sexta-feira, 21 de setembro de 2012
A escola, hoje, é um vazio preenchido com tagarelice pseudopedagógica. De nada adianta reclamar dela, buscar o que lhe falta. Seu oco é seu recheio. Melhor será rasgá-la como a energia escura nos atravessa; como um fantasma, nossa condição mais astuta. Os alunos conhecem isso à perfeição. Penetre-a para além dela e prometa a si mesmo nunca mais voltar.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Numa perspectiva temporal, uma sucessão de instantes entre um "desde que..." ao "até que...".
Numa perspectiva orgânica e psicológica, um mover-se sistemático e insistente para uma situação de conforto e acomodação.
Numa perspectiva evolutiva, agir para replicar-se com o(a) melhor parceiro(a). Tudo pela prole.
Numa perspectiva moral, "quem pode mais chora menos" ou "farinha pouca, meu pirão primeiro".
No plano filosófico, a ausência de sentido; um saco furado de insignificações onde são colocados propósitos que se perdem a todo instante em micromortes - os momentos.
Seu Domínio
No plano físico, ações entram em andamento para suprir o organismo de água e nutrientes, num ambiente de equilíbrio térmico. Alternando atividade e repouso. Território da vontade e da racionalidade na obtenção de máxima eficiência.
No plano mental, observações, indagações, reflexões, avaliações e decisões entram em andamento para a satisfação de desejos de amplo espectro na dimensão afetiva. Ainda a busca de acomodação e conforto.
As Zonas Cinzas
Em ambos os planos, a relação chave acontece entre o dentro e o fora. No plano físico, reina o cérebro, o grande gerente. O fora e o dentro se interpenetram.
Aí, a consciência é uma espécie de operária. Esta experimenta a impressão de que o fora é tudo e o dentro é nada, porque invisível, ainda que seja permanentemente sondado (às cegas) e revelado por sensações de prazer e dor. Os canais daquela interpenetração são decisivos por todo tempo considerado: órgãos físicos variados de entrada e saída.
No plano mental, o fora e o dentro também se interpenetram. Aqui, a consciência é uma espécie de gerente incompetente, porque de poder restrito em ambiente de alternância entre certeza, dúvida e ignorância; na tentação permanente de ceder ao autoengano. Fora, ela é cheia e clara.
O dentro é vazio e escuro. Fora de governo. Mais uma vez, reina o cérebro. A inter-relação do fora e dentro aparece nos sonhos. O dentro é também invisível (imperceptível pela consciência); também sondado às cegas por múltiplas sensações de prazer e dor, de nuances inefáveis.
Aqui, Tudo e Nada se confundem: às vezes, dentro parece tudo; o fora, nada. E vice-versa. O jogo de essência e aparência; imanência e transcendência.
Eu e Outro são os dançarinos desse balé obscuro entre infesto e cordial, porque em palcos de medo e segurança. Algoz e vítima em frenético intercâmbio de máscaras.
Num recuo gnoseológico, as zonas cinzas também estão entre os grandes planos físico e mental - "organicamente" articulados e integrados.
Uma pantomima sagrada e abusada de interações: químicas, físicas e psíquicas. E a demasiada interação das interações.
O esforço para conhecer é sempre um exercício de cegueira - vale pelo esforço em si e não por seu propósito. A busca de resultados esclarecedores é vã.
O porto de chegada é vacuidade e melancolia. É quando inventam religiões. Ao mesmo tempo, um perigo e um consolo.
setembro de 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
A convivência com certo grupo de pessoas me põe diante de alguns problemas que, habitualmente, não me ocupam: deus, deuses, existência depois da morte, criação do universo... Não é um grupo ímpar. É grande e, às vezes, me parece que se amplia. Resolvi, portanto, pôr ordem nas peças de meu tabuleiro, escrevendo o que segue. Adianto que não tenho pretensões de pensar filosoficamente. O que me falta em rigor sobra em anarquia de espírito. Penso e escrevo com a angústia do homem anônimo. O rigor, como trilha excludente, me engessa, me tolhe e me faz ágrafo.
Há um sentimento axial que aparta uns de todos os muitos outros: a melancolia. E não se trata de atribuir-lhe uma negatividade que não é própria dela. Diz mais respeito à postura da pessoa face aos mistérios do mundo. Diversamente do religioso - a quem se imputa, equivocadamente, positividade - o melancólico vivencia o "estar aqui" como quem soubesse que, para as perguntas essenciais, não há respostas.
Vê-se, assim, só, num mundo povoado de abundância de crenças que nada lhe dizem, que nenhum sentido carregam a não ser fantasias confortáveis. Sobre estas, resta-lhe o silêncio, sua proteção para o caldeirão de paixões e irracionalidades de toda ordem.
