sexta-feira, 24 de março de 2017


A TUA CARA

Um homem em branco,
Incapaz.
Sem saber o que dizer
De si, daquilo que, das lascas
Das árvores, da memória, do que não dormiu.
Um homem que abriu os jornais
Velhos para, súbito, morto,
Saber o mesmo. Um homem
Sem sonhos e sombra. As noites
Esquecidas. Um homem
Em branco, no papel,
Na verdadeira língua
Sua. Eis:
O que perdeu o trem
Na estação errada.
O branco do homem com lápis
Sem borracha.
Cigarro na boca e a cama das águas
Em fogo. Um sim do não sem fôlego.
A urina nos dedos. Um homem em branco
E a luz nos espelhos miúdos,
Da cabeça dos pregos, dos parafusos perdidos,
Das linhas sem agulhas, dos fios sem destino,
Dos botões sem camisas.

A. R. FALCÃO - MARÇO DE 17

quarta-feira, 1 de março de 2017


UMA NOVA MODALIDADE
Um brasileiro anônimo apresentará, em fevereiro próximo, um projeto ao Comitê Olímpico Internacional. A ideia surgiu após caminhadas por calçadas paulistanas e baianas. Consiste em "chute à pedra", o nome do novo esporte. A pedra é colocada num pavimento de concreto, deve ser de tamanho grande. O atleta se põe diante dela e, com toda força possível, procede aos chutes, dedão à frente.

A pontuação ocorre de duas formas: medição do deslocamento da pedra e número de chutes efetuados. A premiação também se dá de duas formas, à escolha do atleta: amputação grátis do membro dilacerado ou duas semanas em Caracas com tudo (nada) pago e direito a cesta básica. O brasileiro criativo espera obter sucesso com apoio de paulistanos e baianos.

REMETENTE

As dobradiças das portas
E janelas
São novas.
A grama está aparada.
E as azaleias estão floridas.
As laranjeiras, carregadas.
Não há tiriricas na calçada,
A rua foi varrida e eu,
Estou no telhado, com binóculos:
O trem não chegou, não há ônibus.
Correio não há.
Mas a casa,
Agora, mais uma vez,
Será fechada, quando já foi.
Tudo será "há muito tempo",
Porque vou dormir
Em direção incerta,
Em travesseiro amorfo,
Num homem difuso,
As cortinas abertas.


PARTI PRIS

A mão não deveria
Estar aí
Visto que passageira
No furacão dos dias.
Aí é a pedra,
Senhora dos tempos.
Por cima ainda,
É mole a mão,
A rocha não,
É compactada pela vez,
Lastro em assegurada serventia.
A mão é flutuante,
A pedra é permanente
Em seu soberbo sossego.
A mão é volúvel,
Furta, bate
E, quando afaga,
A aleivosia mais quer que dá.
A pedra, em seu silêncio, escuta
E lacra os mais incofessáveis segredos.
Sussurre seus amores improváveis.
A mão finda,
A pedra não,
Sela o que jaz apodrecido.
É sobre ela que
Rezam os homens das perdas
Entristecidos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017


SENILITUDE

Velhice é interioridade que se amplia para o vazio. Uma idade muito avançada parece caracterizar-se pela penetração numa sala vazia cujas paredes são povoadas por sucessivas gavetas, nas quais estão recolhidos eventos remotos e medianamente antigos. 

A vida interior do velho se dá pelo abrir aleatório de qualquer uma dessas gavetas e narrar, para si ou para interlocutor, o evento escolhido ou que escapou espontaneamente. Como o número de gavetas é limitado, as evocações tendem a repetir-se.

Nessa sala desprovida de móveis, objetos e pessoas, há unicamente o si no escuro silêncio das gavetas. O si de si assemelha-se a um pântano em que o velho está mergulhado, e estará progressivamente mais e mais afundado. A memória dos fatos recentes é muito rala; às vezes, desaparece, porque não existem recintos para armanezá-los.


A morte natural é um afundar-se definitivo no mais íntimo de si, de onde não haverá retorno; de olhos abertos ou fechados; acordado ou dormindo num sonho que não mais poderá ser lembrado ou narrado e, assim, todas as gavetas estarão, para sempre, lacradas. O enterro ou a cremação é a forma que os homens têm para demolir aquela sala das gavetas, para secar aquele pântano dos mergulhos. Restará aos descendentes simulacro dos eventos memoráveis, num arremedo de biografia oral, a maneira que o velho teve de não desaparecer em sua sobrevida. O si de si é muito esperto.

NADICA DE NADA

Às vezes, muito às vezes,
Uma formiga atravessa a mesa.
Quase sempre, um inseto alado
Cruza o ar em voo, sem escalas,
Para Paris. Eu fico.
Em minhas mãos, muitos camelos.
Em meus olhos, que são desertos úmidos,
Gotas das coisas muito antigas
Que coloriam sombras
Em meu quintal da infância.

UMA BAHIA SEM JILÓ

Escolher quiabos ou orações? Para minha vizinha de compras, orações; para mim, os primeiros (ou qualquer coisa) menos as segundas.
Alguns escolhem batatas, outros bananas. E todos saem cheios de sacolas para a manhã baiana, que é ensolarada e quente.
O mar larga-se supremo em seu repouso inquieto e nervoso de maré cheia.
Patrões e patroas dormem ou dirigem seus carros pratas, pretos ou brancos. Mania local (ou nacional) e tediosa em sua falta de personalidade. Os brasileiros tornaram-se "manadeiros". São todos burros, iguais e riem  do que não é pra que rir.

Os passarinhos sumiram. Asfalto não é pra eles. Talvez, para os peixes também; para os calangos, e todo o resto. Ao fundo, um "balança-bunda", que é algo intragável, permanente e identitário da chamada Bahia atual. "Triste Bahia" como já escreveu Gregório. E a horda segue inadimplente.