quarta-feira, 1 de outubro de 2014


JOGO DE ENCAIXES

 

Perspectivas diversas, épocas diversas, aproximações por peças intercambiáveis e ensamblamento:


1. "A literatura é uma facilidade inata e uma dificuldade adquirida". Irmãos Goncourt, fins do século XIX, França.


2. "A única influência da qual é preciso defender-se é a de si mesmo". A. Bioy Casares, meados do século XX, Argentina.


3. "Quando vir suas faculdades aumentarem, tente fazer algo que pareça impossível". R. Kipling, início do século XX, Inglaterra.


4. "A construção da própria obra é um esforço constante para escrever na fronteira do que você não sabe". Rosa Montero, início do século XXI, Espanha.


5. "Se você é um pintor destro em crise, pinte, às vezes, com a mão esquerda". P. Gauguin, fins do século XIX, França.


6. Se preciso for - volta e meia é - não hesite em esfarelar seu fraseado de sempre na busca expressiva do indizível. Este que lhe fala, século XXI, Brasil.


7. Quantas vezes, para se aproximar do mistério da existência, é preciso fazer-se mais ignorante. A procura por conhecimento pede também o desaprendizado. Idem, século XXI, Brasil.


8. Entre a mentira e a ficção, há a fluida planície do cálculo, propósito, incógnito e gratuidade. Enquanto a primeira é pedestre ao perpetrar a rasteira, a segunda oferece o sonho em vigília ao ofertar o salto e o vôo. Uma é insídia, a outra é um paraquedas improvável e desapressado sobre a selva da vida. Idem, século XXI, Brasil.

terça-feira, 30 de setembro de 2014


O INCONTORNÁVEL

 

Nos confins

Do em-comigo,

A escuridão é o silêncio da luz

E, nos meus remotos labirintos,

O silêncio é a escuridão dos sons indesejados;

Os bolsos, cofres das minhas trêmulas mãos

E as casas e botões da camisa

As janelas de minha pele envelhecida.

Guardo o tempo

Num relicário bordado em fios de fina seda

Pelos dias iluminados

Dos distantes banhos de rio da infância.

Hoje, amanheço contra os lençóis,

Inimigo da cidade,

Avesso às vozes redundantes e vazias,

Trucidado nas ruas envenenadas,

Na ira das passadas.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014


A MALDIÇÃO DOS CLICHÊS

 

Entre tantas aberrações verificáveis no comportamento das pessoas nos dias atuais, o mais ostensivo e estridente é a tendência a manifestações por meio de rebanhos. Parece um paradoxo: uma cultura social que, a toda hora, é criticada por seu individualismo e egoísmo exacerbados promove, a todo instante, ações e movimentos que resultam em manadas nas ruas, a ver: ciclismo militante, shows musicais, torcidas organizadas, multidões de fiéis evangélicos, as marchas por qualquer coisa, as maratonas, os agita-galeras, as jornadas indistintas, as viradas, paradas pra todos os gostos e por aí vai.

 

Os equipamentos eletrônicos e suas consequentes redes sociais de media, a brutal dependência dos smartphones e a inevitável conectividade patológica fazem o resto; e temos os transeuntes aleijões: cegos, porque não olham para a frente quando caminham (precisamos desviar) e colunas vertebrais retorcidas no afã de enviar e receber mensagens sem fim e fins. Portanto, não há mundo íntimo; não há o estar consigo; o eu mesmo é insuficiente e vai sendo extirpado. As pessoas são provisoriamente elas e seu Facebook, são apêndices de maquininhas e softwares. 

 

Bem, assim não parece estranho e pode explicar o paradoxo mencionado: o Brasil teve e segue tendo uma urbanização abrupta, física e virtualmente: o inchaço caótico das metrópoles e a difusão, na ligeireza, da televisão e, agora, da internet em seus vários suportes. Resulta uma horda atirada dos cafundós para certa modernidade do atraso: contingentes notáveis de pessoas que não sabem se comportar no espaço público; não sabem sequer andar na rua, dirigir automóveis e morar em condomínios. Seus ascendentes saíram do Brasil profundo e abraçaram as metrópoles, perderam seu mundo riquíssimo de origem e ficaram culturalmente esgarçados, sem eira nem beira. Sem mencionar o analfabetismo funcional esparramado em todos os segmentos sociais. A cultura reduziu-se a esportes de massas, músicas de mediocridade assustadora, livros de autoajuda e best-sellers descartáveis que passam de mão em mão. A outra cultura protege-se em nichos ainda alcançáveis.

 

Há alguns anos, Chico Buarque dizia que o Brasil havia perdido sua delicadeza; é dizer pouco: ele tornou-se um país bruto, bárbaro, violento, incivil, sem o menor traço de urbanidade, bichado por corrupção em todos os níveis. É um país de despreparados, de cima a baixo. Não poderia ser diferente. Educação, saúde e segurança definham celeremente..

