segunda-feira, 17 de agosto de 2015


SENTENÇAS

Um velho é um velho;
Queira ou não queira.
A água é sempre água.
Alguém bateu na porta,
Ignoro.
Ignoro tantas outras coisas.
O sapato é íntimo;
A camisa é passageira.
Um dia é um dia
Se quiser.
Quando escurece,
Nem sempre é noite.
A dificuldade é branca
E vazia.
O fácil é cheio de chocolates.
Ponto portanto.

sábado, 25 de julho de 2015



ESVAECIMENTO

A água, sem peias,
Se espalha pelas praças
E me vem inundar
Sem me pedir.
Será o acaso que me venceu
Sem licença ou continência?
Adormeço sobre meus cansados
Braços;
Meus olhos sonham
Uma memória que eu
Mesmo desarmo
Sem anuência que mesmo peça,
Para apoiar-me,
Sobre pé e pernas,
Numa vida que nem abriu cortinas.
E ofereceu-me
Estradas pedregosas.




SANDÁLIA

Ter sido
É coisa de tiras
De couro.
É ter sido
Linda sob seus pés.
Pisei e desfilei.
O futuro começa
Em bois e acaba em sapateiros.
E vai que um dia
Você, como eu, escolhe;
Eu, a sacola,
Você, a cama.
Quem, de nós, há de
Dizer:
Qual das quais lindas
Há de ir primeiro?


DESACONCHEGO

Se rico fosse,
Que escolha teria?
Não seria, nem teria.
E se pobre quisesse ser
Seria transparente ou invisível.
Bem sabem os calangos
Que, diante do sol,
Não se escondem,
Mas, de mim, sim.
Olham para si como quem sabe
Que o sol os abraçará de volta.
Eu pego um avião e
Nem sei se voltarei.

segunda-feira, 20 de julho de 2015



O LADO DE LÁ
Como não gosto de nada,
Gosto
Das figuras que se desenham
Nas manchas das paredes,
Dos pisos disformes,
No rosto que se esconde
Atrás do rosto
Que se apresenta;
No espelho dos vidros
Das janelas fechadas;
Nas manhãs ocultas
Das noites abertas.
Por isso e muito mais
Não gosto de nada
Além da vida
Que vaza nas veias
E nas seivas que correm
No interior dessas árvores
Que me fazem mais
Nas sombras vadias.

FASTIO

De novo:
Nessa manhã de outono,
A água se espalhou
Sem peias, pelas praças
E me veio inundar
Sem me pedir.
Será o acaso me vencendo
Sem licença ou continência?
Nessa mesa, adormeço sobre meus cansados
Braços;
Meus olhos sonharam
Memórias que nem mesmo notei,
Sem anuência que nem mesmo pedisse,
Para apoiar-me
Sobre pés e pernas trôpegas,
Numa vida que nem abriu
Cortinas;
Ofereceu-me estradas
A horizontes que ...
Alguns perdi
E outros esqueço.

quinta-feira, 16 de julho de 2015



BRASILEIRÃ0                                                                

Etevaldo Quê
Nem de futebol gostava,
Também foi no embrulho.
Furinho na nuca,
Dedão anelado
E etiqueta no pé.
Um domingo de sol,
“Querosene”, cerveja e lero-lero,
Mas não foi só.
Por vizinhos, quatro Josés
E outras gavetas.
A tal torcida muito bem organizada,
Uniformizada e gelada.

ALGUMAS LINHAS

A meu juízo, o ponto da famigerada redução da maioridade penal é das gavetas da formalidade legal. A letra da lei (mais uma em milhares nesse país legiferante). 16 ou18 anos é uma irrelevância. O problema que tem gerado insegurança e medo decorre da punibilidade branda criada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente face a crueldade, barbaridade e frequência de alguns crimes praticados por “menores” (as estatísticas não são confiáveis, portanto não servem como argumento).

Depois, a atenção deve desviar-se do criminoso (ranço cristão) e voltar-se para o crime cometido, assim amplia-se o horizonte para a vítima e o agente danoso ao mesmo tempo. No plano da consciência, há a sombra do perdão; no plano do mundo real, da vida concreta em sociedade, os atos têm consequências graves sobre a vida de todos e são inaceitáveis a qualquer vez. Arrependimento e perdão não balançam a bananeira.

Em prazo curto, a punição tem alguma eficácia – não se conhece outra forma de coação; em longo, a educação e as condições melhores de existência são sempre o caminho. São de resultados demorados e não sustam o desespero de certas situações presentes. Todas as ações preventivas devem ser concomitantes e permanentes. O que o país não fez e não faz. O poder público tem sido sempre uma latrina.

O sistema penitenciário brasileiro é uma calamidade insuportável, uma fratura exposta, tanto faz se para jovens ou adultos. E a Fundação Casa (antiga Febem) não é muito diferente, é uma mentira instituída. As medidas socioeducativas são hipocrisia desconcertante. Alegar que o cárcere é a escola do crime é uma bobagem. Os crimes cometidos são venenos letais de gente já escolada. O cárcere propicia compromissos estreitamente vigiados pelo código da conduta criminosa e pela hierarquia do crime, o que não quer dizer que, aqui fora, não existam. O delito, a brutalidade solitária são exceção – esta é de domínio da psicopatologia. Junta-se a isso, uma polícia que oscila entre a mesma brutalidade, a corrupção e a omissão. Ela investiga pouco, quase nada, e grassa o inferno que conhecemos.

A Lei, ora a Lei; a Justiça, ora a Justiça; a Polícia, ora a Polícia. O que nos resta? Deixar como está? A situação presente vai continuar por muito tempo ainda. Abandonar o futuro ao descaso e acaso é crime de todos nós. Negar a redução, criticar ou desautorizar seus propositores é ocioso. Não se trata de perseguir segmentos sociais abandonados pelo estado desde sempre, mas de punir de fato crimes, venham seus autores de onde vierem, sejam seus autores quem forem. A esquerdinha pó-de-arroz não propõe nada, posando para a fotografia com cara de humana do bem . Sem novidades aqui, ali e acolá.