sexta-feira, 21 de novembro de 2014


NÃO

Disseram alguma coisa.

A noite era larga.

Senti tudo dentro de mim.

Larga a rua, larga a lua.

Meu deus! O asfalto, Coltrane...

Onde está a cidade?

Ali, bem ali.

A noite aqui,

Bem aqui dentro de mim.

O eu que me escapa.

Não.

A.     R. Falcão - novembro de 14

QUASE
 

A música que passa,

O mingau desce até,

A almofada se ajeita sob,

A luz insidiosa pede licença.

Olho todos os livros

E o silêncio me faz.

Agora sou quase feliz.

Só não sou inteiro,

Porque inteiro é o abacate ali;

As jabuticabas, as bananas e as maçãs.

E não sei o que o são

Meus pés, meus dedos,

Sou uma espécie de quase homem

E o Amazonas dorme nessa noite

Bravo, muito bravo.

Que lençol é esse que mal

Me cobre?

O inseto que me cumprimenta?

O amor foi uma coisa

Que me visitava.

O rio era largo.

Foi quando nadava sob a água

E ela me amava. Eu era quase feliz.

Depois, depois, depois quase dormi.

 

A.     R. Falcão - novembro de 14

segunda-feira, 27 de outubro de 2014


F. Bacon
BEM PESADO

 
No bico do corvo,

Cozinho um galo velho.

No lençol esticado,

Do catre que me aguarda,

Um ramo de arruda.

Alguém que não me conhece

O depositou

Na noite que se anuncia.

Não vou precisar mais,

As cortinas estão cerradas,

Já levaram meus pijamas,

Tudo.

Arrumaram meus restos.

Da última poltrona, ainda vejo, pela fresta,

Uma criança e sua mãe.

Elas vão partir,

Mas vou ficar definitivamente

Até que a noite se estabeleça

De fato, em chumbo nada.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014


JOGO DE ENCAIXES

 


Perspectivas diversas, épocas diversas, aproximações por peças intercambiáveis e ensamblamento:


1. "A literatura é uma facilidade inata e uma dificuldade adquirida". Irmãos Goncourt, fins do século XIX, França.


2. "A única influência da qual é preciso defender-se é a de si mesmo". A. Bioy Casares, meados do século XX, Argentina.


3. "Quando vir suas faculdades aumentarem, tente fazer algo que pareça impossível". R. Kipling, início do século XX, Inglaterra.


4. "A construção da própria obra é um esforço constante para escrever na fronteira do que você não sabe". Rosa Montero, início do século XXI, Espanha.


5. "Se você é um pintor destro em crise, pinte, às vezes, com a mão esquerda". P. Gauguin, fins do século XIX, França.


6. Se preciso for - volta e meia é - não hesite em esfarelar seu fraseado de sempre na busca expressiva do indizível. Este que lhe fala, século XXI, Brasil.


7. Quantas vezes, para se aproximar do mistério da existência, é preciso fazer-se mais ignorante. A procura por conhecimento pede também o desaprendizado. Idem, século XXI, Brasil.


8. Entre a mentira e a ficção, há a fluida planície do cálculo, propósito, incógnito e gratuidade. Enquanto a primeira é pedestre ao perpetrar a rasteira, a segunda oferece o sonho em vigília ao ofertar o salto e o vôo. Uma é insídia, a outra é um paraquedas improvável e desapressado sobre a selva da vida. Idem, século XXI, Brasil.

terça-feira, 30 de setembro de 2014


O INCONTORNÁVEL

 


Nos confins

Do em-comigo,

A escuridão é o silêncio da luz

E, nos meus remotos labirintos,

O silêncio é a escuridão dos sons indesejados;

Os bolsos, cofres das minhas trêmulas mãos

E as casas e botões da camisa

As janelas de minha pele envelhecida.

Guardo o tempo

Num relicário bordado em fios de fina seda

Pelos dias iluminados

Dos distantes banhos de rio da infância.

Hoje, amanheço contra os lençóis,

Inimigo da cidade,

Avesso às vozes redundantes e vazias,

Trucidado nas ruas envenenadas,

Na ira das passadas.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014


A MALDIÇÃO DOS CLICHÊS

 

Entre tantas aberrações verificáveis no comportamento das pessoas nos dias atuais, o mais ostensivo e estridente é a tendência a manifestações por meio de rebanhos. Parece um paradoxo: uma cultura social que, a toda hora, é criticada por seu individualismo e egoísmo exacerbados promove, a todo instante, ações e movimentos que resultam em manadas nas ruas, a ver: ciclismo militante, shows musicais, torcidas organizadas, multidões de fiéis evangélicos, as marchas por qualquer coisa, as maratonas, os agita-galeras, as jornadas indistintas, as viradas, paradas pra todos os gostos e por aí vai.

