarinhos nunca pousam.

Ouve o rádio desligado

E faz o pijama sorrir

Satisfeito de silêncios.

Balthus
ESPERANÇA

 
Mais uma vez,

Sem apelação,

Perdi o paraíso da infância.

Se são horas de vida,

Só, em silêncio,

Irei pra casa,

Ouvirei um adágio sinfônico,

Abrirei um cabernet,

E jogarei

Paciência sobre a mesa

Da cozinha.

Feliz, sem relógios,

Sem pessoas, sem desditas.

Balthus
BOM DIA
 
Queria, quereria

Ter dançado a  valsa da noiva.

Ter casado.

Não sei dançar.

Não sei casar.

Queria comer a melancia de inverno.

Não sei comprar.

Não sei verão.

Quereria dormir no calor de uma.

Dormir. Queria dormir

Nas asas das borboletas,

As flores encarnadas da luz.

Ter bobagens nos meus dedos,

As dos meus olhos,

Dos meus sonhos.

Desejar coisas de desejos.

Esticar o lençol,

Ver o dia amanhecer

Pelas janelas mais simples

E o sol nascer entre minhas mãos,

Nos bolsos frios

De meus dias carimbados e cartoriados.

Balthus
ANDEJA

 
Nem bem amanhece o dia,

Já cuida de si

E apascenta seus livros.

Escreve alguma poesia

Que ninguém lê

E desenha vagalumes.

Dorme pouco

Não fala por opção.

Na consulta ao acaso,

É possível encontrá-la.

As noites são contorcidas em si

E as manhãs se abrem

Para as sombras escuras.

Mas é possível.

Ela está caminhando por aí.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014


             YPÊS DAS AMARELAS

 


Nesta atordoada cidade,

São árvores merencórias:

Depois de farejarem a primavera,

Oferecem em sacrifício

Seus iluminados cachos gemados

No altar úmido

Das primeiras chuvas

De setembro,

Para depois e logo desaparecerem.

Os paulistanos são as crianças

Cujos sorvetes dourados

São roubados

De suas inconsoláveis retinas.

 

fim de agosto

segunda-feira, 25 de agosto de 2014


                  A TAL OCASIÃO

 

                                                                                                                                                                          Lucian Freud
Venho sendo imune

Às doenças oportunistas.

Há 35 anos. É prosa.

Não sou imune à morte,

Mas só até a última rendição,

Que morto estarei. 

É poesia.

Gosto de mim até um certo ponto.

Além dele, observo as pedras.

Elas me fazem silenciar por dentro.

É poesia.

O silêncio me ensina o tempo

Que cada um tem. A sua cota,

O seu escuro - o bom escuro. É poesia.

A noite dorme, em meu lugar,

O incontornável poente. Sou animal.

É apenas o tal fim. É poesia.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014


PEDRA

 
Ela não precisa ir,

Não tem pressa de futuros.

Uma pedra é uma caixa de tempos,

Compacta.

É um teatro de silêncios alusivos.

A pedra observada é testemunha;

Tocada, é invasiva;

Repousada é movente.

Em sua imanência,

Nos conta muda

Todas as histórias de buscas

Que ela já guardou pra si.

É como espelho cansado

Recolhido pra dormir

No ócio de existir.

Uma pedra é uma advertência,

Um insulto na escuta,

Um vazio pelo avesso,

Um pouco-caso por carências:

Nos dispensa sem ofensas.

É elidente e consistente.

Seu escárnio diário

É nossa insignificância

Em todas as empurradas manhãs.