quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017



ANDERSON
Morri sozinho
Nessa vereda escura,
Em sombra das árvores mais redondas,
Nas aragens que me abraçavam
Entre os dedos e o medo.
Eu era. Era o quê?
Como um não, não era.
Então, fui atrás de uma bola,
Fui à lama negra
E me escondi
Onde vocês nunca me encontraram
E nem me encontrarão.
Minhas árvores, agora,
Por mim, estão florindo
E as manhãs vêm "alegriando" entre vocês.


O PASSAGEIRO

Quando o estranho chegou,
Mesmo amigável, pela sombra,
Confrontou-se com olhares de surpresa
E desconfiança.
Olhou em volta e pediu,
Com carteira na mão,
Na forma de aguardente,
O alívio da jornada.
Enfim, finda.
Nas mãos de um,
E no coração de outros, séculos de acolhimento.
O gato dormia no balcão
E as moscas faziam a festa da recepção.
O resto eram pedaços de deus
Dormindo a merecida jaca mole.

ZIG-ZAG

Sexta-feira
Dia de limpar,
De guardar lagartas
Na geladeira.
Dia de nascer e morrer,
Dia de unir e trair,
Dia de chegar e sumir,
Trocar lençóis e anzóis.
Para sempre, olhar o mar e calar-se.
Dia do sim e do não,
Das rimas pobres
Para tudo acabar em dissipação
E andar aos ziguezagues.

SOLITUDE

Há inesperados lugares repousantes. Um deles é um umbigo singular e plural, como ficam na frutificação das amoreiras. Dormir no umbigo de uma única amora é o melhor local, mudo e violeta, numa noite indefinível onde podemos habitar, antes do apodrecimento da fruta, antes do bico de um passarinho, um sono de formiga. Lá não somos amigos de ninguém, por falta de espaço. Basta a doçura daquele cobertor miúdo, constrito, restrito, onde não cabem telefones, chamados imprevistos e o vento repousa na sombra do chão tingido de nós mesmos.

O GRAMPO

Quando se pôs de pé, viu-se retido por um objeto sobre a mesa. Era um grampo de cabelos que lhe foram importantes por bons motivos. Circunstâncias fortuitas o levaram até ali, aquele ambiente desarrumado havia dias.
Se a casa foi abandonada, não havia razão para falta de asseio pessoal. Colocou-se sob o chuveiro, barbeou-se, vestiu-se em trajes limpos e apoderou-se do grampo. Saiu para a praça, naquela tarde ensolarada.
Sentiu-se, por alguns instantes, perdido. Havia poucas pessoas espalhadas em alguns bancos, sob as sombras dos flamboaiãs, floridos nessa época do ano. Caminhou até o extremo da quadra, até avistar o rio, outrora manchado de lembranças amargas, mas agora já limpo. Sua vida mudaria. Transfiguração.
Foi, em passos lentos, à ponte, debruçou-se sobre a murada e ficou contemplando as águas plácidas e verdes. Era um rio agradavelmente silencioso, margeado por vegetação densa, de tons múltiplos. Tomou a decisão de atirar o grampo nas águas; por que manter aquele incômodo no bolso? E o fez.

Deveria ter esperado a noite pesada e as ruas vazias para livrar-se do corpo que carregava outros grampos, mas não o fez. Deixou-o no porão da casa desarrumada. Saiu dali, tomou um taxi e dirigiu-se à rodoviária. Comprou passagem para o Rio e esperou duas horas para embarcar. Dessa vez, foi-se para nunca mais voltar, nem por imposição de inquérito policial. Algo muito improvável. Seria se não fosse. Foram demasiado nefastos os dias.
AMBULANTE

Quando ainda viva,
Preenchia seu vazio
Em busca de um lugar,
Nunca a seu alcance.
Depois morreu.
Foi quando encontrou:
O não-lugar,
Ao esvaziar-se de si.
Venceu.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016


NEM ONTEM NEM AMANHÃ
                   
O quando do bem perto,
Do aqui mesmo.
O aonde foi pra lá.
Os alis dessas coisas
Ou qualquer outra coisa.
E veio o silêncio antes do dilúvio;
A morte oferecida pelo verão,
Pela água que cobriu a morte das sepulturas
(Cadáver é lixo orgânico, o que já deixou de nascer).
Então, criou-se a sepultura das sepulturas
E todos foram felizes para sempre,
Num mundo sem sol e chuva.