terça-feira, 22 de agosto de 2017


MORTE

Terás teu tento
O campeonato é teu.
Tudo sorrirá por ti.
Dormirás na grama
E o céu abrirá as portas.
Depois ficarás nu,
Saberás teus limites
E não procurarás um médico.
Sabes que vais morrer
Tão logo o sabiá entrar
Em cantos roucos,
As visitas começarem a chegar
Em peso.
Então, alertarás:
Todas as cobras estão soltas,
Os gatos, mortos,
As gavetas das facas, abertas
E teu legado são as avencas
Abertas. E morrerás por fim.
O portão fechado num não.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017


FELICIDADE

Mulheres ...
O que querem as mulheres?
Não sabe. Teve muitas.
Nesse caso, ter é verbo podre.
Não aprendeu nada.
O que querem as pessoas?
Muitas passaram por ele.
E ele por elas.
O que querem as pessoas?
Dizem que é amor.
Ele não passeia neste parque.
Não gosta muito de si.
Existir o aborrece.
Melhor é não ter nascido.
Abraça, só, a vida nele. E já é muito.
Encanta-se com os bichos.
O sol e os passarinhos lhe dão bom dia.
Quem diria?
É feliz a seu modo.
Só e apenas.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017


TRANCO

O vidro quebrado na janela,
A verdade de meus desmembramentos:
Não tenho pulsos,
Não tenho pernas.
Ando aos soltos,
Caminho aos empurrões
Carregando peles.
Envelheci.
Não deixo legados,
Não sei quem herdará
A biblioteca pessoal,
Poemas ruins,
Minhas últimas mulheres, meu filho.
Não há ninguém, só mins.
Há só barba a fazer,
Cabelos a pentear,
Paisagens feias,
Contas a pagar
E outonos, invernos.
Não suporto verões.
A primavera não existe,
Mas há uma aranhinha na cozinha
Com dois nhs. Fico povoado.
Esta verdadeiramente amo.
Sou meu sabonete que caiu.
Adormeço com um tenor de Coltrane,
Adormeço comigo,
Sim com sins.

terça-feira, 1 de agosto de 2017


TEUS 6
                                          a izolda

Tanto faz qualquer dia
Dansifussário e os mortos.
Você surgiu em alguma goma,
Colas de amoras.
Você em algum momento
Foi linda e, hoje, ainda goza
A beleza.
Ficamos lixando
As solas dos pés.
A luz é o que abre
A água de nossos braços,
A angústia de nossos ventos
Ou a brisa de nossas escapadas
Devassas. Felicidades.
Amamos o mingau de todo dia,
O que odiamos.
A tesoura da aranha
Nos cantos de nossos segredos.
Graças a deuses.
 Os que eram de ontens.
Amávamos as formigas lindas.
As abelhas que nos beijavam
Em mel.

E É QUE FOI

Quando de meu bom
Saiu um dia,
De seu dia saiu um logro.
Então, de meus olhos saiu
Um sim,
Dos seus também.
Combinamos que de nossos dias
Sairiam sins
E dos nãos sairiam outros mais,
Que seriam variados
Sins e nãos em festas,
Fora de controle,
Um certo acervo difuso
De desapontamentos compartilhados.


PING-PONG
                                                         A Izolda    

A bolha que, do nada, nos dependura,
Vazia em si, pele fina cobrindo ocos.
A gota que não pinga nunca
Enquanto vivos estivermos.
Furá-la nos reduziria à existência de escravos;
Que se reproduzem na inutilidade                                                           Mas ela, ao longo, infla
Até o insuportável.
Então, como gatos apavorados,
Consideramos pular da janela.
Como o jogo de ter nascido é este,
Não aceitá-lo. Jogo imposto. Nada.
O verdadeiro jogo nos cabe criá-lo.
A Arte, seja qual for.
E deixarmos o legado da dor
Que, de qualquer jeito, já sabíamos.
Tolerar, deixar em planície,
Serenar nas árvores ou em suas mudas.
Agora é com eles seu novo dar e dor,
Descendências de mamíferos.
Furá-la nos reduziria à existência de escravos;
Que se reproduzem na inutilidade
De existir. Sentido?
Insisto: a Arte,
Quaisquer: a do ferreiro,, a da bailarina, a bolinha branca
No jogo vazio com a vida,
No feliz aniversário que enfiamos no bolso furado.
A manhã que nos agasalha a cada dia
E a noite que nos ensombrece.
Puta que pariu!



TODO DIA

Abro a janela,
A luz invade,
Fecho os olhos
E me vejo tonto
De mim.
Terei de ser
O pior dos homens
Mais simpáticos.