segunda-feira, 29 de maio de 2017


SOBRE A SONHAÇÃO
a Juliana

O sonhador é sempre suspeito, porque manipulado pelo sonho. Ao narrar o sonhado - o que já fez para si - o submete à lógica da narrativa em vigília, impregnada do trinômio causa-consequência-efeito, tão estranho ao evento onírico. O sonho é memória em desordem, desenraizada, como imaginação alucinada, sua análoga; em si, o sonho já é tentativa de apreender matéria simbólica errática, indestinada, que, a todo instante, escapa dos grampos da racionalidade.

Ocorre que, sem o sonho, a pessoa acaba prisioneira de sua incompletude natural, de seu indelével vazio. O sonho a preenche e ilumina o escuro de seus mais íntimos abismos - um milagre. Quando um outro se põe a interpretá-lo, ou pelo menos tenta, escolhe tarefa das mais ingratas e infrutíferas - a interpretação é uma caça cega a um inefável sentido, tão cara à poesia - o que não lhe tira o mérito nem a generosidade, do amigo(a) ou do(a) profissional. É quando a intimidade, por pudor, se faz tentacular. E a interpretação tem, de mim, toda a gratidão.


A. R. Falcão - maio de 17

sexta-feira, 26 de maio de 2017


VERDADEIRO AMOR

Nesses tempos bicudos, a convivência sadia entre caninos e humanos decaiu da serenidade e temperança para a mania bovina à beira da patologia (cão agora é "meu neném") - grandes manadas possuem cachorrinhos peludos, mormente nas áreas densamente povoadas. A meu juízo, o caso que segue traz alguma lições.

Ele morava sozinho e tinha um cãozito (assim o designava). Trabalhava na Secretaria da Fazenda - era um barnabé. Pela manhã, saía e só voltava no início da noite. O animal ficava só, portanto, o dia inteiro. Deixava uma tigela com ração e outra com água. Depois de jantar, abraçava o animal contra o peito, com intensa demonstração de amor, e ligava a televisão. Como é fácil imaginar, o animal latia sem tréguas durante a solidão. Parecia nunca se cansar. Os desesperados vizinhos ameaçaram matá-lo pelos latidos intermináveis, agudos e irritantes e por julgar o procedimento do barnabé um claro "abandono de vulnerável". O solteirão declarava pelos corredores que sempre amou os animais, todos, qualquer um. Impediram-no de criar cobras ali. Informado do sofrimento canino, decidiu não mais trabalhar; Biubiu em primeiro lugar. Assim, acalmou os vizinhos e mitigou a carência do maldito gritador.

Alguns meses depois, próximo do despejo e desempregado, começou a latir - um ganido grave e brando. Biubiu, feliz da vida, com tigela de ração no parapeito, passou a sorrir na janela. A felicidade dos guris do bairro. Como se sabe, a felicidade dura pouco e, no Brasil, o fundo do poço tem porão. É só aguardar que, logo logo, um parlamentar amalucado - nossa especialidade - apresentará um projeto de lei, proibindo a posse de cães histéricos por viúvas(os) solitárias(os) ou quaisquer mamíferos de forma humana que vivam sós, apenas na companhia de peludinhos. Nosso solteirão segue acorrentado em clausura, em cômodo provido de isolamento acústico, com direito a ração e limonada, que adora. Estamos no Brasil.

Em tempo, este autor teve muitos cães, mas em casas com quintais; nunca em apartamento, uma crueldade.


terça-feira, 23 de maio de 2017

        
TOME

O dedo de si
Sob a pele, entre células,
O lápis, o eu de mim
Atrás, não dentro.
O papel, o vendedor de fígados,
De cérebros.
Eu e minha mão.
Estava eu mesmo
Sob a mangueira,
Tentando entender a "brigueilheira",
A "abeilheira" que melhor me deu a pica,
A dor de uma só.
Foi quando entendi.


