quarta-feira, 27 de agosto de 2014


             YPÊS DAS AMARELAS

 


Nesta atordoada cidade,

São árvores merencórias:

Depois de farejarem a primavera,

Oferecem em sacrifício

Seus iluminados cachos gemados

No altar úmido

Das primeiras chuvas

De setembro,

Para depois e logo desaparecerem.

Os paulistanos são as crianças

Cujos sorvetes dourados

São roubados

De suas inconsoláveis retinas.

 

fim de agosto

segunda-feira, 25 de agosto de 2014


                  A TAL OCASIÃO

 

                                                                                                                                                                          Lucian Freud
Venho sendo imune

Às doenças oportunistas.

Há 35 anos. É prosa.

Não sou imune à morte,

Mas só até a última rendição,

Que morto estarei. 

É poesia.

Gosto de mim até um certo ponto.

Além dele, observo as pedras.

Elas me fazem silenciar por dentro.

É poesia.

O silêncio me ensina o tempo

Que cada um tem. A sua cota,

O seu escuro - o bom escuro. É poesia.

A noite dorme, em meu lugar,

O incontornável poente. Sou animal.

É apenas o tal fim. É poesia.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014


PEDRA

 
Ela não precisa ir,

Não tem pressa de futuros.

Uma pedra é uma caixa de tempos,

Compacta.

É um teatro de silêncios alusivos.

A pedra observada é testemunha;

Tocada, é invasiva;

Repousada é movente.

Em sua imanência,

Nos conta muda

Todas as histórias de buscas

Que ela já guardou pra si.

É como espelho cansado

Recolhido pra dormir

No ócio de existir.

Uma pedra é uma advertência,

Um insulto na escuta,

Um vazio pelo avesso,

Um pouco-caso por carências:

Nos dispensa sem ofensas.

É elidente e consistente.

Seu escárnio diário

É nossa insignificância

Em todas as empurradas manhãs.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014


AH, A ESCOLA...


O professor vive numa “cultura” de seguir instruções, parar e repetir. Sequência que se repete indefinidamente até a aposentadoria. Não há sequência como observar, refletir, criticar e inventar. Sequência como essa não cabe no espaço escolar, que é um ambiente de tolhimento e coação, que se reproduz no processo de ensino e no comportamento dos alunos.

Por sobre tudo, o tacão da burocracia estatal, patológica e controladora, através dos órgãos centrais do sistema oficial de ensino, que a tudo tutela. Infelizmente, a atividade de pensar, em seu amplo sentido, não tem, na escola, um ambiente amigável.

Começa no controle do espaço e do tempo e se estende em inúmeros desdobramentos sutis. Ações sob domínio, passividade e impotência: a coordenação pedagógica não coordena e nem pedagógica é; o gestor não gere, afoga-se em papeladas; o professor segue apostilas pré-fabricadas. Pensar? Nem pensar! É medonho!

Uma escola assim deveria simplesmente desaparecer, porque mata aquilo que inventa, que faz nascer o homem. Começa e termina que estas mesmas considerações são, por si, enfadonhas. São como nada.

quarta-feira, 30 de julho de 2014


RUBI SOLENE

Onde está

O rubi da inocência

Roubado

De cada um?

Onde está?

Foi a noite adulta

A lhes desamparar e distrair?

A busca da beleza

Estará escondida sob um véu escuro

Que a memória sempre trai

Ali na frente?

Certo é que

Enfiado está o dedo

No formigueiro que há de mordê-los

Pelo quintal inteiro.

Então a infância olha a noite

Intestina

Que assim é e será

Sob todas as amoreiras

Que não mais lhes pertencem.

MIGALHAS

Nas festas,

Somos cada pouco

De todos.

No abandono das luzes,

Somos um estilhaço

De todas as ruínas noturnas

Numa única estrela.

Naquela estrela em que pereceremos.

Ah se não fôssemos

Um pecado de cada

Culpa.

E não mais que solidões engalanadas

No ponto

A esperar um ônibus errado.

sexta-feira, 4 de julho de 2014


QUE PASSE O DIA


Maré no chão:
A garça magistral
Contorna o grande canal
Afogado em porcarias.
Calangões e calanguinhos
Fujões e rapideiros.
Borboletas e libélulas
Sobre a latrina líquida.
Mais além, um mar,
O único que, sob o céu
Voraz, se azula.
Passarinhos que o nome
Nem conhecem
E homens nas sombras das castanheiras
Cujos nomes nem se sabem.
Somente um
Insiste,
Frito no óleo de si,
Numa vaga ideia
Das férias que lhe escapam.
A manhã que o assombra em despedida.
Bem-te-vis, pardais, rolinhas
E a puta que pariu.