terça-feira, 29 de março de 2016


DE RASPÃO

"O homem não nasceu para trabalhar, mas para realizar sua humanidade". (Delfim Netto). O que seria "realizar sua humanidade"? Criar, criar, criar; na Arte e na Técnica. Na primeira, a diferenciação; na segunda, a invenção. Aí está a delicadeza de espírito. Não repetir sempre como escravo não remunerado ou assalariado. Condenados a embrutecer-se. O homem nasce e já encontra muita coisa feita pelos que o precederam; cabe a ele, então, superá-las, refiro-me à técnica não à arte. Isso é "realizar sua humanidade" a meu juízo. Delfim Netto, como economista liberal que é, pensa na liberdade de iniciativa, na relativa igualdade de oportunidade e na eficiência produtiva. Como de hábito, imponho-me o benefício da dúvida: talvez seja assim.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016


IR ALÉM

Muitos dias e a mesma situação:
Atirado ao asfalto
O porta-retratos vazio.
Oferecia a imagem ausente
Que se furtava
E ainda boiava
Na água das chuvas.
E se fosse aquela pessoa senil
Que vi como um cão
De patas feridas?
Este haveria de sofrer ainda mais dores
Por minhas mãos,
Desde os cacos de vidro?
A mordedura na visita do medo,
Ele não saberia por quê.
Quando o céu desanuviasse em sonhos,
Livre correria nos gramados abertos.
No porta-retratos, eu seria o que
Em meu inelutável vazio?

PERFIL REVISITADO - dez. 15
ao Pedro, meu filho

Contente às vezes, deprimido com o que vejo e fico sabendo em outras; indiferente em relação àquilo sobre que a maioria se debruça; perseguidor, dentre minhas aptidões e percepções, de justiça no miúdo cotidiano - para o grande, sou pequeno; cultivador da liberdade plena de espírito; cooperativo quando há oportunidade e solicitação; contente às vezes, deprimido em outras; solitário por vocação; delicado e cortês no trato; ácido ou agressivo se de álcool abuso; intenso no que sinto; observador atento e silencioso, pensativo permanente.

Avesso a hordas e manadas de quaisquer espécies, mas amo as vaquinhas no pasto; não compareço a eventos que impliquem ajuntamentos humanos; refratário a modismos vários, panelas, tribos e patotas - o que me pôs longe de estabelecimentos etílicos ruidosos, de comidinhas e encontros regulares (Vila Madalena? Argh!); antissocial quando se trata de adesões e ativismos, não abraço causas, desconfio, duvido; nenhuma fé ou crença religiosa, mas curioso sobre religiões como expressão da cultura humana; leitor compulsivo (apaixonado por livros), escritor e desenhista amador - a fotografia e a culinária ficaram no passado, imaginoso em permanente fantasia ; interessadíssimo em arte. Vivo muito só e gosto.

Atividade física é caminhar; quando possível, nadar - academias de ginástica são dos lugares mais sinistros; irascível com a força bruta, crítico permanente da instrumentalização do corpo - o trabalho assalariado já é suficientemente embrutecedor. Feliz? Não. Felicidade? O que é isso senão uma bobagem ignorante e egoísta, sem base no correr da vida, uma mistificação, o véu ilusório da ignorância - olhe em torno, pense no outro. Saia da ilha da fantasia. De outro modo, tenha vergonha na cara.

Dificuldade em desvencilhar-me de hábitos arraigados; organizadíssimo para, em seguida, desarrumar-me e a tudo em volta; depois, o penoso retorno à ordem, numa circularidade indesejada, aparentemente interminável - Sísifo. Se me distrair, estou colecionando bobagens. Intolerância crescente com o desprezo pela civilidade urbana nas metrópoles - a deseducação das pessoas nos espaços públicos, daí o recolhimento também crescente - no Brasil, a rua tornou-se o inferno; há muito, denuncio a barbárie avassaladora. Indignação com a política tal como a praticada aqui e acolá, de ponta a ponta - nenhum vínculo ou pertencimento partidário, nunca - o velho "pensar com a própria cabeça".

Contente às vezes, deprimido em outras. Tido como ranzinza, entretanto, bem humorado e brincalhão, mas... Persigo a conversa elegante, educada, nem sempre ao alcance nos dias que correm - falar pouco, baixo e tratar com carinho a língua. Fidalguia ao relacionar-se, urbanidade em todas as situações possíveis. Coisa muito difícil no patoá da manada (vocabulário de 500 palavras no máximo; não é, mano?) - paisinho de apedeutas ágrafos.

