terça-feira, 30 de agosto de 2016


O QUINTAL DA INFÂNCIA 

De cima para baixo, vejo um mirrada pereira e uma macieira.
Mais descendo, à esquerda, um coqueiro-mirim, carregado. À direita, um rego, um sapo e uma laranjeira que frutifica quando quer. No centro, uma tangerineira. Ao lado, uma mangueira, onde está minha casa arbórea e onde me escondo dos beliscões maternos. Mais: outra vez, no centro, mais abaixo, um pé de limão cravo. À esquerda, duas goiabeiras adequadas para os doces que faço com minha mãe. Ao lado, um galinheiro, abacaxis, outras laranjeiras, um abacateiro, parreira (muitas abelhas e vespas), taiobas, um mandiocal, amoreira, canas caianas, mais goiabeira e mais abacateiro; um limoeiro, mais três laranjeiras, de espécies distintas, um pinheiro que chora nas noites de muito vento e uma limeira.


Eu? Bem quietinho, pulo a janela de meu quarto na madrugada, deito no chão do quintal e fico a apreciar as estrelas, a Lua às vezes, vagalumes, grilos, formigas, aranhas e bichos vários. Sou feliz em pensar no escuro. Pelo menos era. Meu quintal tornou-se um patrimônio pessoal inalienável, um tesouro de felicidade para os anos que me restam.




I

Há exatamente neste ponto
Um há.
Mais que um,
Um i.
Talvez um ai.
Dor talvez.
Quando branduras houver,
Haverá um se
Se há de vir.
Durmo em mim
Como um i em si.
Tudo há de ser
Um mar e ar,
Um comigo de si,
Um aí, o sempre em,
Um ninguém besta.
Que ainda assim ama.

ACOLÁ

Aqui,
Tudo em ordem:
As baratas todas mortas.
Os sapatos alinhados,
As águas afogadas,
Toalhas secas,
Os frios, frios;
Os quentes, quentes.
Só eu, apenas só. Todos nós.
Abro as janelas.
O céu e as nuvens disseram-me que...
Não me disseram nada.
Aqui estou eu. Todos nós.
Estão ali os pós dos papéis em branco.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016


DIÁRIO

Sem saber, me vi
Sobre campinas.
Caminhei sobre meus sôfregos passos.
Súbito, um corvo deixou-me
A carta que não desejava.
Uma coisa sabia: teria de muito caminhar
No mesmo dia em que acordei.
Acordo sempre no mesmo dia
E as campinas teimam em se abrir sobre mim.
Não sei nada sobre relvas,
Asas negras que se aproximam
E bicos carteiros.
Sobrevivo na perplexidade
Das mesquinharias diárias,
Aquele que caiu do camelo
No deserto do mundo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016


SOBERBA
A. R. Falcão – maio de 2015
Em águas desconhecidas,
Entro a pé.
Pela pele, perscruto a lama insidiosa.

Num dia estranho desses,
Despertei, ainda sob o lençol,
E tive, de olhos abertos,
Um sonho funesto:

Em tempos remotos,
Vasculhando territórios incógnitos,
Numa manhã de abril,
Dei-me, num sobressalto, com sítio arruinado,
Frente a  meu esquecido irmão,
(morto)
Maculado e inaudito,
Em meio à terra destroçada e aos cadáveres da batalha vencida.

Depois de socorrê-lo, apaziguá-lo
E longo prosear,
Passei-lhe um segredo,
Em obediência a nosso pai,
Grafado num manuscrito
Há muito oculto.
E ele o leu, sem hesitação,
Entre o medo e a sobranceria:

"Sob a sola de teus pés,
Sobre as palmilhas de tuas botas,
Grassa uma maldição
Que desconheces.

Tuas mãos, em manhã inesperada,
Arrancarão da terra
Qualquer arranjo de vida.
Então, verás morrer,
Diante de teus olhos esgazeados,
A vianda de teus filhos.

A fome será tanta
Que vos restarão o entredevorar,
A devastação.
Assim, fartos de sangue,
Das paisagens derribadas,
Tu e a sobra dos teus
Fareis a fome, aos poucos
Abrigar as migalhas,
Que engolireis com sofreguidão desmedida.

Os sobrevivos,  mas não tu,
adormecerão por sete dias e sete noites.
No desespero, amputarás teus pés
E atirarás as botas às feras dos rios.
Em vão:
É tua asneira, teu tormento infrutuoso.

Acabarás quedo teus dias,
Sem audiência, teu fio de voz.
Por fim, em zanga, fundarás, para ti, uma religião
E sofrerás teus invernos nas orações estranhas,
Na única companhia dos destroços de teu cão,
Outrora fiel, outrora inteiro,
Que o resto de teus descendentes terão partido.
Verás, com olhos corrompidos,
As choças consumidas pelas chamas
E será confirmada a profecia.
Sobrará um fiapo de ti, a carregar como sina”.

Então, olhou-me em desamparo,
Dobrou os papéis, travou-se mudo
E ergueu-se como que amparado
Por mistura de orgulho e andaime débil.

Cumprido, em parte, o vaticínio,
Ainda sob a ira e a noite de seu sobrevindo silêncio,
Segui viagem a insondáveis divisas,
Entre a melancolia e a desídia,
Livre, para sempre, do fardo maldito.

Alheio à cama, descalço,
Constrito, acendi um cigarro,
Bebi um uísque sobre a lama e
Fui fazer o que as pessoas fazem:
Carregar seu cadáver na prisão do dia.

 TODOS ENTRE MIM

Eis
Minha sina: enterrar a todos.
As comportas foram abertas
E as águas já correm soltas.
De olhos fechados, observo
Como lagarto sob o sol.
Espero como um tigre
Na sombra escura,
Entre os arbustos.
Feito o feito,
Terei o que me aguarda:
Não a meia, mas
A inteira solidão.

E SE ...

A cada instante, o mundo não é mais esse ou aquele. É mais que esse ou aquele. É outro. Rigorosamente, o agora é passado recentíssimo. Assim, em qualquer momento, somos ainda mais ignorantes deste mundo, frente à sua complexidade incognoscível, frente a seu permanente mistério. O que julgamos saber não passa de especulação convincente, até não convencer mais e mostrar-se teoria errada. Novas hipóteses e teorias a serem verificadas. É como a ciência se mexe.

 A fantasia e a superstição são soltas. Daí a profusão de seitas religiosas, de espiritualidades de farmácia, de fanáticos armados; criando simplificações baratas que apaziguam seus medos - a escuridão das doutrinas e dogmas. Fazem da religião zona de conforto e não o estabelecimento de um sentido qualquer para  a existência e a vida. 


Resigne-se e afaste-se deles, porque são o verdadeiro perigo esparramado. Continue tentando conhecer o que o cerca e se faça mais humano a cada instante. Para quem está unicamente voltado para a vidinha prática e cotidiana e é incapaz de transcendê-la, ignore o aqui escrito e ligue, de novo, a televisão. O sofá não pode esfriar.