quinta-feira, 5 de maio de 2016


SEIXO

O seixo é escultura involuntária,
Que não se desejou assim.
É manipulação das águas.
Outrora foi pedra,
Agora é coisa feita, bem feita.
Sua face permanecerá
Se fugir dos rios.
Só deste modo fica pronto,
Pleno de fisionomia.
As águas têm mãos
Privadas de cinzel.
Cinzel pra quê?
É a arte dos rios que rolam
Nas caravanas infinitas.
A. R. Falcão - maio de 2016


terça-feira, 29 de março de 2016


DE RASPÃO

"O homem não nasceu para trabalhar, mas para realizar sua humanidade". (Delfim Netto). O que seria "realizar sua humanidade"? Criar, criar, criar; na Arte e na Técnica. Na primeira, a diferenciação; na segunda, a invenção. Aí está a delicadeza de espírito. Não repetir sempre como escravo não remunerado ou assalariado. Condenados a embrutecer-se. O homem nasce e já encontra muita coisa feita pelos que o precederam; cabe a ele, então, superá-las, refiro-me à técnica não à arte. Isso é "realizar sua humanidade" a meu juízo. Delfim Netto, como economista liberal que é, pensa na liberdade de iniciativa, na relativa igualdade de oportunidade e na eficiência produtiva. Como de hábito, imponho-me o benefício da dúvida: talvez seja assim.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016


IR ALÉM

Muitos dias e a mesma situação:
Atirado ao asfalto
O porta-retratos vazio.
Oferecia a imagem ausente
Que se furtava
E ainda boiava
Na água das chuvas.
E se fosse aquela pessoa senil
Que vi como um cão
De patas feridas?
Este haveria de sofrer ainda mais dores
Por minhas mãos,
Desde os cacos de vidro?
A mordedura na visita do medo,
Ele não saberia por quê.
Quando o céu desanuviasse em sonhos,
Livre correria nos gramados abertos.
No porta-retratos, eu seria o que
Em meu inelutável vazio?

PERFIL REVISITADO - dez. 15
ao Pedro, meu filho

Contente às vezes, deprimido com o que vejo e fico sabendo em outras; indiferente em relação àquilo sobre que a maioria se debruça; perseguidor, dentre minhas aptidões e percepções, de justiça no miúdo cotidiano - para o grande, sou pequeno; cultivador da liberdade plena de espírito; cooperativo quando há oportunidade e solicitação; contente às vezes, deprimido em outras; solitário por vocação; delicado e cortês no trato; ácido ou agressivo se de álcool abuso; intenso no que sinto; observador atento e silencioso, pensativo permanente.

Avesso a hordas e manadas de quaisquer espécies, mas amo as vaquinhas no pasto; não compareço a eventos que impliquem ajuntamentos humanos; refratário a modismos vários, panelas, tribos e patotas - o que me pôs longe de estabelecimentos etílicos ruidosos, de comidinhas e encontros regulares (Vila Madalena? Argh!); antissocial quando se trata de adesões e ativismos, não abraço causas, desconfio, duvido; nenhuma fé ou crença religiosa, mas curioso sobre religiões como expressão da cultura humana; leitor compulsivo (apaixonado por livros), escritor e desenhista amador - a fotografia e a culinária ficaram no passado, imaginoso em permanente fantasia ; interessadíssimo em arte. Vivo muito só e gosto.

Atividade física é caminhar; quando possível, nadar - academias de ginástica são dos lugares mais sinistros; irascível com a força bruta, crítico permanente da instrumentalização do corpo - o trabalho assalariado já é suficientemente embrutecedor. Feliz? Não. Felicidade? O que é isso senão uma bobagem ignorante e egoísta, sem base no correr da vida, uma mistificação, o véu ilusório da ignorância - olhe em torno, pense no outro. Saia da ilha da fantasia. De outro modo, tenha vergonha na cara.

Dificuldade em desvencilhar-me de hábitos arraigados; organizadíssimo para, em seguida, desarrumar-me e a tudo em volta; depois, o penoso retorno à ordem, numa circularidade indesejada, aparentemente interminável - Sísifo. Se me distrair, estou colecionando bobagens. Intolerância crescente com o desprezo pela civilidade urbana nas metrópoles - a deseducação das pessoas nos espaços públicos, daí o recolhimento também crescente - no Brasil, a rua tornou-se o inferno; há muito, denuncio a barbárie avassaladora. Indignação com a política tal como a praticada aqui e acolá, de ponta a ponta - nenhum vínculo ou pertencimento partidário, nunca - o velho "pensar com a própria cabeça".

