quinta-feira, 2 de julho de 2015


UM POUCO MUITO

O controle e o impulso
Alternada
E indefinidamente.
A culpa e o esquecimento
Extensa
E recalcadamente.
A contenção e o esgarçamento
Explosivo
E desenfreadamente.
A água gelada e a fervura
Na garganta seca
De quem tenta, tenta
E acaba dizendo
O que não quer pensar
Ou pensando
O que não quer dizer.
A vida mesma que se esvai
Bruta,
Momentanea
E diariamente.

sexta-feira, 19 de junho de 2015


PARA NÃO ESQUECER:

Cântico III

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.



Cecília Meireles in Cântico

QUASE UMA FÁBULA

Na casa de Seu Armando, há muitos abacates (hipopótamos elegantes) e algumas poucas cebolas (rosas amargas). É que ele é um apreciador peso-pesado dos primeiros. Come muitos ao longo da semana, pela manhã e antes de se recolher.

As cebolas têm outra ordem de problemas, os abacates nenhuma. Então, do que se trata? As cebolas têm inveja, não de também serem devoradas em quantidade. É uma inveja de natureza morfológica. Repare: a cebola é feita de várias camadas de pétalas que se superpõem, você a “desfolha” e, no fim, parece não restar nada, senão lágrimas. O abacate tem poupa gorda e um grande caroço no centro, uma fruta óbvia.

Pois bem, certa noite, como é de hábito, Seu Armando foi à cozinha e “traçou” seu abacate, mas esqueceu de jogar casca e caroço no lixo. E voltou para o quarto. Uma das cebolas invejosas saiu da cesta e aboletou-se no interior da casca esquecida e, ali, feliz, adormeceu. Ela teve a ilusão de ser um abacate no coração de um sonho.

Pela madrugada, Seu Armando acordou com sede e foi até a cozinha para beber sua, também habitual, aguinha. E deparou-se com a casca de sua fruta predileta sobre a mesa. Xingou baixinho por aquele imperdoável esquecimento e tomou a devida providência: com as duas mãos, pegou o dejeto, o atirou no lixo e fechou o saco. É verdade que estranhou um pouco seu peso, mas, como estava “sonado”, não deu importância ao detalhe, apagou a luz e voltou satisfeito para o quarto, com os pés do chinelo trocados.


Restou a tristeza do abacate (enterrado morto) , a cebola não entendeu nada, embora suspeitasse de seu trágico fim (enterrada viva) e a satisfação rotineira de Seu Armando, que dormiu pesado até tarde naquele domingo.

quarta-feira, 3 de junho de 2015


INSÔNIA

Sob os lustres dos casarões apagados
Repastam os arbustos floridos de outono.
Pelas estradas, as pegadas esquecidas remoem-se.
Caminham os fantasmas pelas matas
Em busca das manhãs que lhes furtaram.
E eu com isso?
Nas ruas,
Tergiverso entre bonés, chinelos e bermudas.
Sei que restam a eles
A ração de mundo
Que locam em pratos plásticos.
Herdo a companhia de viventes
Elétricos e analfabetos.
Não gosto de nada, nunca gostei.
Lustro os aneis de dedos que perdi
No útero que não consultei.
Nasci assim.
Depois, jogo tudo no lixo
E não vou dormir. Nem acordar
No jardim dos caminhos
Que se bifurcam.

O REINO DO CÉU

Essa torneira que, gota a gota, pinga
Sobre mim
Avisa-me que, para o tempo,
Não há clemência.
O gato e o cão se protegem da garoa
(sob automóveis)
Que lava todos os passados
Daqueles que esperam o que virá
Do mesmo.
Seus olhos são panos de prato
Encardidos.
Seus sonhos transpiram nos calçados
Úmidos de fé
Na circulação pública,
Na benzedura sobre o mingau,
Sob a curta noite inamovível
E o emprego que ameaça,
Por buzinas,
Desmanchar-se.


segunda-feira, 1 de junho de 2015


DISSE

Viro uma esquina, sob a chuva me pasmo. De que serve a experiência? O manacá-da-serra se exibe florido como o advento do mundo. Adianto-me. Sob a chuva e o guarda-sol, as flores das primícias se desfazem no outono. De que serve a experiência? Serve ao silêncio constrito. A experiência é o que penso saber? Ou o que sei que ainda não sei e que nunca vou saber? A experiência é o medo que atravesso, a lagoa seca, o rio debaixo da árvore morta. De que serve a experiência enquanto os homens se desentendem ou se matam? Não sei, rego as plantas, mato os mosquitos e decifro as tintas sobre papeis. Desligo o abajur na noite que me amordaça. E lembro por lembrar as sarças dos meus descaminhos.


De que servem os jacarandás-mimosos, as azaleias, as paineiras? O frio todo, as chuvas inteiras? A experiência é a sombra que se abre aos eventos que amordaçam os acasos; que dizem dizer - o outono que se abre e se some sob o agosto. E, a cada semana, vão morrendo cada um dos meus. Até que eu.  Tanto faz envelhecer. A morte perde a hora e faz agora, em qualquer penumbra, as cigarras desfeitas nos quintais, as que me encantavam os verões da infância. Os grilos, as noites e meus medos de amanhãs de hoje. Acendo o fósforo, fumo cigarros e como o caju de amores que tomaram o trem de ontem. Esquento a sopa. Penso no mesmo. Diante do Brasil, apago a luz e não adormeço.

CACHAÇA COM LIMÃO, MERMÃO

Saí por aí,
Atrás do lugar comum.
Encontrei clichês.
Mas o que vi, primeiro, foi
Lagartixa de repartição.
Estesia de contemplativo.
Vi também a multidão,
Como todas,
Vulgar e sandia.
Era protesto, era revolta,
Disposta a fogo em ônibus.
Então me fechei. E vi tudo:
Bolachas, dívidas, cervejas
E reforma política.
Cortei laços e pulsos
E fiquei ni mim.
Sem um fito, olhando aí,
Mulas, nádegas de academia,
Coprologia,
Linguistas, formuleiros,
Airados bonitinhos
Dando aula de redação,
Sonhando revolução
Em rotor de pia.
Alienado que era,
alienei-me mais ainda,
Feliz, felicíssimo da vida.