quinta-feira, 24 de dezembro de 2015


O TODO E SEMPRE

Recebo o quarto
Em que me hospedarei.
Sofá-cama aqui,
Poltrona ali,
Mesinha lá,
Cadeira e abajur acolá.
Da janela recebo a contraluz
Que a mim e a ele desorganiza.
De minha desordem de espírito,
Refaço o espaço:
Sofá-cama lá,
Poltrona aqui,
Mesinha aqui,
Abajur lá.
Ponho a janela no bolso
E a luz nos olhos.
Em vez da casa um hóspede,
Um membro de mim.
Então, fecho a porta e entro para me perder
Nas tábuas do assoalhado.
Apenas e somente deste modo,
Estarei quase feliz.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015


PARA O TODO ONTEM E SEMPRE
A Izolda

Lê-se pouca poesia. Há um motivo: como ela, na maioria das vezes, é de pequeno tamanho e provocadora de grande estranhamento, o “carro emperra”. O leitor raso não volta e abandona o parque. Lê como prosa e, atolado, não gosta. Mergulha no pior dos mundos: “O que ele quis dizer?” O território de Plutão, de fato. O escuro.

Por séculos, a poesia morou na casa da oralidade 
( num país de analfabetos funcionais, a força da canção brasileira). É relativamente recente lê-la em silêncio, com os olhos; perdeu, em muitos casos, os recursos que propiciavam a memorização, rimas e métrica. Às vezes, tornou-se gráfica, mas sempre um objeto verbal.

Partindo do princípio simplificador de que há três tipos de oralidade, entre outras simplificações, pensemos nelas: a “cancioneira” ( a de Homero talvez), canto e cadência; a de litanias memoráveis e repetitivas, orações e cantochão, hinários; a eloquente, “palco e plateia”, a se reproduzir em teatros e saraus: alambicada, verniz de sociedades estratificadas em aço, a nossa, mas não só. Ah, o bacharelismo  e sua "sonetice" patológica.

Depois que a leitura (não declamatória) para os analfabetos foi se universalizando pela escola e a mulher pôde, afinal, ler romances - um perigo! - “grosso modo”, abriu-se a porta do protofeminismo e, no pacote, o bovarismo. Poemas e canções de amor existiram desde sempre, escritos por homens; mais tarde, nossa canção adquiriu a grandeza que conhecemos: a de chuveiro, a namoradeira, a dançante... É do ser humano, em todos os tempos e lugares. Nossa canção adquiriu requintes da melhor poesia. A velha e conhecida oralidade. A gente passeia por aí, mas volta sempre pra casa.

Porém, a poesia, um ser delicado  finamente construído, perde leitores - as tiragens são pequenas, uma maçonaria. Na sociedade de hordas e manadas, tornou-se, para sua mazela, refinada, refinadíssima. E há poetas que a pioram em direção a cofres indevassáveis, a intertextualidade, poesia para poetas. Alguns cancionistas acabaram também com a canções de chuveiro como Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Perderam-se entre a história e egos imensos. Senhores da “media” e a molecada “diluidora”: violões simplórios e letrinhas espertas. A neorretórica de saraus contemporâneos. O mundo, em muita coisa, continua na mesma.

Um poema, lido uma só vez, nem bem se fez. É um feto de três meses. A cada leitura, mostra um palmo, vai aparecendo, até que, por um pouco mais, pede abandono; talvez se torne outro. Mais tarde, no espírito de um leitor sofisticado, o cristal multifacetado que ele é se apresenta na quase plenitude, inalcançável.
Para quem o escreve, não é diferente, por isso é inconcluso; alguém já disse que nunca é terminado, é abandonado - um poema é a celebração de um abandono. O leitor, o mesmo, a cada leitura, se refaz; o poema compartilha dessa viagem. Isso faz, de um texto, um clássico. Se bom, encantador, um poema nunca deve ser lido pela primeira e única vez, nem o dê por compreendido. Ele, como o leitor, será sempre incompleto. A condição para nos fazermos humanos, o caminho por onde os homens verdadeiros andam , para felicidade de alguns e infelicidade de outros.


terça-feira, 17 de novembro de 2015


O PASSEIO E A GRAÇA

Fruir a literatura implica sempre imaginar; numa palavra, criar. É como sonhar, porém não tal e qual. Ver um filme implica observar, próximo à experiência empírica de olhar, contemplar; extrair da sucessão de imagens o vão oculto das conexões entre os planos. Como, clandestinamente, espiar o sonho de um outro. Por isso o escurinho das salas de cinema. O cinéfilo é um “voyeur”.

Disse próximo, porque, em nosso cotidiano, não há cortes frequentes, mas um contínuo do qual descansamos ao apelarmos para a memória de tantos outros eventos de nossas vidas que aguardam nossa visita. Um mar de analogias secretas e íntimas.

