segunda-feira, 26 de janeiro de 2015


NOTAS BAIANAS

  A VER
 
Na Bahia, o verão avança por palavrórios retumbantes e gorjeios estentóricos, nas noites sonorosas. A sarrabulhada se esfalfa nas baladas escancaradas. Prima-dona$ prometem coxa$ gorda$ e canoro$ grisalho$ ofertam mesmices aí pelos 800 mil reais. Bulhas, uma borracheira! Quem quiser que vá, pois eu não vou.



 A GRAÇA MAIS LINDA
Um negocinho encantador que saltita seu preto-e-branco, se esquivando de nossas passadas. Fosse amarelado, seria um bem-te-vi anão - seu parente mais próximo. Preguiçoso de voar, seu assunto é perambular no chão. Tivesse laranja o papo, seria um sabiá prematuro. Não anda em par, é um tira-prosa. Como nossa sombra no calor senegalês a pleitear desmembramento; um píon no país das passaradas. Responde pelo nome lavadeira, que gosta do fresquinho das águas que se lhe oferece. Um brinde inesperado no janeiro que já vai se despedindo. Um brilhante de humilde esperança no breu dos dias que, sobre nós, desabam.





AUTOCIÊNCIA E PANAUSÊNCIA
Ruminando sonhos, memórias e devaneios, fantasia e se faz crente em delírios, assertivo. Confrontado, desmente e, para salvar-se, mente. E segue em frente a evolar-se nas águas paradas do tempo. Como se contasse as gotas da torneira senil. A alimentação deletéria repetente e os refluxos recorrentes inflam a ventripotência. A seu juízo, sobram-lhe a injustiça, o furto, a ingratidão e o maltrato. Seu esporte: maldizer o outro. Ele é um santo deus circunscrito a sua autocomplacência. Um nefelibata antes do fim, um self-blefe. Seus olhos nos veem desde o fundo de um vago sorriso. Depois, do nada, adormece. É o mais triste espelho em que nos miramos. Nada nos é permitido fazer. Não quer, não deixa. É soberano no que lhe resta de vida.

A. R. FALCÃO - JANEIRO DE 15

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

                       

                     ISTO E AQUILO

Os brancos desenham as palavras porque seu pensamento é cheio de esquecimento. [Davi Kopenawa Yanomami]

Se a palavra que você vai pronunciar não é mais bela que o silêncio, não a pronuncie. [Preceito sufi]


Nessa madrugada, na parede de meu quarto escuro, projetou-se um retângulo de luz que, em intervalos regulares, surgia e desaparecia. A princípio, instigante. Depois, descobri: é que meu vizinho, em outro edifício, acendeu um abajur e manteve a janela ligeiramente aberta, de forma que a cortina se movia com a força da brisa noturna, cortando a luz e forjando um pisca-pisca.
 
Penso nas palavras que designam e nas coisas mesmas. É uma situação análoga: a imagem em minha parede fez as vezes de um signo linguístico; a luz do abajur, a cortina embalada, a brisa, tudo é o referente. A distância que os aproxima e separa - signo e referente - é uma encrenca que sempre amofinou o homem, dono da boca e dos olhos que veem.
 
Eis a curiosa imprecisão de que ele se serve para sondar o indizível e, assim, enformar, no verbo, o possível entre a voz silente e o silêncio audível - a palavra escrita. A matéria do poema e do referente inalcançável. Um dormir na escuridão da manhã, no intervalo da palavra para a coisa.

                                                                                                                                                     A. R. Falcão - janeiro de 2015

O EVENTO

Eu fui ao enterro
E ainda indago:
O que pede um morto?
O abandono de meu olhar
Pela troca com seu vazio
Das águas no dentro.
Ver o que não está ali;
O repouso dos movimentos,
Matérias no embate
Das distâncias.
A dispensa na ânsia das falas:
Um aglomerado de sons
E silêncio na busca vã
De um sentido em fuga;
Desconfortável como o infinito
Na mudez das pedras.
A velocidade do "fui"
De um passarinho.

                                                                            A. R. Falcão - janeiro de 2015


A PROPÓSITO - 7 DE JANEIRO DE 2015


Uma coisa é causar danos morais a outrem, outra é deixar-se danificar. Se a liberdade de expressar-se é, em si, um bem a zelar sempre, combatê-la através de danos físicos irreparáveis (ou quaisquer naturezas de danos outros) é um mal a repudiar e enfrentar. A nós, ocidentais, de afinidades democráticas, sentir-se moralmente danificado vez ou outra é pôr-se vulnerável, sobretudo quando apoiado em convicções de bases frágeis, é um mal-pensado, um irrefletido.



