quinta-feira, 19 de abril de 2012

PARA LEMBRAR

"Os problemas no Brasil são sempre apresentados de maneira abstrata, principista e apriorista. Portanto, o coeficiente de análise empírica, de exame concreto de realidades verificáveis é muito pequeno. (...) Falam de noções abstratas (...). O resultado é que se restaurou no Brasil o estilo escolástico de debate. Uma das melhores definições de escolástica como estilo retórico diz que ela era uma maneira precisa de falar de coisas vagas". José Guilherme Merquior

quarta-feira, 18 de abril de 2012

"TÔ NEM AÍ"
"O homem não é antes para ser visto depois, mas ele é o ser cuja essência é existir para o outro". J. P. Sartre

Talvez seja um juízo algo hiperbólico, ainda assim...Adequar o comportamento ao espaço e ao tempo devidos é requisito incontornável da vida civil. A hiperconectividade digital de nossos tempos é o passo para sua degradação. A pessoa nunca está onde está seu corpo. Este divórcio perverso é prenúncio de muita coisa grave. Assim, a inadequação é regra em nossos dias. E tudo fica pulverizado, a começar das relações pessoais - agora não-presenciais.

Daí seguem o mau comportamento nos locais públicos (a rua, o restaurante, o cinema, a sala de aula etc.). São os chimpanzés de dedo no teclado e olhos na telinha, sem enxergar nada em volta. O outro empírico é, então, um estorvo para os egos inflados em tamanhos jamais vistos.

A vida civil que supõe o respeito ao outro (ora, este precisa sempre ser visto e considerado) caminha celeremente para a derrocada. Ninguém está onde parece estar. O corpo físico não passa de um espectro. O professor quando exige respeito e pede atenção está sendo apenas ingênuo e antiquado. Em tempos de barbárie, é outro o proceder. Ou, melhor, é desaparecer.


Visões Afins:



Stephen Marche em “Is Facebook Making us Lonely?” (apud João Pereira Coutinho):


“A internet, e as redes sociais que ela comporta, é apenas um instrumento para, não um substituo de. O desafio, leitor, não está em quebrar o aquário. Está em sair dele de vez em quando.


Sair. Desligar. Não estar disponível. Ou como escreve S. Marche, ‘termos a oportunidade de nos esquecermos de nós próprios’.


Eis, no fundo, a observação mais luminosa do ensaio: a nossa constante disponibilidade para os outros é apenas uma manifestação mais profunda de nosso insuportável narcisismo. E o narcisismo, como sempre, nasce de uma insegurança que procuramos preencher com o culto doentio do ego.


Pensamos que somos tão imprescindíveis que temos de estar presentes 24 horas por dia na vida alheia. E vice-versa: pensamos que somos tão importantes que os outros têm de estar permanentemente disponíveis para nós (J.P. Coutinho).






Norman Doidge (O Cérebro que se Transforma), psiquiatra canadense, em entrevista:


A interatividade do computador altera o cérebro para o bem ou para o mal?


Desconfio que mais para o mal do que para o bem. Os equipamentos eletrônicos são tão compatíveis com o nosso cérebro, que também é movido a eletricidade, que alteram a nossa atenção, tornando-nos viciados em tecnologia. O vício é um fenômeno plástico e não se aplica só às drogas. Pessoas se tornam viciadas em corrida, em jogo, em compras, em paixões. O homem supõe que controla os dispositivos incríveis que criou. Meu temor é que esteja acontecendo o contrário: todo esse aparato tecnológico é que está nos reprogramando. (Veja, 21.XII.2011).


segunda-feira, 26 de março de 2012

PRESUNÇÃO

Na longa noite de algum tempo,
Se assim fosse:
A luz da cozinha que se esquecesse acesa;
Um garfo que se quedasse abandonado sobre o prato;
O açúcar sujo na xícara, no fundo da pia;
O batom e os grampos que se repousassem sobre a penteadeira;
As sandálias azuis mal arranjadas num canto;
As toalhas desalinhadas;
Longos fios de cabelos em inesperada visita;
Uma torneira mal fechada
E o vestido de ontem na beira da cama
Com a beleza que ensaiasse a forma
Que o recheava.
Quisera,
Pudera se mesmo assim fosse
Na minha longa noite sem sonhos
E sem manhãs.

sexta-feira, 23 de março de 2012

ECONOMIA


Como sou um caminhante convicto (mas não fanático), observo muito o chão e os seres que o habitam, ainda que aos percalços; em São Paulo, para andar nas calçadas, é preciso ser um pouco lebre. Pois bem, têm me chamado a atenção as guimbas atuais. Elas são a expressão da sovinice moderna - bitucas mesquinhas.