 Em ambos momentos, leitura e assistência, é exigido o repouso corporal. A ordinária inquietude física perturba o necessário assombramento que a verdadeira arte pede, um toque de maravilha. No momento da audiência musical, das peças não-dançantes, o relaxamento e o silêncio fazem as vezes do repouso de lá.

O que tem o sonhador de bisbilhoteiro de si, o leitor tem, em vestígios esparsos, indícios de um vago ou intangível outro que lhe escapam a cada nova leitura. O sonhador furta de seu sonho a narrativa que monta em vigília; o leitor surrupia das palavras engenhadas sobre o papel os sentidos que são de sua lavra. Mas não em sua totalidade: a leitura, a assistência e a audiência não deixam de ser experiências sociais. Mesmo na solidão, partilhamos convívios.

Na vida empírica, nos deparamos com o concreto das coisas e pessoas que estão aí, no tempo e no espaço. Na fruição da arte, somos confrontados voluntariamente com imagens nas quais escolhemos tomar parte. A fruição é volitiva. O sonho parece que não. Embora seja um construto, fica a impressão de termos sido pegos de roldão, como se participássemos de um evento para o qual não fomos convidados e pelo qual, entretanto, somos responsáveis, cúmplices. Daí o incomodo plúmbeo dos pesadelos nos quais nos metemos. O alívio ao acordarmos é o da fuga bem sucedida de nossos infernos particulares - aquilo que não queremos nem ler, nem ver, nem ouvir. A fruição artística pode ser interrompida a qualquer momento; o pesadelo, nos limites insuportáveis do horror. O sonho nos toma emprestado; a arte nos oferece. Não foi Nietzsche quem disse “temos a arte para não morrer de verdade”?

Borges, às vezes, se dizia mais leitor que autor. Ler lhe bastava em sua fome de criar, por isso, também, seu fascínio pelos sonhos e pela memória; para ele, brilhantes da mesma pedra; por isso a cegueira iluminada. E a arte? O vento e um pãozinho quente; um sequestro e uma dádiva.


                                                                                                                    A.R. FALCÃO - NOVEMBRO DE 15

segunda-feira, 16 de novembro de 2015


COM TODO RESPEITO*

Muitas pessoas com fé de base religiosa pensam que podem transformar o mundo, mudar a realidade à sua volta. Não me refiro à determinação louvável de quem deseja mudar seu comportamento, mas àqueles que esperam alterações positivas e benéficas naquilo que não lhes concerne, naquilo em que não podem interferir. São os esperançosos "de boa fé" que imaginam resolver problemas graves e curar doenças de parentes próximos, amigos, ídolos com rezas e trabalhos místicos de acento esotérico. Uma rematada tolice, daí a proliferação de picaretas, espertos, patifes...

Nada contra a crença e a fé dos devotos. Elas os consolam na dor, o que não é, em si, um mal. Ajudam seu psiquismo, seu equilíbrio emocional em suma, os afastam do desespero. É um benefício universalmente cultivado. Resta aos céticos a resignação, com que convivem apaziquados.

Como a maioria dos semáforos paulistanos para pedestres (ou todos, a meu juízo e pela constatação empírica) estes, às vezes, coincidem com a interrupção do tráfego veicular, em sendo acionados. Da mesma forma, a cura,  o arrefecer do sofrimento podem "acontecer" após rezas, benzeduras e promessas ininterruptas. Se acontecerem, é que os "pedidos" foram atendidos.

 Os crédulos, em geral, são rígidos e inflexíveis em suas convicções. Ingenuidade, ignorância ou autoilusão. A fé lhes basta; a reflexão e dúvida sistemáticas são, neles, rarefeitas, porque inalcançáveis ou insuportáveis para suas fragilidades existenciais. São os sem-Iluminismo, ficam entre um misticismo arcaico e um ocidentalismo meramente comportamental. Não passam sob escadas embora sejam contemporâneos e digam ser dotados de razão e vontade (leia-se fé). Não percebem a contradição, são assim mesmo.

Outra: 86% da bancada evangélica e do eleitorado* entende que acreditar em deus torna as pessoas melhores; ignora que a grande maioria dos presidiários condenados, cumprindo pena, e, dos homicidas são crentes. Sobre isso se cala. Sem comentários.

O Alcorão* começa assim: "(...) 2. Esse é o Livro, nele não há dúvida alguma. É orientação para os piedosos [devotos]. (...) que creem no [no Alcorão] que foi decidido do céu para ti [para o profeta Muhammad] e se convencem da Derradeira Vida." A Bíblia não é diferente; é ver o Pentateuco e Evangelhos, por exemplo.


Nisso que chamam  Brasil, outros, “pátria educadora”, desde sempre, reza-se por saúde, segurança, justiça, chuva, promoção econômica, emprego, sorte, bonança, amor, dinheiro etc. Por isso é o país mais feliz do mundo, que o digam os camponeses vítimas de seca severa, os urbanos vítimas de enchentes recorrentes, mães e bebês vítimas da microcefalia no Nordeste, indígenas do sul mato-grossense, os atolados no deserto de lama tóxica em Minas, as vítimas de roubos,  latrocínios ou violência policial, mais mortes por assassinato (mais de cinquenta mil por ano) que os mortos norte-americanos na guerra do Vietnam (mais de cinquenta mil em dez anos) e tantos outros na amargura escura. Se sofrem ou morrem é porque estão em pecado e não sabem; o Brasil é o melhor país do mundo, é o que também dizem.

