sexta-feira, 28 de março de 2014


DESTINO

 

Domingo.

Tia Alzira estava feliz.

Fufa havia parido

Cinco gatinhos.

Dos cinco,

Rex comeu três.

À tarde,

Um caiu no poço.

Sobrou outro.

Cego. Coitadinho.

E veio a segunda-feira,

Mas não estávamos mais

Lá.

A.R. Falcão - março de 2014

quinta-feira, 20 de março de 2014


UMA VISITA FORMIDÁVEL

Dia desses, nessa fervura de março, estava sozinho no salão da biblioteca onde trabalho, lendo, mergulhado na leitura, no bem-bom. Subitamente, assustei-me com a zoada de meninas que invadiam meu sossego, sem as devidas licenças, como é dos maus hábitos da geração de hoje. “O que foi?”, “Olha ali!”, “O quê?!”, “O bicho invadiu a biblioteca”. Um frio subiu-me pelas costas. Pensei: pronto, tenho uma ratazana em meu ambiente. Chovera muito na noite anterior. Quando me virei, tive a mais grata surpresa: um lindo sabiá-laranjeira pousado no alto de uma das estantes.

Procurei não fazer nenhum barulho. Nessas ocasiões, o melhor a fazer é não assustar. E fiquei ali, em minha solidão, a admirá-lo, que é dos pássaros que mais aprecio. Com um sinal, pedi que as meninas fossem embora. O sabiá parecia estudar a melhor maneira de escapar daquele ambiente esquisito. Eu também fazia o mesmo. Como ajudá-lo sem que lhe causasse muito medo, pânico? Mas o sabiá, de repente, sumiu de meu horizonte. Ótimo! Ele soube como fugir.

Então me levantei e fui verificar. Não, ele apenas mudara de posição, para mais perto dos vidros - coisa mais estranha! Quando me viu, levantou voo e cruzou o salão na diagonal mais perfeita. Um reles pardal não faria isso. Era o que mais temia. Daquele lado, se conseguisse passar por uma das aberturas da janela, ficaria preso entre o alambrado de arame e os vidros. Do lado em que estava inicialmente, não havia arames de proteção, era só escapar por alguma passagem da abertura basculante. Ali, estaria perdido e engaiolado, sem entender nada.

Continuou a analisar a situação. Eu cada vez mais aflito. Assim, tomei uma decisão: vou tirá-lo dali de qualquer jeito, mesmo que venha a assustá-lo. Foi o que fiz, e deu certo. O sabiá cruzou de volta, naquela perfeita diagonal, o salão e retornou à posição inicial, no alto da estante. E dessa vez ele já havia entendido tudo. Bichinho esperto! Em poucos segundos, encontrou a forma de escape, enquanto eu assistia embevecido a tudo. E desapareceu no infinito de suas árvores, de seus azuis.

Voltei feliz para meu livro e minha solidão. Então, me deu um estalo: o que lia naquela manhã de tanto sossego? Um livro de um capixaba, grande amante de passarinhos: Rubem Braga. Coincidência? Talvez. O certo é que não houve, naqueles momentos, pertinência maior. Dali em diante, para mim, o Santo R.B./São Sabiá. Também sou dado a inofensivas tolices.

A.R. Falcão - março de 2014

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014


BREVE

 
Até que meu hoje

Chegue

Para dizer-me: não há nada

A fazer aqui.

A tampa na caneta,

Os papéis dobrados

E o caminho escuro das paisagens que se engolem

No mais escuro dos quartos

Silenciados

Dos hospitais públicos.

Vestido e penteado,

Paciente e pronto.

A. R. Falcão - fevereiro de 2014

"THE THRILL IS GONE"

 

Foi de Lucía, foi Arnesto.

As mangas quedaram arregaçadas

Sobre esquifes

De quem nos abriu

Envelopes

Onde nos escondíamos

Mortos, adormecidos.

Vai o sol e vêm agora as nuvens

Pesadas, no céu de chumbo derretido.

Abro as janelas

Para o dia que começa

Mais um verão enganador.

Meus olhos me abrem

Para dentro

Dias que foram

Mais felizes

Na música

Que desenlutava as noites

Mais sem lua.

A. R. Falcão - fevereiro de 2014

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014


PLUMAS

Não gosto de galos.

Gosto das galinhas

E seu discreto ciscar.

Refugo a soberba empavonada.

Não gosto da lua cheia,

Gosto da insidiosa,

Insinuante, insinuada

Lua nova.

Não gosto de comida quente,

Anunciada, impositiva.

Gosto daquilo que meus lábios

Recebem sem surpresas.

Não gosto de mim.

Gosto de um mim diminuído.

Mínimo.

Nos confins das gavetas

Esquecidas.

A.   R. Falcão - fevereiro  de 2014

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014


INSETOS

O engenho letal,

Humano,

Jaz inerte sobre o piso

Cerâmico.

O engenho dos cupins,

Destrutor,

Jaz lôbrego sobre o chão

Telúrico.

Bastaram dois dias

Para uma confraternização anunciada

Fadar-se ao fracasso

Num embate cruento;

Para uma convivência amena,

Com mais de sete anos,

Acabar assim

Na mútua estupidez.

À morte de uns,

Muitos,

Seguirá a solitária,

A inescapável morte do outro

Na terra que o espera.

A.R. Falcão - fevereiro de 2014

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

UM VERÃO

 

Aquele gato enuncia sua ária

Pelo fim da tarde.

E a melancolia embala a preguiça do arbusto

Cujas folhas gordas se transformarão em abacates.

As rolinhas desfilam nas calçadas

Para, em breve, dormir como galinhas.

Os últimos pássaros serão os primeiros morcegos.

Pessoas sem sombras se desfiguram

Nos fantasmas que chegarão aos subúrbios distantes.

A lua cheia começará a render o sol em chamas.

E o calor da noite se encarregará

Dos últimos pontos na costura de pesadelos.

Por fim,

O mar, pouco a pouco, se ocultará em seu véu de breu.

Em meu silêncio, mais uma vez,

Apagarei as luzes.

 

Salvador, janeiro de 2014