quarta-feira, 23 de novembro de 2016


ENGOLE, É MOLE


Todos os dias, acordar contrariado, arrumar, defecar, banhar-se, barbear-se, vestir-se, pentear-se, comer, beber, limpar, pegar coisas, apagar luzes, fechar a porta, sair, andar, esperar, tomar a condução pública, espremer-se, sair, andar e chegar. Submeter-se às oito horas de obrigações repetitivas e aborrecidas, entre os “bons-dias e até-amanhãs”, plastificando, ofertando sorrisos e mesuras, consumindo migalhas de vida e morrendo aos poucos, “... a mais sórdida e mais miserável das condições: a do homem que trabalha” (A. Camus), para, na sexta, embebedar-se com as mesmas pessoas que provam do mesmo fel. “ Um rosto que padece tão perto das pedras já é pedra ele próprio” (idem).

MONOTONIA

Como dizem: a cada dia,
Sua agonia.
Tome
De sua frota, sua cota.
Como essa incerta primavera,
Da fria manhã ao forno fera
Do meio-dia. Tome então
A miúda monotonia
Que incha até o alvoroço
Das festas nefastas.
Compre
Sua roupa de missa
Para dormir ébrio
Na liça, entre carniças.
Compre, principalmente compre.
Leitão, melado e cidra.
Sonhe, principalmente sonhe.
Atrás da porta,
Beijar a boa tia Bia.
Bonitinha, coitada e sozinha,
Lavando a louça ali, na pia fria.
Monotonia natalina,
Sensaboria: leitoa, farofa e muita pinga.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016


PERDA DE TEMPO

Escreve-se (tenta-se) o inexprimível e tem-se o ilegível. Resulta um texto de difícil compreensão, senão impossível. O leitor tolo e "colonizado" o toma como profundo e se vê na condição de “burro” ou ignorante, mormente se o autor estiver na moda e repousado sobre um pedestal europeu (Deleuze ou Lacan, por exemplo). O "complexo de vira-lata" rouba a cena e o moço, com o livro na mão e na cabeça, vai dormir deprimido. Existem leituras que não se põem logo de portas abertas, é fato, mas basta batermos palmas e elas se abrem com mesuras e nos conquistam para sempre. Grande Sertão: Veredas (G. Rosa) é um caso à mão. Mas a coisa é simples, textos e respectivos autores assim devem ser sumariamente abandonados; há, para serem lidos, inumeráveis obras inteligentes, bem escritas, complexas, mas claras. O bom é claro e abordável; a leitura, deveras prazerosa.



M. Foucault, numa de suas entrevistas, declarou, certa vez, que, em trabalhos para a academia, fazia-os deliberadamente obscuros nas primeiras trinta linhas, para com elas, adquirir respeito e impor-se. Se o ato de ler em sua própria língua se torna decifração, alguma coisa está errada: ou o leitor se vê, involuntariamente, na situação de um arqueólogo diante de língua morta ou atolado num lamaçal de pedantismo, vítima de mais um autor-pavão. Pena que as prateleiras da academia e da literatura estejam cheias de textos assim. Uma praga "muderninha".

“É CUM NÓIS, MANO!”

Começo por uma obviedade: o homem é um animal social, pois é. Ocorre que só se habilita para isso a partir da aquisição da linguagem oral e, mais tarde (ou nunca), a escrita. Elas são suas formidáveis ferramentas, as de primeira grandeza. Delas decorrem o resto: seu mundo interior e a pluralidade de suas relações com o exterior (o indispensável outro), sobre o lastro de memórias e sonhos, as matérias-primas das narrativas sem fim - a consciência, o pensamento. Sua constituição, sua essência em movimento para construir-se.


Hoje, em processo de autodestruição, o homem começa por pisar na linguagem que encontra ao nascer e desenvolver-se – o maior legado, e por retornar ao uso da força bruta (arma branca, de fogo, pau, pedra, mão grande, chute etc. tanto faz). É só ler e ouvir a expressão verbal empobrecida desses adultos e molecadas idiotas que povoa as redes sociais na “web” e a multiplicação, fora de controle, das mais diversas atitudes violentas, provocando, às vezes, danos irreparáveis. Causas conhecidas e discutidas à exaustão. Pra nada. A gente chega lá, de volta, quando nem sabíamos ainda usar o fogo. Quem sabe reste alguém pra contar a história, quem dera?!

quarta-feira, 16 de novembro de 2016


MIÚDOS

Atavismo
Se familiares,
Os falares habitam o fundo
De cada um de nós, lá,
Na casa escura
De nossos velhos molares.