 Quase ninguém mais sabe ou quer ouvir e desaprendem a falar, gritam e vociferam palavrões a esmo.  Pelas bocas, jorra esgoto. Sentenciam sem julgamento ou julgam de modo sumário e burro. A vida dos outros me interessa muito pouco, quase nada, a não ser aquela dos mais íntimos, por isso o fuxico me parece, dos atos verbais corriqueiros, coisa repugnante.

Entedio-me com facilidade (um sofrimento). Blindado para melindres, ouvidor tranquilo de críticas (que, em geral, para mim, não trazem novidades - não escondo defeitos, os carrego), indiferente a elogios; sem ódio em geladeira, severo com meus próprios escorregões e um olhar agudo, involuntário para defeitos, mazelas, incorreções e ruindades alheias. Para os objetos feitos também. Um sofrimento. Não sei se meu desprezo pelo ser humano me protege ou me aliena, mas ele é um fato; prefiro os animais em boa hora. Quero entender e conhecer, fracasso. Vivo cansado de mim.

Como bem, durmo pouco e cultivo uma boa preguiça. Cuido de mim, sem ajuda doméstica de nenhuma espécie. Até agora - 65 anos. Odeio telefones e maquinas em geral. Amo o silêncio (bem inexistente), o sossego e deixem-me em meu canto; à maneira de Caymmi :"podem ir, que não vou". Mas não me furto a um convite simpático para um lugar e companhia interessantes (bens raríssimos).

Gosto, à beira do encantamento, do mar aberto, sem banhistas certamente. Ele dá a exata medida de minha insignificância e ganho a sensata noção de meus limites - a coisa mais parecida ao rezar é observá-lo sozinho no início da manhã, quando o tenho por perto. O muito grande que não me humilha ao diminuir e serve para aplacar as tolas angústias constituintes do homem. Tal como o deserto, mas este não conheço nem conhecerei. A religião de nada me serve, a beleza de um passarinho sim. Se quer saber como me relaciono com a morte, faço uso de uma citação: “A morte é um momento, e da minha vida não há de roubar mais do que isso: o seu momento”.*

O que não sei me afaga, o que julgo saber me inquieta. Nesse quesito como no anterior, sou um homem apaziguado. Alegre às vezes, melancólico quase sempre.

*Da mãe de Francisco Daut (colunista da Folha de S. Paulo) , cujo nome desconheço.


Antônio Rebouças Falcão

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015


O TODO E SEMPRE

Recebo o quarto
Em que me hospedarei.
Sofá-cama aqui,
Poltrona ali,
Mesinha lá,
Cadeira e abajur acolá.
Da janela recebo a contraluz
Que a mim e a ele desorganiza.
De minha desordem de espírito,
Refaço o espaço:
Sofá-cama lá,
Poltrona aqui,
Mesinha aqui,
Abajur lá.
Ponho a janela no bolso
E a luz nos olhos.
Em vez da casa, um hóspede,
Um membro de mim.
Então, fecho a porta e entro para me perder
Nas tábuas do assoalhado.
Apenas e somente deste modo,
Estarei quase feliz.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015


PARA O TODO ONTEM E SEMPRE
A Izolda

Lê-se pouca poesia. Há um motivo: como ela, na maioria das vezes, é de pequeno tamanho e provocadora de grande estranhamento, o “carro emperra”. O leitor raso não volta e abandona o parque. Lê como prosa e, atolado, não gosta. Mergulha no pior dos mundos: “O que ele quis dizer?” O território de Plutão, de fato. O escuro.

Por séculos, a poesia morou na casa da oralidade 
( num país de analfabetos funcionais, a força da canção brasileira). É relativamente recente lê-la em silêncio, com os olhos; perdeu, em muitos casos, os recursos que propiciavam a memorização, rimas e métrica. Às vezes, tornou-se gráfica, mas sempre um objeto verbal.

Partindo do princípio simplificador de que há três tipos de oralidade, entre outras simplificações, pensemos nelas: a “cancioneira” ( a de Homero talvez), canto e cadência; a de litanias memoráveis e repetitivas, orações e cantochão, hinários; a eloquente, “palco e plateia”, a se reproduzir em teatros e saraus: alambicada, verniz de sociedades estratificadas em aço, a nossa, mas não só. Ah, o bacharelismo  e sua "sonetice" patológica.

Depois que a leitura (não declamatória) para os analfabetos foi se universalizando pela escola e a mulher pôde, afinal, ler romances - um perigo! - “grosso modo”, abriu-se a porta do protofeminismo e, no pacote, o bovarismo. Poemas e canções de amor existiram desde sempre, escritos por homens; mais tarde, nossa canção adquiriu a grandeza que conhecemos: a de chuveiro, a namoradeira, a dançante... É do ser humano, em todos os tempos e lugares. Nossa canção adquiriu requintes da melhor poesia. A velha e conhecida oralidade. A gente passeia por aí, mas volta sempre pra casa.

