terça-feira, 28 de abril de 2015


ALGUMAS OBSERVAÇÕES AO ACASO

1. A língua portuguesa, para a grande maioria, é um angu de caroço, notadamente no que se refere às concordâncias. Desconfio de que a maioria acostumou-se à comodidade e conforto comunicativos, proporcionados pelo cobertor da precariedade expandida. "As menina foi pra lá e a gente ficamos aqui".

2. Dois ativistas debatendo num boteco de esquina põem no chinelo as comadres que se mordem no portão.

3. Por força de lei, dois fumantes, em colóquio na calçada, fazem simetria com aqueles dois catadores de papelão ali na faina ingrata.

4. A misericórdia considerada pelo algoz é mais provável que aquela insinuada pelo fisco.

5. O "pulo do gato" na conjunção carnal é expressamente interdito no seio (epa!) dos Congregados Marianos.

6. No metrô, surrupie duas carteiras por dia. Em seis meses, você estará apto para a posse de uma cadeira em qualquer parlamento brasileiro.

7. Bêbado que se preza sempre bebe de lado para pensarem que só tomou a metade. O copo fica sob o balcão para que os retardatários nem pensem que continua molhando o bico.

8.  Morrer num pronto-socorro de hospital público é tão prosaico quanto morrer sob um viaduto nas marginais. Nos dois casos, há pelo menos a proteção de um teto. Já é um consolo.

9. Fique tranquilo: do jeito que as coisas caminham, sua aposentadoria só será concedida quando você for lembrado na missa de sétimo dia. A não ser que seja companheirão daquele barnabé chinfrim. Aí...

10. Professores do Brasil, conformem-se: prato feito é um mixórdia de nutrientes que seu vale-refeição não cobre.

11. Para certas chefias de governo, “crise hídrica” é mais ou menos assim: se chove muito, é porque está chovendo (enchentes); se não, é porque não está chovendo (secas). Reclamem, pois, com quem é do ramo: o bispo. E estamos conversados.

12. Se para ouvir música de fato, é preciso fechar os olhos; para ver com acuidade, é necessário retirar fones de ouvido e guardar a maquininha. No Brasil, nem bem se ouve, nem bem se vê.

13. Silêncio é requisito essencial para a boa leitura. Como aqui a regra é a logorreia numa logomaquia infinita, pouco importa. Do que se lê, não se entende patavina.

14. Uma hipótese é condição prévia para o agrupamento de eventos pertinentes e a justa pergunta é preliminar para a boa pesquisa. Aqui, realizado um projeto, não é preciso ter ocorrido nem uma coisa nem outra, basta o carimbo certo.

15. Em São Paulo, o poder público resolveu definitivamente o sério problema das árvores cadentes: arboriza a cidade com árvores mortas. Assim, a população sabe que aquelas vão cair. Não é genial?!

16. Pela manhã, o apaixonado por aritmética olha o relógio, verifica o número de quilômetros percorridos e seu tempo gasto; pelo Ipad, conhece a quantidade de mortos pelo mundo, o montante de cadáveres nas rodovias e a extensão do engarrafamento. Pela leitura das embalagens à sua frente, o número de calorias a consumir. Depois, banhado, vestido, apaziguado e mais sadio, põe-se a calcular o imposto devido, que é abril e o Leão não espera. É um craque. 

17. Você patina ao aduzir pra si indagações sem fim.. Esqueça. Filomeno que é feliz, em sua inteligência, só existem agás.

 18. Entre a história da filosofia, v.1, sobre a mesa e o bulício das crianças no quintal, há um vácuo em que só as maritacas sobrevivem.                                                                                                                                   

                                                                                                                                                    

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