segunda-feira, 25 de maio de 2015


ENCALACRADOS

"O que vemos não é a natureza, mas a natureza exposta
ao nosso método de questionamento".
                                                                              Werner Heisenberg

O que é a luz a não ser a escuridão que nos povoa na ignorância e o claro que nos desmantela na contraluz? O mistério que nos encaminha e nos põe em estradas vazias, entre a onda e a partícula? O que faz e desfaz, o que é e não é, o não-inexistente?

Você não vê a luz, vê as coisas iluminadas; ou não vê, pensa e se  lembra dela. Você não vê a morte, vê os mortos; ou não vê, pensa muito e se lembra dela. Cai embaraçado no velho novelo do verbo, na vã filosofia.

É no castelo de palavras, umas sobre as outras, num equilíbrio instável, que se concentram a reminiscência e o esquecimento, numa troca de soma zero, tal como aquela verificada entre um vago "mim" e esse vulto refletido no espelho. Quem há de morrer primeiro? Quem será mumificado pela memória aleivosa? Quem dos descendentes apagará a luz?

As palavras iniciais, à medida que se apagam, serão outras muito mais adiante, muito embora as mesmas. Quem vê jaz cego; quem lê jaz parvo. Somos os que não sabemos quem. E, então, é que não é, e assim é que não sou. E então?!

Deixa pra lá e vá ver se a água já ferveu.


A. R. Falcão - maio de 2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015


JUDIARIAS

Numa distante região da distante Mordália, muito tempo atrás, havia bizarros costumes. Entre eles, as sentenças judiciais impingidas aos praticantes de ilícitos. Vale a pena conhecê-las.

Numa única aldeia (e só naquela, conhecida pelo singelo nome Orys) com alto índice de criminalidade, nas condenações à morte, as execuções se davam de várias maneiras. A que mais empregavam era aquela na qual encaravam a vítima por torturantes horas até que esta, ao não suportá-las, sucumbia. Outra bastante curiosa é a que consistia nisso: diante de uma coluna de formigas em trabalho, o sentenciado devia escolher, entre tantas, uma única delas, que seria marcada pelos algozes,  e segui-la com os olhos nas inúmeras idas e vindas. Tudo acontecia numa diminuta arena que continha o ninho e a fonte alimentar dos insetos himenópteros. Como as formigas operárias são incansáveis, a vítima, depois de tormentoso torcicolo, tinha seus músculos cervicais irremediavelmente danificados. Alguns mamíferos imolados imploravam pela degola tamanha era a dor. Podiam ser atendidos desde que a família fizesse gordos depósitos em ouro nos cofres públicos e satisfizesse o imprevisível edil.

Foram tentadas tais práticas em outras aldeias. Sem sucesso. Como a inveja também mata, um aldeão malévolo (sempre eles) apresentou aos formidáveis verdugos de Orys a besta, que quedaram fascinados por sua eficácia. Alguns reacionários fizeram eloquentes protestos (sempre eles), mas, como foram votos vencidos, acabaram desistindo. Com o passar dos anos, aquelas inauditas práticas passadas caíram no esquecimento. A forca só foi introduzida um século depois para gáudio da população local, que se divertia às gargalhadas com o espernear dos condenados; particularmente as crianças. 

         Deve-se o registro de alguns desses inusitados eventos a uma pessoa incerta, talvez a um viajante que passasse uma temporada por ali. Para somar-se ao fantástico de tudo, mais este: em seu último dia na aldeia, logo depois de acordar, manhã já avançada, foi até a janela de seu aposento e espantou-se com algo estranho: um improvável silêncio de pedra, não havia mais ninguém na aldeia, nem mesmo os cachorros vagabundos de sempre, nenhum pássaro. Assim, tomou uma decisão: arrumou, às pressas, suas coisas e, como os outros todos, desapareceu dali para nunca mais passar por perto. Evadiu-se para contar o que não pôde esquecer e em que ninguém mais acredita.

Hoje, não há vestígios desse povo. A região está submersa sob as águas de um gigantesco e sinistro lago, onde é sempre noite. Como já dizia Nietzsche, o que aconteceu é passado; o que escolhemos contar é história. Fonte dessas sobreditas informações: Biblioteca do Congresso, secção: Judiarias de Estado. Onde fica Mordália, onde fica esse tal lago? Ninguém sabe, que não é para saber. Talvez em todo lugar. Nem fiz bem em narrar.


A. R. Falcão - maio de 2015

terça-feira, 19 de maio de 2015


"SELFIE-BRAZIL"

O quadro, ora e com grossas pinceladas, está assim:

DESCONTINUIDADE. DESCOMPASSO. DESPREPARO. AFOITEZA. INIQUIDADE. DISSIMULAÇÃO. BRUTALIDADE. SANDICE. USURA. DESMEDIDA. IGNORÂNCIA. ALEIVOSIA. TORPEZA. GANÂNCIA.
ALIENAÇÃO. AUTOENGANO. IGNOMÍNIA. MESQUINHEZ. ATIVISMO. ESCULHAMBAÇÃO. LENIÊNCIA. OPRESSÃO. TUTELA. ARROGÂNCIA. INVEJA. DESMAZELO. FANATISMO. LEVIANDADE. DESÍDIA. EGOÍSMO. INCONFIABILIDADE. OSTENTAÇÃO. IMPOSTURA. LEGIFERAÇÃO.
FROUXIDÃO. CINISMO. SOFREGUIDÃO. FRIVOLIDADE. ESTRIDÊNCIA. COVARDIA. AFETAÇÃO. INTOLERÂNCIA. EXIBICIONISMO. VAIDADE. OBUMBRAMENTO. INCIVILIDADE. DESCOMPROMISSO. DESCORTESIA. HIPOCRISIA. TRIBALISMO. VAZIO.