 

E onde entram os clichês? São o reflexo do tudo na linguagem, a face verbal da indigência mental e cultural. Os clichês dispensam o falante de pensar com a própria cabeça e personalizar sua expressão, sua marca de individualidade na massa amorfa e anônima. É a linguagem pronta para uso imediato, como as roupas industrializadas e a moda impositiva que vestem de forma uniforme a todos, ocultando diferenças num padrão confortável de disfarces da inópia. Basta que abram a boca e o desastre está instalado. E vêm de enxurrada vocábulos e sintagmas, hoje, já vazios: a nível de, enfim, no que se refere, sustentabilidade, qualidade de vida, autoestima, tipo, protagonismo, mano, tio-tiozinho, empreendedorismo, agregar, como um todo, com certeza, stress etc. Até o uso medido e criterioso do palavrão evaporou-se; tornou-se componente indispensável em qualquer fraseado coloquial, o sal da oralidade, e você tem a geração porra-caralho, intratável, descortês, sem interlocução minimamente civilizada possível. Um praga, uma doença de fato.

 

Caminhamos para nos tornarmos um país de surdos-mudos uma vez que estamos prisioneiros de uma linguagem oca de sentidos. De forma que a conectividade compulsiva e demente não passa de ilusão, e a solidão perversa inunda as relações; as pessoas precisam estar fisicamente agrupadas a todo instante; chamam a isso pertencimento. Não é, é ordem-unida em ação e pensamento. Mussolini conhecia muito bem o sintoma.

 

Tomo palavras de Berta Waldman*: "Um dos principais responsáveis pelo entranhamento do vazio (...) é o clichê, entendido como a fala citada, o molde, que não remete a um ato individual de percepção diante de um elemento único da experiência. O clichê promove a diluição desses caracteres irredutíveis, anulando a observação original de um objeto específico, reorganizando-o sob a forma de estereótipo". Como não há novidade no horizonte dos comportamentos e ideias, "podem irem, que eu não vai".

 

* Professora aposentada de literatura da USP e UNICAMP. É autora de Entre passos e rastros. Dedicou-se ao estudo acurado da obra de Dalton Trevisan.

 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014


MUSEU PROVISÓRIO

 Aqui,

Este que se lhe apresenta

É um boneco de cera.

Quando transpuser aquela porta,

Começarei a derreter.

Dissolvido, desaparecerei nos desvãos

Ambíguos da noite,

Dos lençóis amarfanhados,

Das  palavras silenciadas.

O PÁSSARO E O POLEIRO

 

 Num caminhando a galope para uma espécie de neofascismo (ver a obsessão pelos clichês saúde, eufemismo para instrumentalização do corpo, qualidade de vida e autoestima), é sempre bom ficar atento e não esquecer a boa e velha insubmissão.

  

 Prefiro o desvairado ao sóbrio (o normal, o certinho, o virtuoso). O primeiro é variado, múltiplo, imprevisível, imaginativo, fantasioso e criativo. O sóbrio é normativo, repetitivo, conformado e acomodado. Vê-se dominante (organiza exércitos) quando, na verdade, é mentalmente dominado. O desvairado é inquieto, transformador. O sóbrio é fixador, ancilosado e rebalsado. Julga-se superior sendo, de fato, o inferiorizado na mediocridade, em ordem-unida. O sóbrio orienta para o seu bem; o desvairado desorienta para qualquer coisa, qualquer lugar. O sóbrio sofre de nanismo cognitivo, tem certezas, adoece com a polissemia; o desvairado se agiganta no vasto oceano da dúvida e das incertezas.

 

O sóbrio é obediente e aprecia fazer-se obedecer - o servo na rua, o tirano em casa. O desvairado se rebela e busca desordem para abrir-se ao novo, ao inesperado. O sóbrio é virtude, o desvairado é pecado; o sóbrio é grosso, porque rígido; o desvairado, fidalgo, porque bailarino. Em nosso mundo insuportável, o desvairado é julgado, sentenciado e executado; ora direis sacrificado. Assim, a ordem se restabelece. E vemos o que vemos, temos o que temos. Basta pôr um único pé porta afora.

 

É evidente que faço aqui uma simplificação. Afinal, toda experiência que se fixa em palavras é reduzida, rebaixada e controlada pela razão sintática. Além disso e fora disso é o caos do inefável e impalpável que faz e habita os confins do cérebro imaterial. Não há saída para o ordinário da existência cotidiana. O sóbrio é linha reta; o desvairado é desvio. O desvairado é um homem só em seu tugúrio; o sóbrio, um animal de rebanho. O sóbrio é prosa; o desvairado, poesia.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014


LUTO

 

Esqueça as fotografias,

Que

As pessoas mortas têm uma sobrevida.

Depois da partida dos corpos,

Elas vivem na memória

De seus sobreviventes

E seguem assim nas histórias

Narradas a seus descendentes.

Uma vida digna

Faz dos mortos

Inesquecíveis esmeraldas

Em nossos corações.

terça-feira, 23 de setembro de 2014


ONDE PISAM

 

Desconcertos, dilemas e indiferenças

E tanto mais

Passeiam, se imiscuem

Entre meus dedos cansados.

Como alívio, procuro um céu

Entre paredes opressivas.

Um cigarro, uísque, pensamentos.

Peixes em aquário não me distraem,

Cachorros em coleiras, maquininhas elétricas,

Qualquer estupidez sem assento

No meu colo.

Não passeio nesse parque,

Prefiro o chão,

Que coisa mais interessante!

Pessoas que fiquem

Na outra margem do rio.

Não sou povo,

Sou cego, desisti.