domingo, 26 de agosto de 2007

UM DISCURSO


Em solenidades, particularmente de educadores, há um mau gosto generalizado por metáforas: slogans, frases feitas, jargões e respiros de heroísmos messiânicos. É uma espécie de mau-caratismo da profissão.

Ser professor é coisa difícil de definir. Educar é mais difícil, daí o gosto fácil e parnasiano pela metáfora, a que ilustra cartolinas em sala de professores no Dia dos Professores. Ou azulejos em varandas pedagógicas.

35 ou 40 crianças em solicitações simultâneas é brincadeira sinistra. Supondo que, na média, uma criança moderna tenha um dos pares de domínios familiares, vocês estarão lidando com 80 ansiedades e cobranças. Para o leite de suas próprias crianças, múltiplas sinistroses. Múltiplas turmas. É assim e muito mais. Não é coisa pequena, mas é fascinante. Como a guerra. Somos, no Brasil, uma espécie de Cruz Vermelha pedagógica permanente.

Por que ser educador?

Nos anos sessenta e setenta, era uma tarefa política contra o Estado. Matreiramente, o Estado abraça a Educação para oferecer um engenheiro (sem emprego) como chofer de táxi - ou de ônibus. A Educação não se aparta do resto. O educador é um modo formal de criar encrencas. Contra um Estado que, por não se aborrecer, dá um tiro no pé. A Educação não é uma panacéia. O educador ou é um humilde ou não é nada. Humildade como resignação e resistência frente ao crime do Estado; por isso também a confusão com o sacerdócio. Médicos são nossos parceiros como vítimas dessa miopia oportuna.

A despeito do Estado, seguimos. Como a Educação, no caldeirão em que estamos, não é nem pode ser espontânea, somos e muitos de nós seremos braços do Estado. Padecemos de um mal de Hamlet: sermos ou não sermos braços de políticas governamentais? Dormimos e acordaremos com um dilema que nos atravessará como espada pelo ventre. Sou guerreiro voluntarioso ou soldado raso, sob o grito federal, estadual ou municipal de um burocrata do ensino?

A graça de se formar e esquentar motores para o trabalho é ter pelo ventre uma espécie de gestação sobre a qual não temos controle. Uma espécie de fúria, de gana, de faca afiada. Um destino que, ao amadurecermos, nos dobrará sobre passados e presentes, e, nos virá trazendo mais luz sobre futuros mais mansos, mais plásticos e menos fatídicos. Jovens e irresponsavelmente lúcidos, indistintos na sala de aula. Que quaisquer deuses nos abençoem!

Um comentário:

F. disse...

Muito bom!
=)