Porém, a poesia, um ser delicado  finamente construído, perde leitores - as tiragens são pequenas, uma maçonaria. Na sociedade de hordas e manadas, tornou-se, para sua mazela, refinada, refinadíssima. E há poetas que a pioram em direção a cofres indevassáveis, a intertextualidade, poesia para poetas. Alguns cancionistas acabaram também com a canções de chuveiro como Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Perderam-se entre a história e egos imensos. Senhores da “media” e a molecada “diluidora”: violões simplórios e letrinhas espertas. A neorretórica de saraus contemporâneos. O mundo, em muita coisa, continua na mesma.

Um poema, lido uma só vez, nem bem se fez. É um feto de três meses. A cada leitura, mostra um palmo, vai aparecendo, até que, por um pouco mais, pede abandono; talvez se torne outro. Mais tarde, no espírito de um leitor sofisticado, o cristal multifacetado que ele é se apresenta na quase plenitude, inalcançável.
Para quem o escreve, não é diferente, por isso é inconcluso; alguém já disse que nunca é terminado, é abandonado - um poema é a celebração de um abandono. O leitor, o mesmo, a cada leitura, se refaz; o poema compartilha dessa viagem. Isso faz, de um texto, um clássico. Se bom, encantador, um poema nunca deve ser lido pela primeira e única vez, nem o dê por compreendido. Ele, como o leitor, será sempre incompleto. A condição para nos fazermos humanos, o caminho por onde os homens verdadeiros andam , para felicidade de alguns e infelicidade de outros.


terça-feira, 17 de novembro de 2015


O PASSEIO E A GRAÇA

Fruir a literatura implica sempre imaginar; numa palavra, criar. É como sonhar, porém não tal e qual. Ver um filme implica observar, próximo à experiência empírica de olhar, contemplar; extrair da sucessão de imagens o vão oculto das conexões entre os planos. Como, clandestinamente, espiar o sonho de um outro. Por isso o escurinho das salas de cinema. O cinéfilo é um “voyeur”.

Disse próximo, porque, em nosso cotidiano, não há cortes frequentes, mas um contínuo do qual descansamos ao apelarmos para a memória de tantos outros eventos de nossas vidas que aguardam nossa visita. Um mar de analogias secretas e íntimas.

 Em ambos momentos, leitura e assistência, é exigido o repouso corporal. A ordinária inquietude física perturba o necessário assombramento que a verdadeira arte pede, um toque de maravilha. No momento da audiência musical, das peças não-dançantes, o relaxamento e o silêncio fazem as vezes do repouso de lá.

O que tem o sonhador de bisbilhoteiro de si, o leitor tem, em vestígios esparsos, indícios de um vago ou intangível outro que lhe escapam a cada nova leitura. O sonhador furta de seu sonho a narrativa que monta em vigília; o leitor surrupia das palavras engenhadas sobre o papel os sentidos que são de sua lavra. Mas não em sua totalidade: a leitura, a assistência e a audiência não deixam de ser experiências sociais. Mesmo na solidão, partilhamos convívios.

Na vida empírica, nos deparamos com o concreto das coisas e pessoas que estão aí, no tempo e no espaço. Na fruição da arte, somos confrontados voluntariamente com imagens nas quais escolhemos tomar parte. A fruição é volitiva. O sonho parece que não. Embora seja um construto, fica a impressão de termos sido pegos de roldão, como se participássemos de um evento para o qual não fomos convidados e pelo qual, entretanto, somos responsáveis, cúmplices. Daí o incomodo plúmbeo dos pesadelos nos quais nos metemos. O alívio ao acordarmos é o da fuga bem sucedida de nossos infernos particulares - aquilo que não queremos nem ler, nem ver, nem ouvir. A fruição artística pode ser interrompida a qualquer momento; o pesadelo, nos limites insuportáveis do horror. O sonho nos toma emprestado; a arte nos oferece. Não foi Nietzsche quem disse “temos a arte para não morrer de verdade”?

Borges, às vezes, se dizia mais leitor que autor. Ler lhe bastava em sua fome de criar, por isso, também, seu fascínio pelos sonhos e pela memória; para ele, brilhantes da mesma pedra; por isso a cegueira iluminada. E a arte? O vento e um pãozinho quente; um sequestro e uma dádiva.


