terça-feira, 10 de dezembro de 2013










É, FOI

Difícil é dizer o já dito,

O que nos olhos é franco,

Porque o dito vem já filtrado.

O que o corpo diz nem sempre é bonito.

Se amanheceu despassarado,

Num quintal de infância infeliz

Mesmo de amplas cigarras e melancias,

De bocas pintadas de amoras e vinhos

E de árvores lindas.

É.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013


BOTÂNICA

Neste ano, plantei duas árvores.

Furtaram a primeira.

A segunda seca

Sob minha melancolia.

Ano passado plantei três.

A primeira está lá

Sob minhas estranhas indagações.

A segunda, quando vi,

Se é que vi,

Já não estava lá.

A terceira, sob o gargalhar das feras,

Cresce torta.

Gosto de dar nós difíceis,

Depois desatá-los

Ao som de jazz e

Sob o morder das castanhas

De minha infância.

Então é que, nessa manhã,

Meus olhos choravam às vezes.

São as gagas ocasiões.

Hotel Room by Edward Hopper
UM AMOR

Você bate à porta,

A porta bate.

Você chega,

O silêncio ouve atento.

Você come,

O prato é vazio.

Você é ontem, anteontem.

Você é nunca mais.

Pegue os grãos ínfimos do chão.

Aqueles que fizeram em tapete,

Em romance,

Em que mais não sei.

Há um mingau, um horário,

Um ventre na estação. Um tempo.

E a voz que sempre se calou.

Se apresse,

É o trem.

A.     R. Falcão - novembro de 2013

segunda-feira, 18 de novembro de 2013


O RIDÍCULO SÓ

 
Aos poucos,

Entre os mesmos,

Os nens e os nãos.

Olho uns

Quando vejo.

São os sins de sãos.

De outras vezes,

Nem seis nem dez.

Acordo bem

Nas incertezas.

O que me abastece.

Sonho com todos os outros.

Depois, muito depois,

Adormeço em meus próprios braços.

Sonhos de inverno.

Nas águas e traços

Em que me lavarei,

O mar e meu próprio governo.

Mais e menos.

Os sins dos silêncios.

Pleno de não-dizeres.

BASES BINÁRIAS

A Érico
 “Se quisermos estar em casa neste planeta, mesmo ao preço de estar em casa neste século, precisamos tentar participar do interminável diálogo com a essência do totalitarismo”.  Hannah Arendt

 
Se me perguntassem, sem algum aviso antecipado, sobre o que mais caracteriza o ser humano, diria que é sua percepção da realidade objetiva (seja lá o que isso for) fundada em bases binárias. O que vem a ser isso? É apreender tudo em dupla chave. Assim: preto/branco, quente/frio, grosso/fino, doce/amargo, perto/longe, mais/menos, alto/baixo, feio/bonito, claro/escuro, gordo/magro, certo/errado, solto/preso, bom/mau, lento/veloz, e assim por diante, porque essas chaves parecem infinitas, tal como a complexidade do mundo. Algumas delas devem também servir aos animais. Não sei.

 
A maioria das pessoas, o comum delas, em todos os lugares, não se descola dessas bases – a primeira orientação, as balizas atávicas, o equilíbrio seminal. Aparentemente, nem é preciso. O grosso das atividades humanas não demanda mais, uma vez que a maioria dos homens se limita, por infeliz contingência, a subsistir. Essa maioria cresce e parece não ser capaz de alçar voos, ou teme-os. No pedestre mundo prático, é compreensível e justificável; no plano abstrato dos conceitos, da fome de transcendência, aterroriza-a arriscar-se no impreciso, no indefinido. Sentir-se-ia, aí, afogada no pântano escuro do mistério, da insegurança e da dúvida. As certezas se plasmam e se ancoram  nessas bases binárias. Estas são o território, por excelência, das doutrinas, dogmas e explicações definitivas. Inventa as religiões e as ideologias políticas – coirmãs tantas vezes.

