sexta-feira, 16 de abril de 2010

PUTREFAÇÃO
Se quer mesmo subir um degrau, guarde algumas gotas de sua mais nefasta substância. Seus ressentimentos, invejas, ciúmes; todas as suas vilanias pouco lhe servirão. Interessa agora suas ações virtuosas que passaram incólumes por todos esses anos: as caridades públicas, generosidades privadas, abnegação, afetuosidade desinteressada; estas, sim, servem à fusão com aquela substância. É preciso vinagre, esqueça o vinho. Não há santa comunhão em vista.
Só aí então entregue-se ao mais torpe dos gestos - o que você jamais imaginou em sua proverbial covardia: dispa-se e deixe-se ficar no leito do assassino de seus filhos, de seu mais dileto amigo, de sua família, de seu jardim, de seu cão. Você doará, portanto, o justo merecimento: um perdão purificador, o que não teve em vida. Destitua-se de seus sonhos pueris que lhe criaram esta fisionomia de buquê de rosas brancas. Morra pouco a pouco, dia a dia, em paz, com a vergonha da qual nunca se viu livre. Nem quis.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

UM DIA MEMORÁVEL

Às seis horas da manhã de uma quinta-feira, desce, por uma movimentada avenida, a caminho do trabalho, um respeitável senhor de meia idade, modos educados e muito bem ajambrado. Pedestre convicto de seu meio, diríamos, natural de transporte. É bem verdade que em franco desprestígio e sofrendo enorme desrespeito das autoridades públicas e das gentes em geral. O que, antes de causar-lhe pesar, provoca é desmedida revolta e acentuada raiva. Isto sim é que o deixa infeliz. Gosta de assobiar baixinho um colar de canções de sua juventude enquanto desfruta da fresca brisa matutina.

Assim é que viu uma viatura policial, sobre a calçada, a bloquear seus passos, perpendicular à pista de rolamento dos veículos motorizados. Para seguir em frente, precisaria disputar espaço com automóveis, motocicletas, caminhões e colocar sua vida em risco. Não teve dúvidas: apotentou-se todo,
dirigiu-se ao policial e passou-lhe um baita pito, tendo, antes, dado uma aula de civilidade sobre a principal função daquele agente público: garantir sobretudo a segurança da população. Tudo em escorreito linguajar.

Naquele dia, faltou ao trabalho. Passou o resto das horas na cadeia. Para aprender que, com autoridade, abana-se a carteira e abaixa-se o rabo. No mais completo silêncio. Ora, onde já se viu?!
DEZ BOBAJADAS

1. "ENTRALHAR AS MALHADEIRAS": SIGNIFICA COSTURAR REDES DE PESCA NA AMAZÔNIA, MAS TAMBÉM DILACERAR-SE EM RAIVA AQUI DENTRO DE MIM, SEM RAZÃO APARENTE.

2. MINHA CABEÇA ME OBEDECE OU OBEDEÇO À MINHA CABEÇA? COM ESSA ELUCUBRAÇÃO, MERGULHEI PARA DENTRO DA NOITE, SEM NENHUM PINGO DE SONO.

3. O SONHO CONTADO É COMO QUEIJO QUE JÁ VEM RALADO, CUJA AUTENTICIDADE NÃO PODE DEIXAR DE SER SUSPEITA.

4. A MISSA CERTAMENTE É A IMATERIALIDADE QUE SE FAZ RITO E VERBO, PARA MAIS TARDE DESFAZER-SE E, NOVAMENTE, APRESENTAR-SE NÉVOA. NA INFÂNCIA, A GENTE ERA OBRIGADO A NÃO ENTENDER.

5. OS CACHORROS TÊM, SEM SOMBRA DE DÚVIDA, MUITAS VIRTUDES; MAS UM ÚNICO E LETAL DEFEITO: LATEM. DUAS VEZES COM SERVENTIA; NAS OUTRAS, INTRAGÁVEL GROSELHA.

6. FUMAR GOSTOSA E DISTRAIDAMENTE UM CIGARRO, TENDO POR RETAGUARDA UMA CRIANÇA TAGARELA E PAU-MANDADO A DIZER "FUMAR FAZ MAL À SAÚDE" FIRMA-ME A CONVICÇÃO DE QUE O REPRESSOR NASCE REPRIMIDO; OU POR OUTRA: O TORTURADOR NASCE TORTURADO.

