segunda-feira, 5 de janeiro de 2015



CONVERSA DE VELHOS


Ali na sala, num fim de tarde qualquer, de um dia qualquer, num agosto qualquer, o Sr. Aníbal (92) trocava um lero-lero com a filha Isabel (70). Rotina de velhos.

_ Estou vendo essa caixinha em cima da mesa e me veio à lembrança tia Mimi. Quando estava atacada, fugia do quarto e ia andar na beira do rio durante a madrugada. Um perigo. Como a gente já sabia disso, ficávamos alertas, acordávamos meus irmãos mais velhos, que saíam na busca. Você acredita? Tia Mimi entrava em casa toda suja (na verdade, todos, que ela vinha arrastada) aos berros e acordava o mundo inteiro. Coitada, já tinha 95 anos. Essa caixinha era dela.



_ Meu pai, é a quinta vez que me conta essa história nessa semana. Não faz de novo, pelo amor de deus! Já disse, sou assim: não precisa repetir. Contou uma vez, não esqueço.



_ Está bem. Deixa pra lá.Você era muito menina, não acordava. A gente tomava cuidado. Você não conheceu Zé Jerônimo. Conheceu? Pois é, ele dormia num quartinho afastado de casa; era um agregado. Gostava de pescar. De madrugada, andava até o rio, pegava sua canoinha e ficava de vara em punho, subindo e descendo o rio, que ali era mansinho, águas calmas, calmas. Já de manhã, todos na mesa tomando café e cadê Zé Jerônimo? Meu pai saia à procura. Não era difícil encontrá-lo, quase sempre estava debaixo da ponte, na canoa, dormindo e fedendo a cachaça. Peixe nenhum.



_ Meu pai, é a sexta vez que conta essa história nessa semana, a segunda vez hoje. Não faz de novo, pelo amor de deus! Já disse, sou assim: não precisa repetir. Contou uma vez, não esqueço.



_ Não chateia, daqui a pouco você vai me chamar de caduco. Você era muito pequena, pequena mesmo. Um dia, sua mãe desapareceu, nem percebi. Durante a noite, saiu da cama, do quarto, da casa e foi pro rio. De manhã, a mesa do café estava vazia. Pra mim, estava na cozinha, mas não estava, não estava em lugar nenhum. Saí apavorado e avisei alguns conhecidos e fomos procurá-la. E nada de encontrar. Ficamos nisso o dia inteiro e a noite também. Seu Eustáquio é que a encontrou, também embaixo da ponte, mas no meio de galhos.



_ Já sei, ela estava morta. Meu pai, essa semana você me contou pela sétima vez. Hoje, é a terceira. É só uma variação trágica das outras. No fundo, é a mesma história.  É, a culpa é um desconforto amargo e não descola. Não faz de novo, pelo amor de deus! Já disse, sou assim: não precisa repetir. Contou uma vez, não esqueço.



_ E por que você nunca fala de sua mãe?



_ Ah, de novo não. Essa pergunta outra vez?! Já disse, não precisa repetir. Sou assim: contou uma vez, não esqueço.



_ Sua mãe era difícil.



_ Já sei. Não precisa repetir. Saco!

A. R. Falcão - janeiro de 2015

sábado, 27 de dezembro de 2014



"EU-EU TE-TE VI NO FACE"



Nesse dezembro, no aeroporto, assisti apavorado à nova patalogia de massa: a manada se "fotografando" compulsivamente com "smartphones". É tola e manipulada, na ilusão de agir quando agem esperta e calculadamente por ela, fazendo-a "pensar" que tem a iniciativa. As aspas se justificam, porque pensar não é atividade própria de manadas. Espero por horizonte sombroso.



Essa digigrafia mórbida (porque fotografia não é) é um esforço retórico pelo vazio de si. Aqui, um retórica "desverbalizada" através da imagem volátil de um instante assombrado ou irrelevante. Para a manada, o verbo é complexo. Sua oralidade é bruta e pobre. Não falam, tagarelam asnices.



Se, na infância remota, havia o proverbial "Ó eu aqui, mamãe!", hoje, nos malditos "selfies", fica assim: "Ó eu aqui, EU!". A tecnologia perigosa adoece mais as pessoas doentes numa velocidade aterradora. Quase todas. É delas "o reino dos céus".

Fica que melhor é nada a "fotografar"; quase nada a dizer. Talvez, devêssemos, em humildade, solicitar o acesso à majestade do escuro e do silêncio. Quem sabe a única maneira de sermos, um dia, salvos dessa praga. Hoje, pessoas de fato veem-se na contingência de habitar o Hades povoado pela horda das maquininhas. Ágrafos dedilhando telas brilhantes sem parar.