 
Elas são a mãe de todos os fanatismos e extremismos – a convicção da posse da verdade, e assim é feita a demiurgia de mundos. Todo fanático ou extremado é essencialmente burro por colar-se rigidamente ao solo desses pares primários. Tem pavor a nuances e ambiguidades. Atola-se nesse lamaçal sinistro. Quem não está com ele é inimigo a ser extirpado. O fanático é perigoso e dado à violência em suma. Todo dilema e conflito são resolvidos à força (vis, o étimo latino comum). O pregador severo que não negocia, enfrenta; nem troca, impõe.

 
Assim, estamos diante do lastro humano de toda espécie de totalitarismo. De outro modo, os totalitarismos são sempre o mesmo. Inicialmente, a conquista, depois, a certeza de governo. É um só: o prisioneiro das sobreditas bases, rente a esse chão funesto se dele não parte para o alto. Rígido como liga de carbono.

 
A Arte, a Ciência e a procura do Conhecimento têm as asas dos albatrozes. Insatisfeitas, têm a vocação para a crítica, a superação, a negação, a desconfiança, a dúvida permanentes – a atividade de pensar.

 
O caráter móvel e transfigurador da primeira; o provisório permanente (ou vice-versa) da segunda; o imponderável e intangível da terceira. Para elas, não cabem piso ou balizas. Tudo escapa ao tentarmos pegar. Estamos sempre sem nada, ricos em nossa pobreza insaciável, olhando para o céu em que desaparecem.

 
Não seguem nem gostam de ser seguidas. Não ficam, fluidas que são. Mas, se eu estiver errado?

 

A. R. Falcão – novembro de 2013

sexta-feira, 18 de outubro de 2013


PROSSIGO ANTIQUADO E DESLOCADO

 

1.                          Certas celebridades, entre muitas delas, artistas (assim chamados), usam a doença para, despertando piedade, vender, pelos meios de comunicação, qualquer coisa em troca de um rico “dinheirinho”. Antigamente, isso era entendido como cobiça desmedida por oportunismo sem freios. Moral capenga e hombridade rasteira. Seu parente mais próximo é a sexualidade (intimidade) de palanque, palco e media. Haja saco!

 

2.                          Curioso é que surpreenda muitos o farisaísmo de “Grandes Eus” como Caetano e companhia. O inequívoco propósito censurador, ganancioso e a ignorância jurídica arrematam um bordado sórdido, concebido nos cofres da finória empresária Paula Lavigne. Do ponto de vista legal, a Constituição é maior que o Código Civil (que estão num escandaloso desconcerto), burros! Do ponto de vista moral, nem falar. É nojento. É a grande perfídia desses Egos inflados que povoam, há muito, nossos ouvidos. Putz!

 

3.                          Por que esses carrapatos tecnológicos não se aferram ainda mais a sua conectividade patológica e fazem seus manifestos, protestos e muxoxos apenas pelas redes sociais? Ninguém aguenta mais ou dá a mínima. Junho vai, pouco a pouco, a cada manifestaçãozinha, virando somente um caso de polícia. Duzentos gatos pingados paralisando e quebrando cidades?! É inaceitável tantos danos e tanta burrice política. Enquanto o grande vale do Anhangabaú fica vazio, à avenida Paulista resta o pântano da anomia. Insânia! O Poder Público? Ah... olha para outro lado, está no palanque, de onde nunca saiu. A fraude Lula é muito recente, não dá para esquecer. O “povão”? Obtuso, compra mais carros, motocicletas, incendeia pneus, ônibus, trens, o que estiver à mão e vai aprendendo a democracia pelo livro errado. Esquece, não vai dar certo. Isso ainda acaba mal.

 

A. R. Falcão - outubro de 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013


ENGANOTEC

 
Não na tela,

Ver o céu

No céu de azuis olhados.

Não na tela,

Ver o mundo

No mundo

Habitado ao largo.

Não na tela,

Estar com pessoas

Nas pessoas vivas, presentes.

Não na tela,

Nadar,

Mas nas águas molhadas.

Não.

É tão simples tocar a joaninha

No infinito

Da ponta dos dedos.