Em pensamento, o que me contraria me alimenta e me estimula. Às vezes, simplesmente me faz rir, a depender da forma como chega a mim. O insulto e a ira insana são para ser ignorados. Tomar distância.



Pensado por um, dispensado por outro, e que todos estejam a pensar e a dizer, de que modo for. A força bruta, sim, é inaceitável em qualquer circunstância, porque pressupõe o fim do diálogo, da troca de idéias, da dança de enlace e desenlace argumentativos, o húmus da vida inteligente.



Sabe-se que o modo descriminado e degradado como vive a comunidade islâmica no solo europeu, as prisões com fanáticos muçulmanos dando proteção e "ensinamentos" são terra fértil para a barbárie a que se assistiu nesse janeiro. Segue, então, a enxurrada de hipocrisia pelas mãos da "media" e dos chefes de governo. A torrente de palavrórios retumbantes já nos intoxicou. Enquanto isso, os horrores idênticos cometidos no continente africano são solenemente relegados a notinhas de pé de página e ignorados pela manada das marchas públicas. Nada contra marchas; coisa de branco e tudo volta a um mesmo cada vez mais perigoso. É sempre pertinente não esquecer nossos horrores brasileiros: homicídios em progressão assustadora; roubos a toda hora, furtos, sequestros e o resto. Lá é aqui; aqui é lá, o inferno por onde trafegamos. Não querer enxergar, fingir que não se vê são formas requintadas de farisaísmo. Você aí, bata no peito e cante o Hino Nacional.



O Alcorão, em momento algum, determina o dano irreparável (a morte) como a luta justa contra a blasfêmia. O livro que prescreve o ato está na Bíblia: Levítico, capítulo 24, versículo 16: "Quem blasfemar contra o nome do Senhor deverá morrer e toda comunidade o apedrejará ". "No Islã, a blasfêmia é um tema de discussão intelectual, mais que um assunto de punição física". [Maulana Wahidreddin Khan, estudiosa islâmica].



Estamos é diante da velha ignorância, parturiente de toda espécie de fanatismos, extremismos ou fundamentalismos (políticos ou religiosos). Pensar bem exige plasticidade, mobilidade e flexibilidade. Perdoem-me tanto "ismos" e "dades". Nada permanece, tudo passa. A vida segue e, em muitos casos, a morte perde o trem.

A. R. Falcão - janeiro de 2015

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015



A AMENA IGNORÂNCIA




Habitamos tanto a parte do que fazemos que podemos dizer que somos o que fazemos, bem mais do que dizemos ser. Até aí, não há novidade; isto já foi dito de várias maneiras, em vezes inúmeras. Bem, então o que se pode acrescentar? O que falamos não nos diz respeito? Falar não é fazer?



Posto isso, não sabemos bem quem somos. Talvez sejamos o que os outros dizem. Ou um composto de tudo, sem nada de fato sermos; ou massa de carne sobre ossos que anda, fala, fabrica ferramentas, às vezes escreve, come, defeca e dorme. Se reproduz e morre.



O que somos? Quem somos afinal? São perguntas inconvenientes, porque ociosas, não nos levam a desfazer mistério nenhum, a lugar nenhum, que é bem o nosso lugar, embora sejamos mamíferos territoriais dados a agrupamentos fixados. Já fomos nômades. Não pergunte quem você é, não é, vai se fazendo e se desfazendo até os vermes. E o outro? É o contra-espelho, sem o qual nos perdemos.



Acordar da sesta, depois de praia e comilanças, na Bahia, é bem o que se pode chamar de burrice digestiva, falta de assunto vespertina em sua plena acepção. Quer saber? Vou recolher meus pedaços de sonhos e memórias espalhados por aí, reduzido à minha insignificância e à condição prosaica de um mamífero qualquer. A vida segue, Zé Pereira.


A. R. Falcão - janeiro de 2015


CONVERSA DE VELHOS


Ali na sala, num fim de tarde qualquer, de um dia qualquer, num agosto qualquer, o Sr. Aníbal (92) trocava um lero-lero com a filha Isabel (70). Rotina de velhos.

_ Estou vendo essa caixinha em cima da mesa e me veio à lembrança tia Mimi. Quando estava atacada, fugia do quarto e ia andar na beira do rio durante a madrugada. Um perigo. Como a gente já sabia disso, ficávamos alertas, acordávamos meus irmãos mais velhos, que saíam na busca. Você acredita? Tia Mimi entrava em casa toda suja (na verdade, todos, que ela vinha arrastada) aos berros e acordava o mundo inteiro. Coitada, já tinha 95 anos. Essa caixinha era dela.



_ Meu pai, é a quinta vez que me conta essa história nessa semana. Não faz de novo, pelo amor de deus! Já disse, sou assim: não precisa repetir. Contou uma vez, não esqueço.



