segunda-feira, 12 de novembro de 2012

QUESTÕES DE CARÁTER


1. A água - a única e exclusivamente constituída de H20 - é água. As outras, são brasileiras.

2. Repare: aquele que corre o faz sem olhar para o céu; poucas vezes para frente ou lados. Seu horizonte é o chão. Concentra-se em si, no ritmo respiratório, na velocidade das passadas. Espaço por quantidade de tempo e vice-versa. Sua vida é uma soma de anos; quanto mais, melhor, por isso instrumentaliza o corpo. Corre como investimento.

Aquele que anda o faz olhando para onde bem quiser, ao sabor dos ventos ocasionais, que seus passos acontecem quase sem nenhum esforço; sua respiração se dá de forma natural. Ele está disponível para o devir da existência, aberto para o mundo, atento ao que o cerca, rente à vida, mergulhado nela.

Para o primeiro, o corpo é operacional; para o segundo, ele e corpo são unidade indivisível, e a vida um insondável "milagre", de durabilidade indefinida.

3. O mesmo do mesmo: as autoridades brasileiras preferem criar dificuldades a facilidades, para todos. Sempre. Sua idéia de democracia madura é povo em filas intermináveis (reais ou virtuais). Dizem-se gestores modernos - cínicos, são geridos por interesses alheios e dos grandes. Nem conhecem o que dizem gerir. São malévolos usurpando o que não lhes pertence. Que "queimem nos infernos". Axé!

4. Comentário: nenhum. Não tenho mais “saco”, como qualquer brasileiro de sapato furado. O que não deixa de ser um paradoxo.

sábado, 10 de novembro de 2012

FILOSOFIAZINHA


Todos saberemos, um dia, o quão tolos fomos hoje.

Todos saberemos, um dia, que se, hoje, não sabemos quem somos, nunca saberemos.

Todos saberemos, um dia, que nunca importa o que pensam de nós. Idiotas que somos todos nós.

Todos saberemos, um dia, que pouco importa ignorar nossa origem e fim, a ignorância é de todos.

Todos saberemos, um dia, que crer ou descrer são bobagens. Como ser ou não ser.

Todos saberemos, um dia, que o que valeu a pena ali, não valeu acolá, assim ...

Todos saberemos, um dia, que nossas firmes convicções atuais não passavam de nuvens esquecidas pelo vento.

Todos saberemos, um dia, que nossas esperanças foram tragadas pelo tempo e que este, sim, nos torna o mais banal entre banais.

Todos saberemos, um dia, que ter esperado tanto foi nossa sina, numa estação vazia, despida de ferrovia.

Num dia qualquer - isso sabemos desde sempre - estaremos todos mortos. Assim, é de bom alvitre descontrair.

novembro de 2012

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

MULHERES


Pode casar comigo,

Pode me enganar comigo,

Mas não vai comigo.

Pode beijar comigo,

Pode abraçar comigo,

Mas não vai comigo.

Pode amar comigo,

Pode "azar" comigo,

Mas não vai comigo.

Comigo ninguém vai.

Comigo sou. Única.

Eu mia amigo.

Vai! Mas não comigo.

Novembro de 2012

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

ESSE POVO


Faz algum tempo que sinto tomar-me a sensação de que sou irremediavelmente antiquado e que estou convictamente na contramão. Enumero algumas de minhas incompatibilidades com o tempo hodierno:

1. O barulho de todos os lugares em suas múltiplas formas: músicas, falas e máquinas. Todas insuportáveis e insalubres. Nem música é; nem fala é, mas percurssão e balbucio recheado de "porra, caralho".

2. Quaisquer manifestações humanas ocorrem em manadas de bovinos: vestimentas, penteados, visitas a museus, cinemas, esportes, eventos de toda ordem, preferências culinárias, manifestações de protesto, redes sociais. Usam o termo tribo para o que, de fato, é turba burra.

3. Tudo começa de mansinho e logo vira mania de manadas com seus respectivos pregadores, por exemplo: bicicletas (os bovinos preferem bike) e comida orgânica (ou qualquer coisa assim).

4. Difícil é ver, nas ruas, pessoas sem apêndices eletrônicos de toda espécie ou sem conectividade patológica, portando coleiras elétricas: o celular.