No buraco em que estamos,  a prática rezadeira se espalha como aedes aegypti em São Paulo, no verão. Que dizer dos inocentes mortos em Paris (13. 11. 2015), dos refugiados afogados no Mediterrâneo a toda hora e muitos mais por esse mundo afora? Por onde andam deus, deuses, entidades, magos e santos que não os protegem? Não foi Jesus quem, na hora H, disse ter sido abandonado pelo Pai? Pois é, leiam a Bíblia a que temos acesso já que não alcançamos o aramaico, o grego ou o hebraico. Distância de textos apócrifos tidos como “Bíblia”, reescritos por “pastores” patifes, enriquecidos,  para pobres fiéis sem instrução. Um crime.

 Aguardem as tragédias que sempre vêm por aí, provocadas pelo homem ou pela Natureza indiferente. Não adianta rezar, "meu irmão". Seja o que for, será. O melhor consultivo é o acaso que nos atormenta (ou não). Pergunte a ele; é infalível.

* Por quê? Pra quê? Pra nada.
* Fonte: Datafolha.
* NASR, Helmi (realizador). Nobre Alcorão, tradução do sentido para a língua portuguesa. Society of the Revival of Islamic Heritage – Complexo de Impressão do Rei Fahd.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015


"VIVENDO" O BRASIL!

E se a mania nacional ("ficando" antiga) pelo uso indiscriminado do gerúndio for uma introjeção linguisticamente manifesta da continuidade acumulada, ao longo do tempo, de nossas manjadas mazelas (Ufa!): degeneração moral (corrupção endêmica), patrimonialismo, violência contra a mulher, latrocínios, roubalheira e furtos à luz do dia, homofobia e assemelhadas, discriminação racial, exploração do trabalho, abandono da infância, adolescentes cruéis, crime organizadíssimo, burocracia patológica e paralisante, assistencialismo populista e eleitoreiro, representação política fraudulenta, despreparo generalizado dos órgãos públicos, líderes cavilosos, as artes rebaixadas ao grotesco das manadas, educação miserabilizada em amplo sentido, saúde pública no bueiro, insegurança cotidiana e violência policial somada a seus membros corruptos... É preciso mencionar mais?!


A convivência com o lixo contínuo da vida brasileira terá, então, contaminado a linguagem; o gerúndio epidêmico é apenas a face mais visível desse envenenamento, dessa estafa sem fim. Sob os falares cotidianos, na praga dos clichês ("qualidade de vida", "autoestima", sustentabilidade" etc.), há muito mais. Para o bom ouvinte, amplificadores são dispensáveis. Ações e sua correspondente expressão se arrastam no tempo por diversas formas: "Com certeza", "a nível de", "Enfim", "Estou ótimo(a)"... Por isso, o patriota, o militante (soldado da doutrina), burros como só podem ser, enchem o peito, erguem o braço de punho fechado e, em vez do velho "Viva o Brasil!", esbravejam: "Vivendo o Brasil!". O vírus que nos assombra tem um nome: "continuum inexorabilis".

terça-feira, 3 de novembro de 2015


SANDEU

Abrumei-me sob a palavra.
Entregue-me sob a porta.
Inesperada e indesejada
No domingo ensolarado,
Que, de súbito, se fez medonho.

Abrumaram-se, sob a palavra,
Meus velhos sapatos, o paletó puído
E as árvores alindadas de setembro.

Não sabia que seria servida.
Sem aviso, sem o sentido
Que ali ignorava
E que sabe a fel.

Abrumei-me ainda mais
Sobre o dicionário
Que se arrumou apedeuta
E não me iluminou.

Deitei-me a imaginar a mão
Que plantou a névoa
Invasora, a desmedida,
A impérvia,
A sempre impraticável palavra.

CHÃO DE ESTRELAS

Esculpidos pelo vazio do tempo,
Lambidos pelos sucessivos rios,
Foram repousar no leito dos mares.
Até que as marés os expulsaram
Para a hesitação e afago de meus dedos.

Objetos de contemplação ignorante
E perplexa,
Dormem sobre mesas, carpetes e consoles.
Uns têm cães e gatos, tenho seixos
De misteriosas paragens e procedências.

Até que a história me expulse
Sem hesitação e afago.

Indiferentes, sua virtude diamantina,
Saberão o que fazer.
Sem hesitação e afeições.
Errarão de chão em chão,
Sua autonomia,
Na poeira dos tempos.
Não lhes importa:
Como nós, poeira já foram e
Certamente, um dia, de novo, serão.