Culpa
Se, ao abrir o melão,
Cortar o dedo, vá ao porão,
Atire a faca aos besouros
E durma, sem medo,
Na companhia de seus pregos
E de seus parafusos frouxos.

Clima
As manhãs enevoadas
Asseguram sol, natas no leite
E laranjas aguadas.
Não tem jeito:
O doce ócio será inapelavelmente desfeito.

Ilusão
A mosca pousou
Na pedra da pia.
A mão pousou na mosca e
Na pedra da pia.
Entre a pedra e a mosca,
A mão e a mosca,
Sobraram alguma mosca na mão
E a pedra num resto de qualquer coisa.

Literatura
Escrever seria represar pensamento e sensibilidade, indizíveis e inefáveis, em lago tomado de escapes. O escrito vazaria como a água. O poema nos escaparia a toda hora, um sonho condenado ao esquecimento. Ler o que seria então senão tapar os furos inumeráveis com os dez dedos da mão? Que a crítica ficasse com a engenharia reversa, desconhecendo como o texto foi projetado e construído. Restar-lhe-ia adivinhar ou imaginá-lo.


Existência
Embora seja uma simplificação, como é toda analogia, ou, como toda verbalização é (para ser extremado), experimento pensar a existência como um pêndulo cujos polos são o relacionar-se com o mundo e o “desrelacionar-se” dele. Uma possibilidade e uma impossibilidade. Relacionar-se é o que nos constitui; "desrelacionar-se” é o esvaziar-se até um “si” inefável. Uma miragem, um delírio, uma ilusão e um inapreensível. Por mais que a proximidade ao “si” pareça tangível, mais ele nos escapa. O pêndulo está bêbado. Por outro lado, relacionar-se é sempre uma probabilidade, mas nunca uma certeza. Relacionar-se com o mundo, no fundo, no fundo, não seria apenas relacionar-se consigo? O “si” como prisão da qual não se escapa? Por isso, em vão, ao dormir, o homem sonha. Algo foi perdido para sempre, mas não se sabe o quê. Resta a busca permanente no escuro de nós. E existir (constituir-se) é mesmo triste assim. Não cabe lamentar-se.




sexta-feira, 11 de novembro de 2016


O TEMPO DAS HORAS

Alguém olha o negrinho
E a mulher feia,
Olha mais: todas as revistas
Burras. Espertas.
Há uma hora, espera.
Pelo espelho, se vê
E não gosta do que vê.
É uma manhã de primavera.
Sonda o bolso, a carteira vazia
Está. Ensolarada.
Olha de novo e é inexcedível:
É um velho nessa manhã
Que não pede licença
E as outras que virão.
Essa abre o céu vazio
E pede que entrem
O negrinho e a mulher feia
Que o espelho não reflete.
Ambos nos braços da vida inteira.
Ele, há duas horas, está preso no mesmo,
O velho espelho.



NÃO SEI DE NADA

Em vez do branco do papel,
Começo pelo preto
Da caneta. Chegar aonde?
No branco e no preto.
No branco da palavra e no preto da noite escura.
No inferno.
Onde está, então, o além? A transcendência?
Nas asas de quais pássaros?
De que galho destruído por um ônibus
Ou por mim mesmo que,
Brigando por uma sombra,
Acendi outra e mais outra labareda?
O cigarro de minha impotência:
A guimba e minhas lágrimas insanas.
Em vez de branco, que deuses não me deram lugar?
As angústias de dormir hoje,
Se, há muito, nem eram de ontem.
Sei como cuspir. O sol não me perguntou,
Não é o caso; o sol é pobre, a estrela só
Que descasca os ovos.
Que deixe então os pintinhos e as abóboras
Se espalharem pelos quintais quando o dia amanhece.
Se a vida é sagrada, sou ateu.
Desconheço
Esses deuses que vão dormir por muito trabalhar no mar das sombras.