Pessoas de fato em oposição a pessoas desintegradas , que são aquelas atreladas obsessivamente à conectividade virtual das redes sociais e fones de ouvido, repare. Eis a manada mundial escrava das grandes corporações da indústria cibernética. A pessoa de fato é dotada de capacidade de observação, reflexão, imaginação e criação, sem a dependência inicial de quaisquer ferramentas eletrônicas que não seu próprio pensamento. Assim se põe a relacionar-se com o mundo à volta, mesmo na sala de espera de um consultório. Note-a: aqui, não usa maquininha nem folheia revistas estúpidas. Não precisa, pensa. Algo doloroso para a pessoa desintegrada. Se vê a tela, não vê o mundo.



Para o imbecil contemporâneo, a tela é o mundo. É tudo muito triste e inexorável. O desintegrado vai pagar caro, com a boca seca e a o estômago da alma vazio do legado da grande cultura. Burros compactos e complexos e, no entanto, sandeus.


A. R. Falcão - dezembro de 2014

sábado, 20 de dezembro de 2014


HESITAÇÃO

É e não é.
Talvez, se assim fosse.
Tanto faz.
Eis que tudo já foi,
Mas...
Não tem mas.
Há e não há
Nada.
A cláusula pétrea
Que nos constitui, e,
Na rede,
Bem cedinho,
Ser ou não ser,
Sendo. Quem sabe?
Muito bom dia.

poeminha metafísico de dezembro - 14

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014


ONANISMO


Coisas de quando dizer

No silêncio de palavras

Que arrumam lençóis,

Mas não despertam.

Coisas de quando pensar

É quase escrever

No silêncio dos sapatos vazios,

Mas não fazem poemas.

Coisas de ver no escuro

E deixar às mariposas

Que aqueçam, em silêncio, a alma enferma.

Acender a luz e ver,

Ouvir apenas a torneira

Que insiste em pingar

Um rosto esquecido.

Nunca, nunca dormir

Sobre escombros de minhas mazelas.

Ter, como melhor amiga,

Um sabonete banal,

O único que me afaga

Num vazio da tarde do domingo.

Coisas de quando calar e

Nunca, nunca sofrer.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014


NÃO ME ESQUEÇO

 

"Se recuse a contentar-se com meras horas vagas para dar vazão à potencialidade da sua personalidade: se torne surdo e cego às blandícias de coisas como carreira, prosperidade, mania de consumo, política de poder, progresso tecnológico e, por fim, não tenha mais do que um sorriso triste para a baixa comédia desses valores, passando-lhes ao largo".

 

Theodore Roszak - 1960/70

 

"Os seres humanos precisam aprender a ser hóspedes uns dos outros neste pequeno planeta, da mesma forma como precisam aprender que somos todos hóspedes do mundo natural. Esta é uma verdade humildemente comezinha, que tem a ver com o ar que respiramos, com nossa pele, com esta Terra inimaginavelmente mais antiga que nós e onde lançamos nossas sombras passageiras. Mas esta é também uma verdade terrivelmente abstrata, uma verdade moral e psicológica incomensurável. O homem terá que aprender ou estará se encaminhando para a destruição suicida e a violência". [Já está]

 

George Steiner - 1985

 

"Turn on, tune in, drop out". [Ligue-se, sintonize-se, caia fora]

 

Timothy Leary - 1960/70

 

"Viver é ser condenado a estar vivo".

 

Na base Franz Kafka - 1914/15

 

Destruindo-me para compreender-me, insisto: não sou de, não estou em, passo.

 

A. R. Falcão  - 2014


O ERRANTE


No caminho das formigas,

Nas frinchas dos tecidos

Que me cobrem os ossos,

Nas sobreposições das nuvens

Que me distraem,

Nas alamedas baixas e interiores

Dos matagais,

Nos labirintos intestinos

Dos cupinzeiros

E nas ventanias que desgrenham

As trepadeiras,

Por aí há de estar

O adeus que recebi (e perdi),

Numa manhã remota e qualquer,

Da mão direita.

Apenas a esquerda aqui está,

Estendida sobre uma das pernas cansadas

Que me carregam entre queixumes,

No obumbrado das ruas aterrorizantes.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014


LEITURAS
 
A fala silenciosa dos livros

Nos balbucia, no escuro dos dias,

Segredos que só os amigos distantes

Confidenciam nas noites frias

Da solidão compartilhada.

A fala silenciosa da arte

Nos contempla sem nada exigir

Além do olhar cuidadoso e amoroso

De quem não se satisfaz

Com a miséria de nossas vidas cotidianas;

Como as folhas secas que entretecem

A página das ruas

No inverno dos afetos que nos escapam.