quarta-feira, 12 de abril de 2017


OUTONO

Sem aviso prévio,
Essa brisa me trouxe
Uma folha seca,
Meu primeiro presente outonal.
Olho para o céu
E sei:
Daqui, adiante,
Serei um homem melhor
Ainda que pior,
Ainda que infame,
Sem norte, sem eira,
Com os dedos despidos das unhas,
Sem as chaves
De uma porta que nem posso abrir.

MÁ COMPANHIA ou a FOME

O que esta mão faz aqui
Que não faria ali?
Tire os dedos e os olhos
Do pudim,
Voe as asas sobre o deserto
De sua vontade.
Coloque a tigela sob a estrela
Vésper, a Vênus da manhã;
Longe de seu alcance.
E morda o dedão de seu pé
Sujo.
Com suas mãos,
Insisto,
Longe do pudim,
Repouse o peso sobre meu ombro
E, depois que apontar a lua,
Olhe para meu indicador,
Morda com sua volúpia
Sua solitária saliva.
Esta é a manhã primeva.
Não esqueça: tire os olhos do pudim.

segunda-feira, 27 de março de 2017


DIZ

Fome e sono.
Um dia desses.
Coração à noite,
Morrer com a noite
Própria. A água em si.
Buscar e não conseguir.
Ter na mão o não.
Dormir o sim.
Ficar olhando o rio que desce
Dentro de mim.
As mulheres que batem,
Nas pedras, as roupas.
Passos tristes.
Sem querer, me acordam
Na madrugada.
Perder uma ideia de deuses
E não fazer nada.

sexta-feira, 24 de março de 2017


A TUA CARA

Um homem em branco,
Incapaz.
Sem saber o que dizer
De si, daquilo que, das lascas
Das árvores, da memória, do que não dormiu.
Um homem que abriu os jornais
Velhos para, súbito, morto,
Saber o mesmo. Um homem
Sem sonhos e sombra. As noites
Esquecidas. Um homem
Em branco, no papel,
Na verdadeira língua
Sua. Eis:
O que perdeu o trem
Na estação errada.
O branco do homem com lápis
Sem borracha.
Cigarro na boca e a cama das águas
Em fogo. Um sim do não sem fôlego.
A urina nos dedos. Um homem em branco
E a luz nos espelhos miúdos,
Da cabeça dos pregos, dos parafusos perdidos,
Das linhas sem agulhas, dos fios sem destino,
Dos botões sem camisas.

A. R. FALCÃO - MARÇO DE 17

quarta-feira, 1 de março de 2017


UMA NOVA MODALIDADE
Um brasileiro anônimo apresentará, em fevereiro próximo, um projeto ao Comitê Olímpico Internacional. A ideia surgiu após caminhadas por calçadas paulistanas e baianas. Consiste em "chute à pedra", o nome do novo esporte. A pedra é colocada num pavimento de concreto, deve ser de tamanho grande. O atleta se põe diante dela e, com toda força possível, procede aos chutes, dedão à frente.

A pontuação ocorre de duas formas: medição do deslocamento da pedra e número de chutes efetuados. A premiação também se dá de duas formas, à escolha do atleta: amputação grátis do membro dilacerado ou duas semanas em Caracas com tudo (nada) pago e direito a cesta básica. O brasileiro criativo espera obter sucesso com apoio de paulistanos e baianos.

REMETENTE

As dobradiças das portas
E janelas
São novas.
A grama está aparada.
E as azaleias estão floridas.
As laranjeiras, carregadas.
Não há tiriricas na calçada,
A rua foi varrida e eu,
Estou no telhado, com binóculos:
O trem não chegou, não há ônibus.
Correio não há.
Mas a casa,
Agora, mais uma vez,
Será fechada, quando já foi.
Tudo será "há muito tempo",
Porque vou dormir
Em direção incerta,
Em travesseiro amorfo,
Num homem difuso,
As cortinas abertas.


PARTI PRIS

A mão não deveria
Estar aí
Visto que passageira
No furacão dos dias.
Aí é a pedra,
Senhora dos tempos.
Por cima ainda,
É mole a mão,
A rocha não,
É compactada pela vez,
Lastro em assegurada serventia.
A mão é flutuante,
A pedra é permanente
Em seu soberbo sossego.
A mão é volúvel,
Furta, bate
E, quando afaga,
A aleivosia mais quer que dá.
A pedra, em seu silêncio, escuta
E lacra os mais incofessáveis segredos.
Sussurre seus amores improváveis.
A mão finda,
A pedra não,
Sela o que jaz apodrecido.
É sobre ela que
Rezam os homens das perdas
Entristecidos.