A melancolia não divide a cama com a depressão; ao contrário: há permanente prazer em caminhar pela noite dos mistérios insondáveis da existência. De forma que põe a pessoa numa constante busca, num estado de reflexão cotidiana. Uma curiosidade incansável. Respostas lhe sabem a modorra do pensamento, a um repouso indesejado.
A pessoa melancólica não carece de nenhuma forma de pertencimento. Todo gregarismo se impõe a ela como brutalidade. Avessa a doutrinas e dogmas, tem como alimento a dúvida infatigada. A unanimidade lhe é tóxica. Daí, lhe atribuírem a designação de antissocial, quando não passa de alguém hostil a convivência frívola, à torcida camarada e à tagarelice. Esses motores de enfado e celeuma desagradáveis e inesperadas.
Recolhimento e sossego são seus estados cultivados - condição para o exercício de suas atividades mentais, que predominam sobre as outras físicas. O melancólico é cerebral, dado a minudências, a constantes verificações e a dilemas incômodos. Incapaz de sambar na avenida e de efusões memorativas. Gritos de júbilo.
Entre o livro e o cinema, o silêncio das palavras. Entre a sinfônica e o quarteto de cordas, o violoncelo. Entre o céu chapado de azul e a abóboda enfeitada de cúmulos e nimbos, as nuvens caminhantes. Parece parado, mas sua vida é um andar sem fim e sem destino. Pleno de propósito.
agosto de 2012
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
VAI E VEM
A casa é mãe; a rua é pai.
A casa é piso; a rua, medo.
A casa é voz; a rua, grito.
A casa é terra; a rua, pedra.
A casa é fogo; a rua, lenha.
A casa é farta; a rua, caça.
A casa é farinha; a rua, pirão.
A casa é o mesmo; a rua, vária.
A casa é crença; a rua, dúvida.
A casa é piscina; a rua, enxurrada.
A casa é alma; a rua, corpo.
A casa é osso; a rua, carne.
A casa é fiança; a rua, crédito.
A casa é vadia; a rua, escravidão.
A casa é silêncio; a rua, celeuma.
A casa é sã; a rua, enferma.
A casa é sombra; a rua, incêndio.
A casa é céu: a rua, nuvem.
A casa é cama; a rua, sono.
A casa é água; a rua, sede.
A casa é mansa; a rua, faca.
A casa sou eu; a rua, outro.
Dorme a casa; a rua vaga.
A casa é ponto; a rua, vírgula.
A casa é quase sempre; a rua, nem sempre.
Mas, um dia, em vigília, eu soube um segredo:
Enquanto a casa vaga, a rua dorme.
E a família ferve.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Às Margens do Parque
As uvaias de outono caem das altas galhadas. Vão se encontrar mortas comigo no piso molhado das manhãs escuras de fim de maio.Quando vou trabalhar, nas calçadas mórbidas de São Paulo, entre cacos de dor. Chamam-me a atenção porque me trazem nuvens de infância, as das bocas molhadas de frutos fartos de quintais e de passarinhos. Sigo em frente.
Jovens bêbados, moças prostituídas saem de portas e becos sombrios;automóveis histéricos, gritos e agitação findando. Sigo em frente. Sou agredido, que estou só e caminho para o trabalho; vestido para o trabalho. Não para a dissipação da noite que nem mais me interessa e que já habitei. Não sou deste mundo. Não mais; na verdade, nunca fui.
A dissonância entre esses jovens e os trintões (quarentões, cinquentões?) é enorme. Entre mim e todos eles? Nem dizer. Se precede uma ogeriza a essas criaturas, procede um riso aberto ao lero-lero. Eles não sabem nada e me fecho. Não têm história, nem futuro. Articulam-se verbalmente como ébrios moribundos.
Ah, mas havia alguns entre eles, preciosos. Já os vi, estavam por aí, entre minhas mangueiras, abacateiros e goiabeiras. Depois, os deixei e tornei-me um deslocado. Hoje sou antiquado. Estou fora, um réu eterno.
Piso Molhado
Ainda noite escura, saio.
Vou trabalhar.
Entre meus dedos, os passos
Hesitantes de um andejo.
Desvios súbitos frente
Aos cachos de uvaias moribundas,
Os anfitriões do outono frio.
Nas minhas mãos, os desvãos da noite,
Do vinho e das carnes,
Da má digestão nas águas finas
Das manhãs oferecidas.
Nos silêncios arrombados
Pela cidade estúpida
Que perdeu o céu e o horizonte
Das formigas e abelhas em fuga.