                                                                                                                    A.R. FALCÃO - NOVEMBRO DE 15

segunda-feira, 16 de novembro de 2015


COM TODO RESPEITO*

Muitas pessoas com fé de base religiosa pensam que podem transformar o mundo, mudar a realidade à sua volta. Não me refiro à determinação louvável de quem deseja mudar seu comportamento, mas àqueles que esperam alterações positivas e benéficas naquilo que não lhes concerne, naquilo em que não podem interferir. São os esperançosos "de boa fé" que imaginam resolver problemas graves e curar doenças de parentes próximos, amigos, ídolos com rezas e trabalhos místicos de acento esotérico. Uma rematada tolice, daí a proliferação de picaretas, espertos, patifes...

Nada contra a crença e a fé dos devotos. Elas os consolam na dor, o que não é, em si, um mal. Ajudam seu psiquismo, seu equilíbrio emocional em suma, os afastam do desespero. É um benefício universalmente cultivado. Resta aos céticos a resignação, com que convivem apaziquados.

Como a maioria dos semáforos paulistanos para pedestres (ou todos, a meu juízo e pela constatação empírica) estes, às vezes, coincidem com a interrupção do tráfego veicular, em sendo acionados. Da mesma forma, a cura,  o arrefecer do sofrimento podem "acontecer" após rezas, benzeduras e promessas ininterruptas. Se acontecerem, é que os "pedidos" foram atendidos.

 Os crédulos, em geral, são rígidos e inflexíveis em suas convicções. Ingenuidade, ignorância ou autoilusão. A fé lhes basta; a reflexão e dúvida sistemáticas são, neles, rarefeitas, porque inalcançáveis ou insuportáveis para suas fragilidades existenciais. São os sem-Iluminismo, ficam entre um misticismo arcaico e um ocidentalismo meramente comportamental. Não passam sob escadas embora sejam contemporâneos e digam ser dotados de razão e vontade (leia-se fé). Não percebem a contradição, são assim mesmo.

Outra: 86% da bancada evangélica e do eleitorado* entende que acreditar em deus torna as pessoas melhores; ignora que a grande maioria dos presidiários condenados, cumprindo pena, e, dos homicidas são crentes. Sobre isso se cala. Sem comentários.

O Alcorão* começa assim: "(...) 2. Esse é o Livro, nele não há dúvida alguma. É orientação para os piedosos [devotos]. (...) que creem no [no Alcorão] que foi decidido do céu para ti [para o profeta Muhammad] e se convencem da Derradeira Vida." A Bíblia não é diferente; é ver o Pentateuco e Evangelhos, por exemplo.


Nisso que chamam  Brasil, outros, “pátria educadora”, desde sempre, reza-se por saúde, segurança, justiça, chuva, promoção econômica, emprego, sorte, bonança, amor, dinheiro etc. Por isso é o país mais feliz do mundo, que o digam os camponeses vítimas de seca severa, os urbanos vítimas de enchentes recorrentes, mães e bebês vítimas da microcefalia no Nordeste, indígenas do sul mato-grossense, os atolados no deserto de lama tóxica em Minas, as vítimas de roubos,  latrocínios ou violência policial, mais mortes por assassinato (mais de cinquenta mil por ano) que os mortos norte-americanos na guerra do Vietnam (mais de cinquenta mil em dez anos) e tantos outros na amargura escura. Se sofrem ou morrem é porque estão em pecado e não sabem; o Brasil é o melhor país do mundo, é o que também dizem.

No buraco em que estamos,  a prática rezadeira se espalha como aedes aegypti em São Paulo, no verão. Que dizer dos inocentes mortos em Paris (13. 11. 2015), dos refugiados afogados no Mediterrâneo a toda hora e muitos mais por esse mundo afora? Por onde andam deus, deuses, entidades, magos e santos que não os protegem? Não foi Jesus quem, na hora H, disse ter sido abandonado pelo Pai? Pois é, leiam a Bíblia a que temos acesso já que não alcançamos o aramaico, o grego ou o hebraico. Distância de textos apócrifos tidos como “Bíblia”, reescritos por “pastores” patifes, enriquecidos,  para pobres fiéis sem instrução. Um crime.

 Aguardem as tragédias que sempre vêm por aí, provocadas pelo homem ou pela Natureza indiferente. Não adianta rezar, "meu irmão". Seja o que for, será. O melhor consultivo é o acaso que nos atormenta (ou não). Pergunte a ele; é infalível.

* Por quê? Pra quê? Pra nada.
* Fonte: Datafolha.
* NASR, Helmi (realizador). Nobre Alcorão, tradução do sentido para a língua portuguesa. Society of the Revival of Islamic Heritage – Complexo de Impressão do Rei Fahd.