_ Está bem. Deixa pra lá.Você era muito menina, não acordava. A gente tomava cuidado. Você não conheceu Zé Jerônimo. Conheceu? Pois é, ele dormia num quartinho afastado de casa; era um agregado. Gostava de pescar. De madrugada, andava até o rio, pegava sua canoinha e ficava de vara em punho, subindo e descendo o rio, que ali era mansinho, águas calmas, calmas. Já de manhã, todos na mesa tomando café e cadê Zé Jerônimo? Meu pai saia à procura. Não era difícil encontrá-lo, quase sempre estava debaixo da ponte, na canoa, dormindo e fedendo a cachaça. Peixe nenhum.



_ Meu pai, é a sexta vez que conta essa história nessa semana, a segunda vez hoje. Não faz de novo, pelo amor de deus! Já disse, sou assim: não precisa repetir. Contou uma vez, não esqueço.



_ Não chateia, daqui a pouco você vai me chamar de caduco. Você era muito pequena, pequena mesmo. Um dia, sua mãe desapareceu, nem percebi. Durante a noite, saiu da cama, do quarto, da casa e foi pro rio. De manhã, a mesa do café estava vazia. Pra mim, estava na cozinha, mas não estava, não estava em lugar nenhum. Saí apavorado e avisei alguns conhecidos e fomos procurá-la. E nada de encontrar. Ficamos nisso o dia inteiro e a noite também. Seu Eustáquio é que a encontrou, também embaixo da ponte, mas no meio de galhos.



_ Já sei, ela estava morta. Meu pai, essa semana você me contou pela sétima vez. Hoje, é a terceira. É só uma variação trágica das outras. No fundo, é a mesma história.  É, a culpa é um desconforto amargo e não descola. Não faz de novo, pelo amor de deus! Já disse, sou assim: não precisa repetir. Contou uma vez, não esqueço.



_ E por que você nunca fala de sua mãe?



_ Ah, de novo não. Essa pergunta outra vez?! Já disse, não precisa repetir. Sou assim: contou uma vez, não esqueço.



_ Sua mãe era difícil.



_ Já sei. Não precisa repetir. Saco!

A. R. Falcão - janeiro de 2015

sábado, 27 de dezembro de 2014



"EU-EU TE-TE VI NO FACE"



Nesse dezembro, no aeroporto, assisti apavorado à nova patalogia de massa: a manada se "fotografando" compulsivamente com "smartphones". É tola e manipulada, na ilusão de agir quando agem esperta e calculadamente por ela, fazendo-a "pensar" que tem a iniciativa. As aspas se justificam, porque pensar não é atividade própria de manadas. Espero por horizonte sombroso.



Essa digigrafia mórbida (porque fotografia não é) é um esforço retórico pelo vazio de si. Aqui, um retórica "desverbalizada" através da imagem volátil de um instante assombrado ou irrelevante. Para a manada, o verbo é complexo. Sua oralidade é bruta e pobre. Não falam, tagarelam asnices.



Se, na infância remota, havia o proverbial "Ó eu aqui, mamãe!", hoje, nos malditos "selfies", fica assim: "Ó eu aqui, EU!". A tecnologia perigosa adoece mais as pessoas doentes numa velocidade aterradora. Quase todas. É delas "o reino dos céus".

Fica que melhor é nada a "fotografar"; quase nada a dizer. Talvez, devêssemos, em humildade, solicitar o acesso à majestade do escuro e do silêncio. Quem sabe a única maneira de sermos, um dia, salvos dessa praga. Hoje, pessoas de fato veem-se na contingência de habitar o Hades povoado pela horda das maquininhas. Ágrafos dedilhando telas brilhantes sem parar.



Pessoas de fato em oposição a pessoas desintegradas , que são aquelas atreladas obsessivamente à conectividade virtual das redes sociais e fones de ouvido, repare. Eis a manada mundial escrava das grandes corporações da indústria cibernética. A pessoa de fato é dotada de capacidade de observação, reflexão, imaginação e criação, sem a dependência inicial de quaisquer ferramentas eletrônicas que não seu próprio pensamento. Assim se põe a relacionar-se com o mundo à volta, mesmo na sala de espera de um consultório. Note-a: aqui, não usa maquininha nem folheia revistas estúpidas. Não precisa, pensa. Algo doloroso para a pessoa desintegrada. Se vê a tela, não vê o mundo.



Para o imbecil contemporâneo, a tela é o mundo. É tudo muito triste e inexorável. O desintegrado vai pagar caro, com a boca seca e a o estômago da alma vazio do legado da grande cultura. Burros compactos e complexos e, no entanto, sandeus.


A. R. Falcão - dezembro de 2014