 Os equipamentos eletrônicos e suas consequentes redes sociais de media, a brutal dependência dos smartphones e a inevitável conectividade patológica fazem o resto; e temos os transeuntes aleijões: cegos, porque não olham para a frente quando caminham (precisamos desviar) e colunas vertebrais retorcidas no afã de enviar e receber mensagens sem fim e fins. Portanto, não há mundo íntimo; não há o estar consigo; o eu mesmo é insuficiente e vai sendo extirpado. As pessoas são provisoriamente elas e seu Facebook, são apêndices de maquininhas e softwares. 

 Bem, assim não parece estranho e pode explicar o paradoxo mencionado: o Brasil teve e segue tendo uma urbanização abrupta, física e virtualmente: o inchaço caótico das metrópoles e a difusão, na ligeireza, da televisão e, agora, da internet em seus vários suportes. Resulta uma horda atirada dos cafundós para certa modernidade do atraso: contingentes notáveis de pessoas que não sabem se comportar no espaço público; não sabem sequer andar na rua, dirigir automóveis e morar em condomínios. Seus ascendentes saíram do Brasil profundo e abraçaram as metrópoles, perderam seu mundo riquíssimo de origem e ficaram culturalmente esgarçados, sem eira nem beira. Sem mencionar o analfabetismo funcional esparramado em todos os segmentos sociais. A cultura reduziu-se a esportes de massas, músicas de mediocridade assustadora, livros de autoajuda e best-sellers descartáveis que passam de mão em mão. A outra cultura protege-se em nichos ainda alcançáveis.

 Há alguns anos, Chico Buarque dizia que o Brasil havia perdido sua delicadeza; é dizer pouco: ele tornou-se um país bruto, bárbaro, violento, incivil, sem o menor traço de urbanidade, bichado por corrupção em todos os níveis. É um país de despreparados, de cima a baixo. Não poderia ser diferente. Educação, saúde e segurança definham celeremente..

 E onde entram os clichês? São o reflexo do tudo na linguagem, a face verbal da indigência mental e cultural. Os clichês dispensam o falante de pensar com a própria cabeça e personalizar sua expressão, sua marca de individualidade na massa amorfa e anônima. É a linguagem pronta para uso imediato, como as roupas industrializadas e a moda impositiva que vestem de forma uniforme a todos, ocultando diferenças num padrão confortável de disfarces da inópia. Basta que abram a boca e o desastre está instalado. E vêm de enxurrada vocábulos e sintagmas, hoje, já vazios: a nível de, enfim, no que se refere, sustentabilidade, qualidade de vida, autoestima, tipo, protagonismo, mano, tio-tiozinho, empreendedorismo, agregar, como um todo, com certeza, stress etc. Até o uso medido e criterioso do palavrão evaporou-se; tornou-se componente indispensável em qualquer fraseado coloquial, o sal da oralidade, e você tem a geração porra-caralho, intratável, descortês, sem interlocução minimamente civilizada possível. Um praga, uma doença de fato.

 Caminhamos para nos tornarmos um país de surdos-mudos uma vez que estamos prisioneiros de uma linguagem oca de sentidos. De forma que a conectividade compulsiva e demente não passa de ilusão, e a solidão perversa inunda as relações; as pessoas precisam estar fisicamente agrupadas a todo instante; chamam a isso pertencimento. Não é, é ordem-unida em ação e pensamento. Mussolini conhecia muito bem o sintoma.

 Tomo palavras de Berta Waldman*: "Um dos principais responsáveis pelo entranhamento do vazio (...) é o clichê, entendido como a fala citada, o molde, que não remete a um ato individual de percepção diante de um elemento único da experiência. O clichê promove a diluição desses caracteres irredutíveis, anulando a observação original de um objeto específico, reorganizando-o sob a forma de estereótipo". Como não há novidade no horizonte dos comportamentos e ideias, "podem irem, que eu não vai".

 * Professora aposentada de literatura da USP e UNICAMP. É autora de Entre passos e rastros. Dedicou-se ao estudo acurado da obra de Dalton Trevisan.

 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014


MUSEU PROVISÓRIO

 L. Freud
Aqui,
Este que se lhe apresenta

É um boneco de cera.

Quando transpuser aquela porta,

Começarei a derreter.

Dissolvido, desaparecerei nos desvãos

Ambíguos da noite,

Dos lençóis amarfanhados,
Das  palavras silenciadas.