terça-feira, 29 de agosto de 2017


E O BOI DORME

Brasileiros gostam de brincar de casinha sob a tutela do estado. Aqui, parece, para a democracia bastam eleições. Assim: grosso modo, candidatos patifes, eleitores imbecis. Eleições convenientemente caríssimas. Tudo é obrigatório: votar, haver partidos devidamente registrados, candidatos pertencerem a eles, horário eleitoral nas media, domicílio eleitoral e financiamento público de campanha (fundo partidário). É um negócio bilionário a portas fechadas, como futebol e certas religiões. Não pode dar certo, acaba sempre mal (para nós outros). Como pano de fundo, os clichês, vazios como é de sua natureza, "os lugares comuns das retóricas mortas"*: autoestima, cidadania, empoderamento, protagonismo, sustentabilidade, reformas, transparência, inclusão e por aí afora. Argh! Paga e toma, que é teu.


* G. Greene.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017


A FUGA

Vi todas essas árvores crescerem,
Florescerem e desfolharem.
Vi os pássaros nascerem e morrerem.
Fui amigo de todos os cães vadios
Que serviam-se de meu sangue
Excedente.
Até que, um dia, desapareceram,
Como todos os vizinhos.
Aí, os insetos secaram
E o dia nunca mais nasceu.
A noite em mim adormeceu.
Por fim, nunca mais sonhei.
Deixei-me tomar por um mar
De memórias
Dos outros; de mim
Ninguém mais se lembra.
Trilhos se rebelaram
E o trem voltou pra casa.

terça-feira, 22 de agosto de 2017


MORTE

Terás teu tento
O campeonato é teu.
Tudo sorrirá por ti.
Dormirás na grama
E o céu abrirá as portas.
Depois ficarás nu,
Saberás teus limites
E não procurarás um médico.
Sabes que vais morrer
Tão logo o sabiá entrar
Em cantos roucos,
As visitas começarem a chegar
Em peso.
Então, alertarás:
Todas as cobras estão soltas,
Os gatos, mortos,
As gavetas das facas, abertas
E teu legado são as avencas
Abertas. E morrerás por fim.
O portão fechado num não.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017


FELICIDADE

Mulheres ...
O que querem as mulheres?
Não sabe. Teve muitas.
Nesse caso, ter é verbo podre.
Não aprendeu nada.
O que querem as pessoas?
Muitas passaram por ele.
E ele por elas.
O que querem as pessoas?
Dizem que é amor.
Ele não passeia neste parque.
Não gosta muito de si.
Existir o aborrece.
Melhor é não ter nascido.
Abraça, só, a vida nele. E já é muito.
Encanta-se com os bichos.
O sol e os passarinhos lhe dão bom dia.
Quem diria?
É feliz a seu modo.
Só e apenas.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017


TRANCO

O vidro quebrado na janela,
A verdade de meus desmembramentos:
Não tenho pulsos,
Não tenho pernas.
Ando aos soltos,
Caminho aos empurrões
Carregando peles.
Envelheci.
Não deixo legados,
Não sei quem herdará
A biblioteca pessoal,
Poemas ruins,
Minhas últimas mulheres, meu filho.
Não há ninguém, só mins.
Há só barba a fazer,
Cabelos a pentear,
Paisagens feias,
Contas a pagar
E outonos, invernos.
Não suporto verões.
A primavera não existe,
Mas há uma aranhinha na cozinha
Com dois nhs. Fico povoado.
Esta verdadeiramente amo.
Sou meu sabonete que caiu.
Adormeço com um tenor de Coltrane,
Adormeço comigo,
Sim com sins.

terça-feira, 1 de agosto de 2017


SEUS 6
                                          a izolda

Tanto faz qualquer dia
Dansifussário e os mortos.
Você surgiu em alguma goma,
Colas de amoras.
Você em algum momento
Foi linda e, hoje, ainda goza
A beleza.
Ficamos lixando
As solas dos pés.
A luz é o que abre
A água de nossos braços,
A angústia de nossos ventos
Ou a brisa de nossas escapadas
Devassas. Felicidades.
Amamos o mingau de todo dia,
O que odiamos.
A tesoura da aranha
Nos cantos de nossos segredos.
Graças a deuses.
 Os que eram de ontens.
Amávamos as formigas lindas.
As abelhas que nos beijavam
Em mel.

E É QUE FOI

Quando de meu bom
Saiu um dia,
De seu dia saiu um logro.
Então, de meus olhos saiu
Um sim,
Dos seus também.
Combinamos que de nossos dias
Sairiam sins
E dos nãos sairiam outros mais,
Que seriam variados
Sins e nãos em festas,
Fora de controle,
Um certo acervo difuso
De desapontamentos compartilhados.