5. Pensar consigo e em silêncio está desaparecendo. As pessoas dedilham aparelhinhos.

Tudo disso é consequência e traz consequências. Ninguém quer pensar, ninguém está interessado. Querem ser iguais entre iguais. Quanto mais pretendem se tornar visíveis por inúmeros artifícios mais mergulham na mesmice daqueles que não enxergam o que está em sua frente, com exceção, é claro, da tela, do teclado e do fone de ouvido. Eu, sem nenhuma tristeza, sou uma desordem assente. Prefiro nunca sair de casa. Podem ir, que não vou. Silêncio, por favor.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

NA PONTA DO LÁPIS


Como a noite vai
E mais em mar nenhum
Sou
Para quem qualquer for
Tenho o de mim
O que de mim sou
Ou o que restou de mim
Assim sou
Uma espécie de começo
Do fim.

outubro de 2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ESSA COISA

A escola, hoje, é um vazio preenchido com tagarelice pseudopedagógica. De nada adianta reclamar dela, buscar o que lhe falta. Seu oco é seu recheio. Melhor será rasgá-la como a energia escura nos atravessa; como um fantasma, nossa condição mais astuta. Os alunos conhecem isso à perfeição. Penetre-a para além dela e prometa a si mesmo nunca mais voltar.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

GRANDE DEMAIS

Numa perspectiva temporal, uma sucessão de instantes entre um "desde que..." ao "até que...".

Numa perspectiva orgânica e psicológica, um mover-se sistemático e insistente para uma situação de conforto e acomodação.

Numa perspectiva evolutiva, agir para replicar-se com o(a) melhor parceiro(a). Tudo pela prole.

Numa perspectiva moral, "quem pode mais chora menos" ou "farinha pouca, meu pirão primeiro".

No plano filosófico, a ausência de sentido; um saco furado de insignificações onde são colocados propósitos que se perdem a todo instante em micromortes - os momentos.


Seu Domínio

No plano físico, ações entram em andamento para suprir o organismo de água e nutrientes, num ambiente de equilíbrio térmico. Alternando atividade e repouso. Território da vontade e da racionalidade na obtenção de máxima eficiência.

No plano mental, observações, indagações, reflexões, avaliações e decisões entram em andamento para a satisfação de desejos de amplo espectro na dimensão afetiva. Ainda a busca de acomodação e conforto.


As Zonas Cinzas

Em ambos os planos, a relação chave acontece entre o dentro e o fora. No plano físico, reina o cérebro, o grande gerente. O fora e o dentro se interpenetram.

Aí, a consciência é uma espécie de operária. Esta experimenta a impressão de que o fora é tudo e o dentro é nada, porque invisível, ainda que seja permanentemente sondado (às cegas) e revelado por sensações de prazer e dor. Os canais daquela interpenetração são decisivos por todo tempo considerado: órgãos físicos variados de entrada e saída.

No plano mental, o fora e o dentro também se interpenetram. Aqui, a consciência é uma espécie de gerente incompetente, porque de poder restrito em ambiente de alternância entre certeza, dúvida e ignorância; na tentação permanente de ceder ao autoengano. Fora, ela é cheia e clara.

O dentro é vazio e escuro. Fora de governo. Mais uma vez, reina o cérebro. A inter-relação do fora e dentro aparece nos sonhos. O dentro é também invisível (imperceptível pela consciência); também sondado às cegas por múltiplas sensações de prazer e dor, de nuances inefáveis.

Aqui, Tudo e Nada se confundem: às vezes, dentro parece tudo; o fora, nada. E vice-versa. O jogo de essência e aparência; imanência e transcendência.

Eu e Outro são os dançarinos desse balé obscuro entre infesto e cordial, porque em palcos de medo e segurança. Algoz e vítima em frenético intercâmbio de máscaras.

Num recuo gnoseológico, as zonas cinzas também estão entre os grandes planos físico e mental - "organicamente" articulados e integrados.


Uma pantomima sagrada e abusada de interações: químicas, físicas e psíquicas. E a demasiada interação das interações.

O esforço para conhecer é sempre um exercício de cegueira - vale pelo esforço em si e não por seu propósito. A busca de resultados esclarecedores é vã.

O porto de chegada é vacuidade e melancolia. É quando inventam religiões. Ao mesmo tempo, um perigo e um consolo.


setembro de 2012