quarta-feira, 15 de abril de 2015

DEPARTAMENTO DE RELAÇÕES PÚBLICAS

Alguns insetos voadores visitam meu céu doméstico. Não são bem-vindos, por isso sofrem solução administrativa, sem clemência. Dos rasteiros, só aranhinhas são recebidas com chá e torradas. Têm a virtude incomensurável de não serem espalhafatosas, recebem de mim elegância e fidalguia. Há aqueles que nem vejo, por sua natureza diminuta, estes ignoro, como também os absolutamente invisíveis que padecem na fervura das águas, na engenharia do filtro, no sabão, sabonete e na pasta de dentes. Não há cumprimento respeitoso possível; seres indistintos, que cuidem de suas vidas. Ah, uma lagartixa formidável, muito de vez em quando, dá-me a honra de sua passagem anual.

Há uma violeta que vive ofertando flores, por isso é a mais festejada e paparicada - nasceu de minhas mãos. As outras bordam seus verdes em brotos vaidosos, têm meu respeito, sem direito a fotografias de aniversário. Assim minha casa recebe os viventes parceiros. Não há outros, não existem mamíferos frequentes, que perigosos são, quando não, carentes ou impertinentes como cobradores dos atrasados. Que fiquem lá fora, distantes.

Como não há brisa nem raios do sol poente, as luzes se apagam cedo e, depois da sopa,  o anfitrião eventual se recolhe a seu aposento para pouco dormir e muito ler, a aguardar o manto de silêncio que sobre si recai ali pela meia-noite - a hora abençoada e esperada no correr dos dias que mal ou bem me servem.

O mundo insuportável e seus estrondos, sua bárbárie cotidiana, seus automóveis, suas sirenes e seu sangue passa ao largo, mas nunca deixa de derramar seu rastro de execração pelas ruas. Luto em vão no propósito de ignorá-lo, entretanto, tem seus meios cimérios de invadir, de qualquer maneira, o repouso que me deve e nunca paga satisfatoriamente.


Olho os relógios possuído de contumaz melancolia, porque sei o que me espera no espreguiçar da manhã: ventos incógnitos e abismos sem aviso. Os ossos de meu esqueleto pouco me dizem, pouco me alertam. E as aranhinhas não falam português.
BEM AQUI E ALI

A árvore me dá a permanência.
Você não.
Cada ponto de sua linha,
Cada alsa de sua braçada,
Cada rio de seu corpo
Sob as águas que abraçam
O fio de seu tecido
Abre o dia de todos os dias
Que alisam o lençol das horas.
É melhor adormecer no pomar
E pensar que as frutas amadurecem,
Os pássaros pavoam,
Os velhos adormecem
E as nuvens navegam.
Fico aqui na contemplação
Do botão
Da reslavadiça margarida.
Como as formigas,
Você passa, passará
No meu intransponível ontem.



DE NOVO, ESSA CONVERSINHA

Não sei cara de que tenho, talvez seja a irreverência incorrigível, o acento entre blasé e ranzinza, certo é que bastam poucas palavras e são muitas as pessoas que se sentem tentadas a lançar a indagação-arapuca: "Desculpe perguntar, mas você acredita em Deus?" E quedam incrédulos diante do sonoro “Não”.

 

Não me pergunte mais se acredito em deus. Por favor, sinto-me, de pronto, fatigado, apastado. Para o todo e sempre, as linhas que seguem, espero, me farão silêncio e sossego.

 

A idéia de deus empobrece o pensamento, é um muro intransponível, insuperável; desgraça o mistério da existência, impede que a reflexão siga livre, palmeando na infinita viagem da dúvida, matriz de qualquer ânimo de conhecimento.

 

É do homem comum amparar-se em âncoras para, com a canoa presa, balançar-se na marola de sua vidinha. E dali não sai para a aventura, para a busca daquilo que nunca vai saber e que, no entanto, confere encanto à vida.

 

A idéia de deus é um muro autoimposto para o gozo do consolo, da preguiça cognitiva ou covardia. Instalada essa idéia ou fé, não é preciso mais pensar, a pessoa já tem, para si, a Explicação definitiva diante da qual não cabe duvidar. Está resolvida  e acabada sua angústia metafísica.