sexta-feira, 28 de abril de 2017


A VIAGEM

Nada a dizer da roseira
Que brota no lago congelado.
Também a dizer nada
Sobre a carnificina universal.
Não me espanta que criem
Deus ou deuses, espíritos de quaisquer ordens
Diante do abismo ensolarado,
Chamado por alguém
"O Terror Sagrado".
Prefiro o silêncio ou a pena
Quebrada que mal escreve
Frente ao branco do papel,
A janela que se abre para mim,
Como espelho rachado na lixeira.
Prefiro amar o mistério, o desconhecido
Para seguir sempre adiante
E não congelar-me nos gessos religiosos
Ou doutrinários dos demiurgos de botequim.
Prefiro vagar, sem velas, no veleiro oceânico
E inútil das horas que passam;
Onde não me encontram
Nem me fazem perguntas;
À espera de que Ela,
De mim, faça pó e cinzas
Ou me ofereça aos vermes
Vorazes.

quinta-feira, 27 de abril de 2017


PRETÉRITOS PERFEITO E IMPERFEITO

Com hora marcada,
tomou providências:
Cortou os dedos dos pés
E das mãos.
Secou a boca e
Amarrou-se para o encontro.
Então, chegou.
Mas não havia ninguém.
O amor é isso mesmo.
Esperava o quê?
Nem deu corda
No relógio de si.
Seu coração doente
Mofava na fila de transplantes.
Esqueceu?
Havia o mim dos outros.

quarta-feira, 26 de abril de 2017


CITAÇÃO Z

De Nikos Kazantzakis, em Zorba, o Grego (tradução de Edgar Flexa Ribeiro e Guilhermina Sette)

"Essa paisagem cretense parecia assemelhar-se à boa prosa: bem trabalhada, sóbria, sem riquezas supérfluas, possante e contida. Expressava o essencial com os meios mais simples. Não brincava, e recusava-se a utilizar qualquer artifício. Dizia o que tinha a dizer com uma austeridade viril. Mas, entre as linhas severas, distinguiam-se uma sensibilidade e ternura inesperadas; nas partes mais defendidas, os limoeiros e laranjeiras recendiam, e mais longe, do mar infinito, emanava uma inesgotável poesia".


Boa Literatura que é, ao falar da paisagem cretense, parece estar caracterizando uma personagem e o próprio texto: Zorba e o livro. Coisa belíssima.

quinta-feira, 13 de abril de 2017


CORPOS DUROS E BRANCOS

Uma dor de dente dura, em média, 48 horas. Aguente que passa. Depois o ente adormece, cai e chega a liberdade. O dente é uma porta para a alma, que é uma usina nervosa. A alma é imortal enquanto vivo estiver. A diplomacia, nessas conversações nefastas (a dor), está a cargo de Lúcifer. Não brinque com ele. É claro que o cão quer infernizá-lo, é de sua natureza por redundância. Alguns poetinhas de fim de semana gostam de dizer: "A dor de dente dói na alma" quando tentam fugir do inevitável "A dor de dente dói no dente", melhor, "A dor dói na raiz". É axial. Alma é assunto para demônios interiores, estes produzem sofrimento e suicídios desde sempre, desde o choro primordial.

Dentes? Melhor não tê-los, assim como o melhor de tudo é não nascer - o gozo pleno da não-existência. O verdadeiro paraíso que Eva, Adão e o famigerado deus resolveram estragar, está em outro lugar. Atiraram-nos para as filas do SUS global e eterno. Espertos, não tinham dentes. Depois da história da maçã, a coisa mudou. Mas lembre-se: os dentes são cavilosos. Se ainda deseja mantê-los, a não ser que prefira engolir a mastigar e ficar, na vida, condenado às sopas e suquinhos safados, esses corpos duros e brancos vão, em seguidos momentos, traí-lo pela mão dos especialistas. Os dentistas, na verdade, negociam com o demo um adiamento da banguelice inexorável, contraespião da maldição na decrepitude, da qual ninguém escapa, como juros do cheque especial, com os quais os referidos profissionais adoram brindá-lo.

Depois de uma certa idade, não gargalhe, dê sorrisos matreiros ou de qualquer outra espécie. Se você tiver talento para o trato, ninguém vai perceber que, em vez de boca, tem um poço escuro por onde passam cremes variados e desaforos. Entrará para a categoria dos "bons e simpáticos velhinhos", sempre sorridentes, mesmo na demência senil deprimente, já bem perto do paraíso.