Contente às vezes, deprimido em outras. Tido como ranzinza, entretanto, bem humorado e brincalhão, mas... Persigo a conversa elegante, educada, nem sempre ao alcance nos dias que correm - falar pouco, baixo e tratar com carinho a língua. Fidalguia ao relacionar-se, urbanidade em todas as situações possíveis. Coisa muito difícil no patoá da manada (vocabulário de 500 palavras no máximo; não é, mano?) - paisinho de apedeutas ágrafos.

 Quase ninguém mais sabe ou quer ouvir e desaprendem a falar, gritam e vociferam palavrões a esmo.  Pelas bocas, jorra esgoto. Sentenciam sem julgamento ou julgam de modo sumário e burro. A vida dos outros me interessa muito pouco, quase nada, a não ser aquela dos mais íntimos, por isso o fuxico me parece, dos atos verbais corriqueiros, coisa repugnante.

Entedio-me com facilidade (um sofrimento). Blindado para melindres, ouvidor tranquilo de críticas (que, em geral, para mim, não trazem novidades - não escondo defeitos, os carrego), indiferente a elogios; sem ódio em geladeira, severo com meus próprios escorregões e um olhar agudo, involuntário para defeitos, mazelas, incorreções e ruindades alheias. Para os objetos feitos também. Um sofrimento. Não sei se meu desprezo pelo ser humano me protege ou me aliena, mas ele é um fato; prefiro os animais em boa hora. Quero entender e conhecer, fracasso. Vivo cansado de mim.

Como bem, durmo pouco e cultivo uma boa preguiça. Cuido de mim, sem ajuda doméstica de nenhuma espécie. Até agora - 65 anos. Odeio telefones e maquinas em geral. Amo o silêncio (bem inexistente), o sossego e deixem-me em meu canto; à maneira de Caymmi :"podem ir, que não vou". Mas não me furto a um convite simpático para um lugar e companhia interessantes (bens raríssimos).

Gosto, à beira do encantamento, do mar aberto, sem banhistas certamente. Ele dá a exata medida de minha insignificância e ganho a sensata noção de meus limites - a coisa mais parecida ao rezar é observá-lo sozinho no início da manhã, quando o tenho por perto. O muito grande que não me humilha ao diminuir e serve para aplacar as tolas angústias constituintes do homem. Tal como o deserto, mas este não conheço nem conhecerei. A religião de nada me serve, a beleza de um passarinho sim. Se quer saber como me relaciono com a morte, faço uso de uma citação: “A morte é um momento, e da minha vida não há de roubar mais do que isso: o seu momento”.*

O que não sei me afaga, o que julgo saber me inquieta. Nesse quesito como no anterior, sou um homem apaziguado. Alegre às vezes, melancólico quase sempre.

*Da mãe de Francisco Daut (colunista da Folha de S. Paulo) , cujo nome desconheço.


Antônio Rebouças Falcão

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015


O TODO E SEMPRE

Recebo o quarto
Em que me hospedarei.
Sofá-cama aqui,
Poltrona ali,
Mesinha lá,
Cadeira e abajur acolá.
Da janela recebo a contraluz
Que a mim e a ele desorganiza.
De minha desordem de espírito,
Refaço o espaço:
Sofá-cama lá,
Poltrona aqui,
Mesinha aqui,
Abajur lá.
Ponho a janela no bolso
E a luz nos olhos.
Em vez da casa, um hóspede,
Um membro de mim.
Então, fecho a porta e entro para me perder
Nas tábuas do assoalhado.
Apenas e somente deste modo,
Estarei quase feliz.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015


PARA O TODO ONTEM E SEMPRE
A Izolda

Lê-se pouca poesia. Há um motivo: como ela, na maioria das vezes, é de pequeno tamanho e provocadora de grande estranhamento, o “carro emperra”. O leitor raso não volta e abandona o parque. Lê como prosa e, atolado, não gosta. Mergulha no pior dos mundos: “O que ele quis dizer?” O território de Plutão, de fato. O escuro.

Por séculos, a poesia morou na casa da oralidade 
( num país de analfabetos funcionais, a força da canção brasileira). É relativamente recente lê-la em silêncio, com os olhos; perdeu, em muitos casos, os recursos que propiciavam a memorização, rimas e métrica. Às vezes, tornou-se gráfica, mas sempre um objeto verbal.

Partindo do princípio simplificador de que há três tipos de oralidade, entre outras simplificações, pensemos nelas: a “cancioneira” ( a de Homero talvez), canto e cadência; a de litanias memoráveis e repetitivas, orações e cantochão, hinários; a eloquente, “palco e plateia”, a se reproduzir em teatros e saraus: alambicada, verniz de sociedades estratificadas em aço, a nossa, mas não só. Ah, o bacharelismo  e sua "sonetice" patológica.