Desenho, desvelo minhas passadas mecânicas,
Furando a noite desnutrida
Em busca de um mim afável,
Prisioneiro das mandíbulas
Do dia que grita e morde.
junho de 2012
ADEUS
Quando, ontem, me disseram que as asas se dobram ali e se quebram acolá, fiquei apreensivo. Preparo-me para a fuga permanentemente. Minhas asas, já cansadas pela idade, pouco me adestram. Mas pensei, pensei em nó frígio - o que é incontornável e intransponível: fugir para onde? A mais inconveniente das indagações, a que me põe diante de mim e do tempo, do inamovível. Fugir? Não. Desaparecer. As asas serão as folhas secas sobre que até as árvores desconversam. Livre, serei memória, móvel como todas, intangível. Um chocolate esquecido no assento, no vagão de um trem sem trilhos.
EQUIVALÊNCIA
Como pássaros que nos oferecem mel,
Pousados como frutas
Nos galhos das nuvens.
Um sopro de encanto
Na esquina das madrugadas mais sinistras
De nosso recolhimento,
De nossa rosca sem fim,
No intestino de nosso travesseiro,
De nossa dor mais insincera,
De nossa autoindulgência
Mais vil. Nossa mais humana condição.
Uma vergonha surrupiada pelo oblívio.
SE LHE APROUVER
Licenças concedidas. Visitas se fazendo. Jardim tomado por mato e galinhas. Varanda ampla e vazia. Casacos e guarda-chuvas no vestíbulo. O fatídico envelope nas mãos. Mármores sentados diante de um esqueleto mole. Assuntos gravíssimos a tratar. Dia claro. Tanta dor. Minha infância lá tão próxima. Café fraco e frio no fundo das porcelanas desbotadas. Círios acesos nos quatro cantos da mesa, na refeição bizarra de nosso fim. Uma vida nos dedos trêmulos. Pousam lá fora, próximos, pardais tagarelas sem convites. Ouvir aquilo com o desejo de também voar. E estar ali como chumbo. A vida que foi de todos e é de ninguém. Sentir por inércia, mais uma vez, que todos nós, uns antes outros depois, seremos apodrecidos. O sol repentino. A luz varando as cortinas puídas. Por dentro, a noite mais íntima. As unhas que não cortei e a barba que não fiz. Cabelinhos nas entranhas das ventas, nas narinas indesejáveis. Choveu muito quando não deveria chover sobre meus erros. Longe, ouço um grito feminino que chama por crianças que desapareceram na farra das poças. Folhas úmidas, em franco ócio, no piso de madeira gasta da entrada. A porta aberta me concede permissão para voos mágicos. Não tenho para onde correr nem como evitar. Vontade que não depositei nos olhos que não pedi que se abrissem. Cimento-me e disponho-me em prontidão para o horror das falas afiadas no silêncio de frios das facas.
DO INÚTIL EM DIZER E PENSAR
Pois encheram minha infância de balinhas metafísicas. Deram-me censura, honra e medo. Tornei-me um homem capenga. O que assim chamam. Olho plantinhas que nascem, de qualquer modo, nos vãos das pedras. Olho as águas esparramadas e os quebrados da calçada. Lamento a música e o desespero das noites. Não sou daqui nem daí. O que vejo então? Pessoas mordendo lábios lacônicos. Prefiro insetos e as aranhinhas que tecem teias físicas e me dizem: você não passa de um saco de tripas empatando nossos dias. Sigo, com cautela, meus passos que vão à frente.
Salvador, 24 de julho de 2012
domingo, 22 de julho de 2012
"A incapacidade de a linguagem encobrir a experiência real me fascina. Gosto da exposição do fracasso da linguagem, pois sempre haverá uma zona de indeterminação, de incompletude. A morte estará sempre à espreita, porque é a linguagem que a carrega dentro de si". Carlos de Brito e Mello
Duas palavras me causam um leve incômodo aí: "recobrir" e "morte". Ainda que concorde com o exposto, as trocaria por "revelar" e "silêncio" respectivamente. Não estaria dizendo coisa diferente de C.B.M: "revelar" remete a "véu" e, portanto, "cobrir", "encobrir". O "silêncio" precede e reveste a "morte". Os moribundos, pela ordem natural das coisas, em seus instantes finais, também se calam. A linguagem recolhe-se à sua insignificância, à sua impermanência e impertinência. Para morrer com o morto. Se a morte, na maioria das vezes, não manda aviso, a linguagem se engrandece à medida que se encolhe na fronteira de seus próprios limites; na insistência muda de quem não ousa falar. Seu último e escuro desejo. A linguagem passeia saltando silêncios.
Salvador, 16 de julho de 2012