Explico: há certo tempo, eram generosas. Qualquer um, em petição de miséria, poderia delas se servir, numa espécie de duplo uso para os cigarros. Ou: um jeitinho no combate à desigualdade social ao rés do chão. Percebam o "dó de peito" daquelas guimbas e cigarros: cumpriam uma função social e atendiam ao meio ambiente ( o duplo uso). Não é lindo?! Mas andei pensando mais.

Economistas não são mamíferos confiáveis, como não são suas brutas estatísticas cuja origem ignoramos. Seus prognósticos são uma "piada pronta", nunca os leve a sério. E o que pensar de seus indicadores econômicos? Entendeu agora por que suas falas e escritos são ilegíveis? São esotéricos e você é um apedeuta. Avancei na reflexão.

As guimbas são os melhores e mais confiáveis indicadores econômicos, basta "lê-las". E o que elas "dizem" sobre os dias que correm? Ouça com carinho: "A grana anda tão curta que não é conveniente desperdiçar cigarros (ignore os doidinhos do antitabagismo). Fumar é até o fim, e que se danem os miseráveis, tolos vigilantes do chão das ruas. As bitucas de hoje são a coisa mais triste que se pode ver nas calçadas paulistanas. O moderno extremado não queima os cigarros, queima logo os mendigos.

terça-feira, 20 de março de 2012

FEVEREIRO E MARÇO

Três horas da manhã. Faltavam limões. Todas as calçadas e calcinhas estavam molhadas. Chovia nas solas. Dois abacates presenteados e muita fome. Uma mulher, quatro uísques e pouca literatura.

Não gostava mesmo da esquina depois da qual o piso se inclina e uma ladeira perversa se forma a turvar-lhe o horizonte, a moer-lhe o joelho esquerdo. Odiava que sua atenção se prendesse apenas aos pés e pernas. Era um homem de largas luas e aliterações obsessivas. Literatura vagabunda e estômago desorientado.

Cobriu o pijama com as roupas da cadeira. Olhou aquele corpo na cama, apagou as luzes, trancou a porta e se movimentou para os elevadores. Quase no térreo, viu: ainda portava um par de chinelos e um pé de meias furado. Voltar? Não, ir assim mesmo. Quem é que liga? Argh! Dois limões e uma ladeira. A passagem para março de um ano ainda interminável. Puta que pariu!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

NUNCA É "BEM ALI"


"O inimigo é nosso melhor professor". A origem da frase parece ser tibetana, a confiar num filme americano vagabundo a que assistia numa madrugada dessas. Bem, resolvi pensar, o que é um perigo. Vamos lá.

De que forma isso pode ser? Por suposto, revelando nossa vulnerabilidade.

Se desenvolvemos a consciência de nosso próprio limite, ainda assim, só nosso inimigo de fato é capaz de enxergar, em nós, a fragilidade de consciência. Em outras palavras, aquilo que restringe a consciência que pretende avistar o limite. O horizonte divisado é dimensionado de um ponto relativo. Há inumeráveis outros pontos. Nosso limite é sem tamanho, não-dimensionável. Professor nenhum ensina o que não sabemos, podemos ou queremos aprender, na incompletude do aprendizado.

A consciência do limite é passageira, provisória. O inimigo é nosso melhor alerta para a noção básica de que há um limite provável e de que ele não é um muro, mas o instável das possibilidades difusas, que se bifurcam ("plurifurcam") em complexidades crescentes. Fica, portanto, claro, subitamente, que o inimigo é o verdadeiro limite e, desse modo, podemos saber que sua existência é um bem. Por isso deve ser conhecido, preservado e respeitado.