A. R. Falcão - maio de 2015

segunda-feira, 18 de maio de 2015


AS ESCURAS MORDIDAS

Não se apoquente, não se amofine:
Qualquer opção, qualquer ato consumado,
Como todo lance de dados,
Carrega, em seu parafuso,
A porca dos riscos.
Ninguém, infenso a bordas de abismos,
Está a salvo de danos vários,
Lançado que foi, à vida, desconjuntado.
Para os que se atiram à noite de si,
Para outros que não se despem
Do pijama da pasmaceira protegida,
Tanto a todos faz: recato ou dissipação.
Sobre eles,
A tranquilidade inescapável
Do instante inesperado,
O abismo de todos nós:
O berço da inexistência.
Por que melhor seria
Existir?


A. R. Falcão - maio de 2015

segunda-feira, 4 de maio de 2015


IDOS

Seis besouros no bolso,
Um canivete,
Um bilboquê no ombro
E está condensada a infância
Daquele homem morto ali.

Um espelho pequeno,
Um batom, uma pinça
E uma escova de cabelos na bolsinha cor-de-rosa.
Está compactada a possível  sedução
Daquela mulher estirada ali.

Os dois nunca trocaram palavras,
Mas permutaram olhares,
Em promessa vã,
Naquela parada de ônibus,
Naquela tarde vazia de domingo.

Ninguém esperava o brusco fim de tudo,
Esperava o traslado, esperava o afago,
O conforto da sopa quente e o amor do nunca.
O atropelamento faz, da morte,
O desvelo sinistro do acaso permanente.



TURISTAS       

No Cazaquistão,
Numa moradia improvável,
A tinta se soltava aos pedaços
Naquele batente da porta
(Não existem portas)
Que nunca se abre
Em dias pares.

Nos momentos ímpares,
Veem-se, pelo vão,
Pernas, muletas, trapos
E o odor fétido de dias difíceis.

Os invasores sabem que, ali,
O móvel é imóvel,
O claro, escuro.
O vidente, uma podre digestão
E as palavras são interditas.

Presenciam, no espelho de ser,
A torneira que pinga em si,
A poeira e as caspas dos panos
Que, sobre os ombros,
Encobrem o que não querem
Ver e viver.


Mas vão.

SOBERBA
A. R. Falcão – maio de 2015
Em águas desconhecidas,
Entro a pé.
Pela pele, perscruto a lama insidiosa.

Num dia estranho desses,
Despertei, ainda sob o lençol,
E tive, de olhos abertos,
Um sonho funesto:

Em tempos remotos,
Vasculhando territórios incógnitos,
Numa manhã de abril,
Dei-me, num sobressalto, com sítio arruinado,
Frente a  meu esquecido irmão,
(morto)
Maculado e inaudito,
Em meio à terra destroçada 
E aos cadáveres da batalha vencida.

Depois de socorrê-lo, apaziguá-lo
E longo prosear,
Passei-lhe um segredo,
Em obediência a nosso pai,
Grafado num manuscrito
Há muito oculto.
E ele o leu, sem hesitação,
Entre o medo e a sobranceria:

"Sob a sola de teus pés,
Sobre as palmilhas de tuas botas,
Grassa uma maldição
Que desconheces.

Tuas mãos, em manhã inesperada,
Arrancarão da terra
Qualquer arranjo de vida.
Então, verás morrer,
Diante de teus olhos esgazeados,
A vianda de teus filhos.

A fome será tanta
Que vos restarão o entredevorar,
A devastação.
Assim, fartos de sangue,
Das paisagens derribadas,
Tu e a sobra dos teus
Fareis a fome, aos poucos
Abrigar as migalhas,
Que engolireis com sofreguidão desmedida.

Os sobrevivos,  mas não tu,
adormecerão por sete dias e sete noites.
No desespero, amputarás teus pés
E atirarás as botas às feras dos rios.
Em vão:
É tua asneira, teu tormento infrutuoso.

Acabarás quedo teus dias,
Sem audiência, teu fio de voz.
Por fim, em zanga, fundarás, para ti, uma religião
E sofrerás teus invernos nas orações estranhas,
Na única companhia dos destroços de teu cão,
Outrora fiel, outrora inteiro,
Que o resto de teus descendentes terão partido.
Verás, com olhos corrompidos,
As choças consumidas pelas chamas
E será confirmada a profecia.
Sobrará um fiapo de ti, a carregar como sina”.

Então, olhou-me em desamparo,
Dobrou os papéis, travou-se mudo
E ergueu-se como que amparado
Por mistura de orgulho e andaime débil.

Cumprido, em parte, o vaticínio,
Ainda sob a ira e a noite de seu sobrevindo silêncio,
Segui viagem a insondáveis divisas,
Entre a melancolia e a desídia,
Livre, para sempre, do fardo maldito.

Alheio à cama, descalço,
Constrito, acendi um cigarro,
Bebi um uísque sobre a lama e
Fui fazer o que as pessoas fazem:
Carregar o cadáver de si na prisão do dia.