7. QUANDO OUÇO UM "EDUCADOR", A DOIS PASSOS DE MIM, DIZER COISAS COMO "HÁ MALES QUE VÊM PRA BEM" OU "O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER", SINTO-ME HONESTAMENTE, NO MAIS FUNDO DE MIM, UM HOMICIDA SEM CULPA E SEM PECADO.

8. UMA FERVOROSA BUROCRATA DA EDUCAÇÃO É UMA SENHORA DE 150 ANOS E QUILOS, SEMIANALFABETA E CLAUDICANTE, QUE SENTA À MESA E VOCIFERA: "QUERO EXAMINAR, EM PAPEL, A ESCRITURAÇÃO ERRADA!". HÁ UM OUTRO TIPO: CHEGOU DA FRANÇA E AINDA NÃO DESFEZ AS MALAS. VOCIFERA O QUE SOUBE DE ORELHADA, MAS NA TELA.

9. COM ROUPAS DE GINÁSTICA, CELULAR, IPOD E SORRISO DE FREIRA, SENTA-SE CANSADA E FELIZ, CHEIA DE AUTOESTIMA E QUALIDADE DE VIDA. POR QUE ESSA GENTE NÃO MORRE OU DESAPARECE LOGO? SERIA PROFILÁTICO.

10. LI EM ALGUM LUGAR ALGO PARECIDO:
- O QUE VOCÊ FAZ PARA CONSERVAR-SE TÃO JOVEM E COM ESSA PELE DE PORCELANA?
- BEBO GIM POUCO A POUCO E SEMPRE. É O QUE FUNCIONA.

quarta-feira, 17 de março de 2010

TRANSFIGURAÇÃO

Caminhando para o trabalho, assisti a uma cena banalíssima: um garoto, com um objeto qualquer nas mãos, simulava-se como atirador e mirava um alvo imaginário. A mãe seguia na frente e ele atrás. Fiquei pensando e prossegui assim meus passos pelo início da manhã (6h).

É curioso esse comportamento humano de todas as idades: transcender-se ou "encarnar-se" em outro. Das brincadeiras infantis quando o menino se vê (e se faz) como homem- aranha e a menina como Barbie ou uma princesa qualquer às formas mais sofisticadas e supremas das artes teatral e cinematográfica. O envolvimento do ouvinte, do leitor ou espectador também faz parte desse quadro. Que necessidade será essa? Serve a quê?

Alguns animais (penso em cachorro) simulam atos agressivos por pura brincadeira. Fingem morder. Chego a pensar que toda brincadeira animal é também simulação, ser um outro; estar numa situação hipotética, virtual.

No homem, vejo dois modos básicos: criar um outro para, nele, projetar-se, "encarnar" ou criar um outro para interação ou interlocução íntimas (mental ou espiritual, como se queira) - aqui incluo todas as religiões. No primeiro modo, penso em personagem nas mais diferentes formas de arte e, por certo, nas brincadeiras infantis.

Tomando a palavra outro com amplo espectro de sentidos, a ação de criar paisagens imaginárias (ou mesmo representá-las por meios gráficos ou pictóricos) poderia muito bem ser incluída num dos dois modos mencionados. Serve à mesma misteriosa necessidade. No limite, entre outras coisas, o homem não passa de um mamífero criador de símiles. E a música? Bem, esta nasceu quando aprendemos a imitar os passarinhos.

Então elucubro: não seria a consciência tal como a conhecemos um fenômeno recente no processo evolutivo da espécie? De forma que, ainda não plenamente adaptados a essa condição, nos sentimos prisioneiros de um casulo egótico (Epa!). Daí a necessidade de expandi-la (alucinógenos!), de transcendência (religião), de transfiguração(artes). Vai saber!

Gostoso mesmo é ficar assuntando.
PALAVRA, PALAVRINHA, PALAVRÃO

Repare bem.

Borboleta: esta até bate as asas coloridas.
Formiga: aqui ela se contrai até o pequenino. O [-ga] é sua bundinha.
Bunda: esta se arredonda sem constrangimento.
Arroto: retumbante, segue feliz, sem olhar de lado.
Azulíneo: de tão azul, fere a vista.
Escarranchar: esta vive esparramada no sofá.
Malícia: escorregadia como ela só.
Iracundo: dorme abraçada com jacaré.
Palavrório: fala pelos cotovelos.
Boquirroto: não conte nada pra ela.
Cu: compacta, só o vento passa de fininho.
Deslinde: esta acha o grão de sal na bagunça da farofa.
Tapioca: esta vem branquinha com o rabo balançante.
Farofa: já colou no céu da boca.
: etérea e vaga como a existência.
É: etérea e vaga como a essência.

