quarta-feira, 18 de maio de 2011





POÇO

Fez de certa parte sua
Membro alongado.
O bastante para sair
E dar "bom-dia",
Dizer "com licença",
"Por favor e "muito obrigado".
O resto maior jaz no fundo oculto.
Ninguém viu, ninguém sabe.
Esse observa e fala,
Certo de que só sempre esteve
No calor escuro
Que o abraça.
Também balbucia
Sob o piso da terra,
Na companhia circular das paredes.
Distante da festa nervosa
E perigosa das manhãs.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

AH...

Nessa, em qualquer outra.
Na noite, um só latido, único e bastante.
Suficiente.
Do mais escuro de mim,
Ela vem nua e sem gravidade,
Para, solta da terra, prender-se
E soltar-se de meus braços.
Em desespero de mim.
Como nuvem, e desaparecer
Na escuridão de onde veio.
Para nunca mais. Sempre.
Largando farelos de memória
Para o mingau de um negrume,
A minha substância.
Como o barco perdido no horizonte
A avisar-me
Que dormi demais,
Que meu relógio quebrou
E já estou, em vão, desperto.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

HÁ UM HOMEM

No alternar das pernas
Que ensaiam um caminhar inútil
Diante do que se lhe impõe:
O embate sobre o branco.
A caneta sem tinta,
A miragem sem descolar-se das retinas,
Como a mesa curva sem os pés,
As mãos mancas, ele sem a paisagem
Que lhe pertence, que dele vazaria.
Nada o abraça, nada dele se constitui
Num gato alado que salta,
Num voo que ninguém há de lamentar,
Da janela para o nada,
Que é um miudinho intangível,
Contínuo a desfazer-se.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

HÁ UMA MESA

Sob a caneta,
Existe o branco de um papel.
E vai continuar assim,
Em contrariado silêncio,
Aquele das vozes que não se dão as mãos.
Sob o papel há um tampo
Sobre quatro pés,
Irregular, torto.
É fruto do peso prolongado
De cotovelos preguiçosos,
De um homem que se deixou ficar.

quinta-feira, 31 de março de 2011

O BANQUETE DAS FORMIGUINHAS

Eis a experiência de segmentação: além do que é o funcionamento autônomo do cérebro, quando ele administra todo o organismo ininterruptamente, há, nele, como se sabe, um plano de pensamentos. A segmentação se dá a partir do instante em que experimentamos conviver com seu fluxo ocorrendo à nossa revelia. É frequente em mim, basta colocar os pés na rua.

Limito-me a observar os pensamentos, que não tenho nenhum poder sobre eles. Uma banda carnavalesca e bêbada de minha consciência. Como eles não são nada bons - uma miríade de reprovações a tudo que vejo - em nome de minha sanidade cotidiana, não os levo a sério. Deixo-os povoarem os vazios que inadvertidamente abandonei, como grãos de açúcar largados sobre o tampo da mesa matinal. Incomodam muito porque se ajustam como a água nos desvãos. As formiguinhas não, elas é que são doce alegria em sua faina frenética. E de saber que, para mim, pensar, entre tantos outros prazeres, ocupa poltrona majestosa ...

terça-feira, 22 de março de 2011

"EDUCAÇÃO ARTÍSTICA"

Sempre beber o vinho do copo vazio.
E observe as marés do mar ausente.
Sempre contemplar a lua no asfalto noturno.
E fume o silêncio das vozes distantes.
Sempre tomar do acaso o que ele não nos pode negar.
E goze a sombra que não se dá a ver.
Sempre abraçar a alma calada em desesperança.
E esteja em companhia da solidão mais constante.
Nunca costurar sua morte a quatro mãos.
Deixe com ela o que dela é.

sábado, 5 de fevereiro de 2011



EPITÁFIO POR CESSAÇÃO

Por fatal estasimorfia, não nos ultrapassamos. Quando foge, não percebemos; ela fugiu. Não de si ou do âmbito que a cerca. Desambientaliza-se – um fugir em si; quando muito, para o outro – a memória do outro. De tanto apequenar-se, o muito não cabe. É o pouco que se dá. Um mínimo elevado a potência negativa.
Sua estada jaz suspensa. Não está nem aqui, nem aí. Não é um mergulhar ou sobrevoar que lhe serve como descritor. Não há motivo que se lhe atribua. Nem mesmo conseqüência que da fuga resulte. Deixar de ser talvez. Destrambelhar-se em nada, em nunca.
O que, no outro, fica como memória (um “foi”) não mais a veste ou vestirá. Seu retorno não é, com ânsia, esperado, porque não se sabe o que poderá vir a ser. Sabe-se que ela mesma já não mais será.
Em nós, paradoxalmente, fica estabelecido um “ela”; de si vazio, mas, ainda assim, “ela”. Para além dos polos supostos: sujeito ou objeto.
Jamais então saberemos se a amamos um dia, amamos hoje, ou, se nos restará apenas a certeza de que não mais a amaremos. Pensando bem: posto desse modo, o que é isso? Se, agora, nem mesmo temos o que ela é, ou tememos o que ela foi?
2 de fevereiro de 2011