 

O pobre homem comum, afinal, está condenado à servidão voluntária e necessária, ao trabalho que o brutaliza, expresso em salário sem o qual não sobrevive, de outro modo vai morrer à míngua na inópia das ruas. É o que o ocupa sem descanso e o impede de ser, de fato, livre. Pensar? Não sobra tempo para a ação indagativa.

 

Seu corolário é a indispensabidade do pertencimento, o juntar-se à manada: falar igual, comer igual, vestir-se igual, divertir-se igual, rezar igual, em suma, fazer e ser igual. Diante da solidão inescapável, do fazer-se único, do pensar com a própria cabeça, o homem comum entra em pânico. Tão mais fascinantes seriam a vida e a convivência se os indivíduos fossem únicos, singulares. Todo contato, uma surpresa. Para mim, estar na companhia eventual de humanos banais é beber o veneno do tédio sem o socorro do vômito. Morte lenta.

 

Nunca mais me pergunte. Agora, deixe-me madraço como gosto, na rede maviosa de meus pensamentos e perplexidades, bem longe, muito longe das crenças.                                                                                                                                      

 

A. R. Falcão - março de 2015

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015


 


Tenho na ferida

O trigo,

O tabaco na boca,

O céu na mão,

Uma voz que é minha,

Uma música,

O vinho e o mel.

Mas chove um pouco. É verão.

Estou sempre aqui.

Ali é ali.

E a folha em branco assenta.

Não termina, dorme

Preguiçosamente

A tarde inteira.

 

A. R. Falcão - fevereiro de 15

 
ENQUANTO ISSO
 

Na estação, pai e mãe se despediam dos filhos para uma última e indesejada viagem. O trem, atrasado, não chegava e Seu Teodoro estava impaciente. Foi então que se dirigiu aos inconsoláveis Ambrósio e Lucinda na tentativa de apaziguá-los na resignação:

_ O quê?! Podem ir. Quando e se nós voltarmos, voltaremos.

E o trem apitou lá no horizonte verde claro que, entretanto, também já se expedia.

 

A. R. Falcão - fevereiro de 15

 
ESSA COISA ESTRANHA


Na água,

Nas nuvens,

Tua mão e

A minha;

O amor de ser.

O pão,

A mesa e a brisa.

A árvore,

Os passarinhos,

O mar,

O branco e o negro da lua.

Para de novo termos as formiguinhas

No açucareiro.

 

A. R. Falcão - fevereiro de 15

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015


NOTAS BAIANAS

  A VER
 
Na Bahia, o verão avança por palavrórios retumbantes e gorjeios estentóricos, nas noites sonorosas. A sarrabulhada se esfalfa nas baladas escancaradas. Prima-dona$ prometem coxa$ gorda$ e canoro$ grisalho$ ofertam mesmices aí pelos 800 mil reais. Bulhas, uma borracheira! Quem quiser que vá, pois eu não vou.



 A GRAÇA MAIS LINDA
Um negocinho encantador que saltita seu preto-e-branco, se esquivando de nossas passadas. Fosse amarelado, seria um bem-te-vi anão - seu parente mais próximo. Preguiçoso de voar, seu assunto é perambular no chão. Tivesse laranja o papo, seria um sabiá prematuro. Não anda em par, é um tira-prosa. Como nossa sombra no calor senegalês a pleitear desmembramento; um píon no país das passaradas. Responde pelo nome lavadeira, que gosta do fresquinho das águas que se lhe oferece. Um brinde inesperado no janeiro que já vai se despedindo. Um brilhante de humilde esperança no breu dos dias que, sobre nós, desabam.





AUTOCIÊNCIA E PANAUSÊNCIA
Ruminando sonhos, memórias e devaneios, fantasia e se faz crente em delírios, assertivo. Confrontado, desmente e, para salvar-se, mente. E segue em frente a evolar-se nas águas paradas do tempo. Como se contasse as gotas da torneira senil. A alimentação deletéria repetente e os refluxos recorrentes inflam a ventripotência. A seu juízo, sobram-lhe a injustiça, o furto, a ingratidão e o maltrato. Seu esporte: maldizer o outro. Ele é um santo deus circunscrito a sua autocomplacência. Um nefelibata antes do fim, um self-blefe. Seus olhos nos veem desde o fundo de um vago sorriso. Depois, do nada, adormece. É o mais triste espelho em que nos miramos. Nada nos é permitido fazer. Não quer, não deixa. É soberano no que lhe resta de vida.

A. R. FALCÃO - JANEIRO DE 15