O mal está, sem ter um lócus, sempre em outro lugar impermanente. Assim, determiná-lo, estabelecê-lo, estabilizá-lo e dar-lhe contornos nítidos é somente uma de tantas outras formas de nos iludirmos em conforto derrisório; ficamos na detenção de um, entre tantos outros, ponto de vista e de um, entre tantos outros, horizonte moral. Cegos e condenados à indignação constante.

A nós, cabe apenas conhecer o chão frágil sobre o qual devemos pisar com ampliada cautela. Modestos, discretos, humildes em nossa ignorância incontornável.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

21 ACONSELHAMENTOS PARA UM OLIGARCA DE PRIMEIRA VIAGEM

1. Se queres, toma. Se fores tomar, toma logo.

2. Se for preciso a força, usa. E dá uma desaparecidazinha. É para o noticiário esfriar.

3. Mantém lugares-tenentes bem pagos.

4. Só volta bom tempo depois, o necessário, ciente da posse plena dos bens alheios. Rico o bastante para não deixar dúvidas e espalhar medo suficiente; o que compra subserviência e lealdade permanentes.

5. Não te faças político. Manipula pela sombra e compra o que sobrou. Os políticos são negociáveis no mercado de piolhos.

6. Compra legisladores e juristas de fancaria. Há de sobra. Estarás a salvo de amolações processuais. Serás então figura de respeito.

7. Associa-te ao santo do entorno e empenha teu séquito de bajuladores em vistosas obras de caridade. Terás a gratidão dos humildes e a inveja dos poderosos locais. Muita atenção agora. Chama alguns deles e ajuda necessitados em seu nome, discretamente. Ficarão agradecidos e envaidecidos em sua sórdida hipocrisia.

8. Quebra a espinha de teus inimigos pela faca ou pelo suborno. Interpostas pessoas - policiais são boa escolha. Obterás o silêncio e a vigilância da cumplicidade.

9. Parece bobagem, mas não é. Não sentes; altaneiro e ativo à luz de todo o dia.

10. Cuida da aparência sempre: testa larga, lisa e lustrosa; fios capilares alinhados a cola, tingidos se preciso for. Roupas caras, imaculadamente limpas e engomadas. Calçados brilhosos; postura ereta; mãos macias sobre as cabecinhas das crianças. Cuida dos dentes. Riso largo sobre a face lavada de inocência. Tu estarás por cima sem, no entanto, pisar. Parece bobagem, mas não é.

11. Recebe e não sejas recebido. Atende e não sejas atendido.

12. Doa e não reveles o preço. A paga virá sem que tenhas sequer cobrado. Existem lambe-esporas a mancheias.

13. Mostra ou inventa o passado de pobreza que soubeste superar. Uma vida de labuta incessante até a vitória presente. Do nada à glória refinada pela simplicidade que se apresenta. Um coração que não humilha, mas que aquece e protege.

14. Aloca parentes e afilhados em postos chaves da administração pública. Usa um artifício: instala os parentes e afilhados de teus amigos; estes saberão alocar os teus.

15. Lembra: aliado nunca é de ocasião; este pode trair-te. Aliado é aquele de sangue, de uma vida. O preço da traição é a morte com ocultação de cadáver.

16. Não te preocupes em pagar tuas pendências com o poder público. As dívidas que tiveres acabarão esquecidas ou anistiadas. Quanto maior o débito, maior o perdão de reconhecimento.

17. Mente sistemática e coerentemente; não desmintas; põe-te atento aos detalhes. Guarda boa advocacia na algibeira.

18. Não te metas em escândalos sexuais. Faze tuas farras na Europa. Há bons profissionais no ramo. Aparenta sempre honrar a família e os bons costumes.

19. Não deixes rastros. Aí está o segredo e a ciência. Terceiriza tudo.


20. Cobre-te com o véu da honradez. Protege teus canalhas de estimação. Escreve sonetos.

21. Segue disciplinadamente tais conselhos, até o fim de teus dias ativos. No Brasil, as dinastias costumam durar muito. Vale a pena.