Tantas como são, segue-se assim por diante. Agradecidos ficamos.

terça-feira, 16 de março de 2010

NOTAS AO ACASO

1. "Nunca se esqueça de desconfiar" (Stendhal) e de duvidar. A certeza é o pior veneno para o pensamento. Deságua em dogma e aí a burrice se instala. A incerteza absoluta não é água potável - a primeira como a segunda são apenas provisórias. Ao partirem, não deixam as camas arrumadas. Burrice ou insegurança instaladas, não adianta chamar o Corpo de Bombeiros, Médicos sem Fronteiras ou Cruz Vermelha. Duvide disto também.

2. Se bem conservado, um negativo pode durar até 200 anos. E um arquivo de imagem digital quanto pode durar? Uma câmera analógica de 40 anos fotografa muito bem até hoje. O que será de sua câmara digital (e respectivos cartões de memória) daqui a 10 anos? Pense que os computadores pessoais (com os dias contados - cloud-web)recentes já não trazem dispositivos para leitura dos antigos disquetes. O que será dos livros digitalizados se aqueles em papel não forem preservados? E aí, seu moço?!
Por isso, como bom bovino, mantenha-se em frenética e inútil correria na busca do novo, ao som de Lady Gaga, assistindo ao Titanic em 3D e fazendo muita ginástica na academia.

sexta-feira, 12 de março de 2010

PERPLEXIDADES

1. Algo esquisito anda me acontecendo. Sinto como se estivesse de mim perdendo a língua portuguesa. Ela que, antes, se acomodava a mim com apreciável conforto - como uma luva de seda, não posso esquecer - em algum momento, hoje, pareceu-me ser o pé direito dos sapatos no pé esquerdo de meus membros inferiores. Algo como acordar e, postado frente ao banheiro, não mais saber a serventia de um chuveiro, um vaso sanitário, uma pia, uma torneira e um espelho. Espelho? A que serve um espelho?

As frases mais banais, aquelas que enunciamos sem nos darmos conta, tal o automatismo, como girar a chave na fechadura, ao sairmos de casa; repentinamente parecem estranhíssimas.

Esta sensação lembra-me outra: às vezes, contemplo uma mulher belíssima e me vejo na condição de um alienígena: "Que bicho é esse, disforme e bizarro?" Assim é que "Maria comprou laranjas." me sabe a construção frasal incompreensível. Não é um súbito esquecimento do que se soube; não é desaprendizado; é - sem razão alguma - ver pela primeira vez. Assim, o fácil se faz complexo.

O que se passa? Já perdi tanta coisa na vida, mas perder a própria e macia língua é das vivências a mais perversa e inefável, que nos atira ao mais impensável abandono.

2. Túmulo é algo que sempre me causou estranheza. Sua fixidez sugere uma fortaleza inamovível, intransponível; uma permanência incontornável a encobrir uma fugacidade também incontornável: a do corpo que se dissolve na terra.

O costume de alguns povos que os faz enterrar seus próximos no próprio quintal ou jardim me intriga. Para que isto ocorra é preciso supor que aquele lugar foi e será sempre daqueles sobreviventes que o habitam. A permanência outra vez sobre a impermanência.

Imagino algo esdrúxulo: numa situação até então impensável, a família se vê na contingência de vender a propriedade. Como faz? Deixa ou leva os túmulos? Cobra mais ou menos por isso?

Mas os túmulos lá estão e lá devem ficar, como também a família. Algo tão diferente da dimensão comercial, presente nos outros pertences e terreno que, a qualquer tempo, podem ser trocados ou vendidos. Você ter seus entes queridos enterrados em seu próprio quintal deve permitir uma forte sensação de estabilidade que se origina na permanência - pares irmãos. Bem distinta da experiência existencial moderna, que padece do instável e transitório cuja foz é a insignificância de nossa vida mediocrezinha. Não à toa, as metrópoles são o que são: passagens do ninguém ao nenhum.

Deixa pra lá.