Depois que a leitura (não declamatória) para os analfabetos foi se universalizando pela escola e a mulher pôde, afinal, ler romances - um perigo! - “grosso modo”, abriu-se a porta do protofeminismo e, no pacote, o bovarismo. Poemas e canções de amor existiram desde sempre, escritos por homens; mais tarde, nossa canção adquiriu a grandeza que conhecemos: a de chuveiro, a namoradeira, a dançante... É do ser humano, em todos os tempos e lugares. Nossa canção adquiriu requintes da melhor poesia. A velha e conhecida oralidade. A gente passeia por aí, mas volta sempre pra casa.

Porém, a poesia, um ser delicado  finamente construído, perde leitores - as tiragens são pequenas, uma maçonaria. Na sociedade de hordas e manadas, tornou-se, para sua mazela, refinada, refinadíssima. E há poetas que a pioram em direção a cofres indevassáveis, a intertextualidade, poesia para poetas. Alguns cancionistas acabaram também com a canções de chuveiro como Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Perderam-se entre a história e egos imensos. Senhores da “media” e a molecada “diluidora”: violões simplórios e letrinhas espertas. A neorretórica de saraus contemporâneos. O mundo, em muita coisa, continua na mesma.

Um poema, lido uma só vez, nem bem se fez. É um feto de três meses. A cada leitura, mostra um palmo, vai aparecendo, até que, por um pouco mais, pede abandono; talvez se torne outro. Mais tarde, no espírito de um leitor sofisticado, o cristal multifacetado que ele é se apresenta na quase plenitude, inalcançável.
Para quem o escreve, não é diferente, por isso é inconcluso; alguém já disse que nunca é terminado, é abandonado - um poema é a celebração de um abandono. O leitor, o mesmo, a cada leitura, se refaz; o poema compartilha dessa viagem. Isso faz, de um texto, um clássico. Se bom, encantador, um poema nunca deve ser lido pela primeira e única vez, nem o dê por compreendido. Ele, como o leitor, será sempre incompleto. A condição para nos fazermos humanos, o caminho por onde os homens verdadeiros andam , para felicidade de alguns e infelicidade de outros.


terça-feira, 17 de novembro de 2015


O PASSEIO E A GRAÇA

Fruir a literatura implica sempre imaginar; numa palavra, criar. É como sonhar, porém não tal e qual. Ver um filme implica observar, próximo à experiência empírica de olhar, contemplar; extrair da sucessão de imagens o vão oculto das conexões entre os planos. Como, clandestinamente, espiar o sonho de um outro. Por isso o escurinho das salas de cinema. O cinéfilo é um “voyeur”.

Disse próximo, porque, em nosso cotidiano, não há cortes frequentes, mas um contínuo do qual descansamos ao apelarmos para a memória de tantos outros eventos de nossas vidas que aguardam nossa visita. Um mar de analogias secretas e íntimas.

 Em ambos momentos, leitura e assistência, é exigido o repouso corporal. A ordinária inquietude física perturba o necessário assombramento que a verdadeira arte pede, um toque de maravilha. No momento da audiência musical, das peças não-dançantes, o relaxamento e o silêncio fazem as vezes do repouso de lá.

O que tem o sonhador de bisbilhoteiro de si, o leitor tem, em vestígios esparsos, indícios de um vago ou intangível outro que lhe escapam a cada nova leitura. O sonhador furta de seu sonho a narrativa que monta em vigília; o leitor surrupia das palavras engenhadas sobre o papel os sentidos que são de sua lavra. Mas não em sua totalidade: a leitura, a assistência e a audiência não deixam de ser experiências sociais. Mesmo na solidão, partilhamos convívios.

Na vida empírica, nos deparamos com o concreto das coisas e pessoas que estão aí, no tempo e no espaço. Na fruição da arte, somos confrontados voluntariamente com imagens nas quais escolhemos tomar parte. A fruição é volitiva. O sonho parece que não. Embora seja um construto, fica a impressão de termos sido pegos de roldão, como se participássemos de um evento para o qual não fomos convidados e pelo qual, entretanto, somos responsáveis, cúmplices. Daí o incomodo plúmbeo dos pesadelos nos quais nos metemos. O alívio ao acordarmos é o da fuga bem sucedida de nossos infernos particulares - aquilo que não queremos nem ler, nem ver, nem ouvir. A fruição artística pode ser interrompida a qualquer momento; o pesadelo, nos limites insuportáveis do horror. O sonho nos toma emprestado; a arte nos oferece. Não foi Nietzsche quem disse “temos a arte para não morrer de verdade”?

Borges, às vezes, se dizia mais leitor que autor. Ler lhe bastava em sua fome de criar, por isso, também, seu fascínio pelos sonhos e pela memória; para ele, brilhantes da mesma pedra; por isso a cegueira iluminada. E a arte? O vento e um pãozinho quente; um sequestro e uma dádiva.


                                                                                                                    A.R. FALCÃO - NOVEMBRO DE 15